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Do Direito Penal para o Crossfit. A motivadora e bem sucedida mudança que Carla Nunes Costa enfrentou e não se arrepende

Entrevista disponível na edição de Março

Não desfazendo da nossaentrevistada que nos trouxe muita inspiração e conhecimento com as suaspalavras, quem merece uma menção honrosa é indubitavelmente a sua filha,Otchali (ou ‘’Tchala’’, como carinhosamente a chama a mãe), que temperou e deucor à entrevista com o seu riso; com os seus choros; com as suas ‘’tentativasde chamar a atenção’’ (segundo Carla). Todas estas graças representadas numcorpinho mirim, ornado por lindos caracóis dourados e umas covinhas deliciosasnas bochechas.

‘’Eu não sei sernormal’’

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Algo que repetiu constantementeao longo de toda a entrevista. E foi exactamente por isso que o Crossfit surgiuna sua vida. ‘’Estava a fazer Muay Thai e vi umas bolas pretas com pegas eperguntei o que eram. Ele respondeu que eram kettlebells mas vi perfeitamente que não sabia explicar mais arespeito então fui pesquisar. Encontrei cursos de nível 1, 2 e 3, e como não sei ser normal, inscrevi-melogo nos três! Fui, fiz e morri e achei espectacular’’, diz entre gestos e risos.

Do Direito Penal para o Crossfit. A motivadora e bem sucedida mudança que Carla Nunes Costa enfrentou e não se arrepende

Apesar de sempre ter gostado dedesporto, amor esse herdado do seu pai, que sempre apreciou e praticou, Carlasó começou verdadeiramente a ‘’treinar quando fui para a África do Sul, com 19anos’’. Começou pela canoagem, que fazia com a sua colega de quarto e comamigos, regularmente. Além disso, paralelamente, ‘’tinha cassetes (ênfasegrande em cassetes, entre risos) daJane Fonda (…) por causa dela descobri uma paixão pelo exercício’’.

Mas na verdade, a formaçãoacadémica da coach é em Direito Internacional Penal, que concluiu na Holanda.Trabalhou em courts penais por todos os continentes, porém, o exercício doDireito e o estar constantemente ‘’exposta ao lixo da humanidade: genocídios;violações; crimes de guerra (…)’’ começaram a pesar na sua mente e no seucoração, empurrando-a para uma depressão profunda que a levou a questionar-seacerca da sua própria identidade. ‘’Sepensas incessantemente na reforma tão nova, algo está errado’’.

Esse questionamento foi umprocesso difícil, pois Carla buscava algo diferente. Sabia o que não queria mas‘’O que é que eu quero? Como faço para chegar lá?’’.

A resposta estaria na África doSul, para onde regressou, o que também não foi fácil, devido ao sentimento deculpa e de responsabilidade inerentes às expectativas que os ‘’pais depositamnos filhos, aquela necessidade de recompensá-los por todos os sacrifíciosfeitos pelos filhos’’. Mas independentemente disso e com muita luta, foi namesma, porque acima de tudo ‘’façoaquilo que me faz bem’’.

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Na África do Sul ganhou ocampeonato africano de Crossfit Games e a partir daí, começou a andar por todoo mundo, ajudando ginásios a treinar o seu staff; deu cursos; e todo este tempoo seu background como jurista ajudou imenso porque ‘’aprendi a falar empúblico, a comunicar e uso isso no meu trabalho agora’’. Trabalho esse que afaz sentir feliz e realizada, ‘’não há um dia em que acorde e não queira irtrabalhar’’

‘’Menina de Angola’’

Assim se intitula na sua conta doInstagram, mas por quê?  Carla conta-nos(agora com Tchala nos braços, que reivindica ferozmente a atenção da mãe eprincipalmente a sua merecida amamentação) que ‘’estava na Holanda e estava comsaudades, a trabalhar na minha identidade. Uma negra, que está na Europa, quefaz um desporto maioritariamente de brancos, casada com um branco… uma negra numa realidade branca mas expostaa micro e macro agressões típicas de um país com problemas raciais’’.

Surge assim uma necessidade de seafirmar, porque ‘’eu sou Angolana, nasci cá, levei as minhas vacinas cá, sou dotempo do MUTU e do Caixão Vazio (…). SouAngolana, uma africana na Europa, mas africana!’’

Não obstante saber de onde vem eé, não deixa de muitas vezes de se sentir desenquadrada na sua própria terra‘’às vezes cá sinto-me como um cão de meias. Há certas coisas que me frustram,sou muito directa, não sei não ser assim e aqui não é nada assim, as pessoasnão sabem ser directas e isso faz-me ser vista como arrogante (…) sou the odd word out (…) mas eu quero que a minha filha perceba que não temde sorrir se não acha piada, não estou aqui para tornar a tua vida maisconfortável se tu não tens problemas em invadir o meu espaço ou em serdesagradável’’, diz com toda a segurança e convicção, acompanhadas de umencolher de ombros.

Do Direito Penal para o Crossfit. A motivadora e bem sucedida mudança que Carla Nunes Costa enfrentou e não se arrepende

Miúdos vs graúdos

Na sua box, Carla recebe miúdos egraúdos. Com as crianças é aplicado o BrandXMethod, que é nada mais do que um método ‘’que ensina as crianças amover-se’’, o que para a coach é bastante pertinente pois ‘’aqui as criançasnão estão a mover-se muito, vão a todo o lado de carro e no desporto não hámuitas opções. Assim, a brincar, aprendem as bases para uma boa movimentação’’.

Se existe uma diferença entretreinar crianças e adultos? Abismal! Para começar, ‘’as crianças têm menosegos, menos temas; mais disponibilidade para ouvir. Saio dessas aulasrevigorada e revitalizada. O adulto já vem com ideias do que quer e devefazer’’. Além disso, deu para perceber que Carla também tem um papel de ouvintee quase psicóloga por vezes, porque os adultos têm ‘’muita bagagem’’.

‘’Nunca pensei ser mãede ninguém’’

Ninguém diria, tais são o amor ea dedicação a Otchali, tal é a naturalidade dessa condição de mãe, quetestemunhámos enquanto amamenta a filha ao mesmo tempo que esta lhe mete os pésna cara, ora com, ora sem o sapato que a petiz não sabe bem se quer ou não terno pé.

Mesmo nunca tendo planeado sermãe, ‘’aconteceu. E apesar de ser uma pessoa super acelerada (porque eu não sei ser normal), com elanão fui’’. Mas essa desaceleração não foi total, pois 6 semanas apenas após oparto, a coach voltou ao trabalho, ‘’levava a minha filha comigo, arranjeiforma de a pôr a mamar enquanto trabalhava (…) chegava a casa destruída, mastinha de o fazer’’.

A sua própria maternidadeinfluenciou muito a sua especialização no treino pré e pós parto. ‘’Hámuitos temas que as pessoas não abordam. Teres um filho e voltares a sentir-tetu. Com a pesquisa abri uma janela de temas que nunca ouvira: incontinência;diastase; depressão pós-parto; prolapso… etc (..) enfim, tabus! Abri uma caixa de pandora!’’

Isto deu-lhe imensas ideias,porque ‘’não queria ser só professora, queria um espaço em que se fala dopós-parto, em que posso dizer o que realmente sinto física e emocionalmente(…) nós somos mais do que bunda epernas!’’, diz, acrescentando com uma mistura de admiração, orgulho echoque (como quem se lembra de uma experiência traumática): ‘’o parto é o evento mais atlético que já vina vida! Já treinei muito mas nunca vi nada tão fisicamente desafiante edesgastante!!! Então se fazemos isso por que é que nos ensinam a não fazer nadadurante a gravidez? (…) É todo um mundo e todo um processo’’, acrescenta,referindo-se ao processo ‘’de navegação e aceitação corporal’’.

‘’The future is blackand female’’

É uma crença. Sendo ela ambos(negra e mulher) sofre a ‘’dupla carga de preconceito’’, acrescentando-lhe umterceiro factor: o seu aspecto. Carla tem dreadlocks (‘’porque não sei ser normal’’), gosta de andar descalça e por issovê-se muitas vezes subestimada ou desvalorizada, sendo obrigada a fazer algoque detesta, mas ‘’por vezes tenho de falar do meu canudo, o que odeio, porque ainda existe a ideia de que só és alguém seestudares, mas depois se não demonstras isso não te respeitam’’, desabafa,frustrada.

Além disso, sente e sabe queintimida muitos homens pelo seu porte, força e estatuto, contrariando o que étido como uma mulher comum. ‘’A mulhertem de ser pequena, comer pouco, ter pouca força, pintar as unhas … eu tambémpinto as unhas! (…) quando faço essas coisas gosto de dizer que I’m performing femininity’’, conta, commuito sarcasmo.

Mas isso não a impede de ter fénum futuro mais risonho: ‘’não quero não acreditar que não vai ser assim (…) temos de empoderar mais os negros, deapoiar mais, começar a gastar mais com produção negra, apoiar os negócios dosnegros!’’, apela, acrescentando que é urgente acabar com expressões como‘’cabelo ruim; bom ventre (quando se tem um filho mais claro); traços finos(..) e parar de alisar o cabelo para se ser mais profissional (o que éisso???)’’, aumentando o tom de voz em profunda revolta.

Da menina de Angolapara a menina dos seus olhos

Como mãe que é, também Carla temsonhos, medos e vontade de deixar algo à sua filha.

‘’Tenho medo que lhe aconteçaalgo neste mundo machista, ela é muito bonita. Tenho medo de não vê-lacrescida’’, partilha com emoção.

Mas acima de tudo, quer queOtchali ‘’seja ela sem ter vergonha de quem é e que se aceite como tal sem lutarcontra isso (…) que consiga dizer comlicença eu estava a falar quando é interrompida (…) que não peça desculpas por existir, que siga o seu sexto sentido,que tome cuidado com relações tóxicas e quesaiba que está certo escolher-se a si própria’’.

Apesar de ser uma mensagem para asua filha, é pertinente para todas as mulheres, aliás, para toda a gente! Maspara o resto do mundo, especificamente, Carla tem outra mensagem: que se movam!Que dancem! Basicamente, que façam ‘’algo que vos afaste da realidade do dia-a-dia’’ e ao mesmo tempo vosfaça bem à saúde.

E foi com essa mensagem queterminou uma entrevista em português, temperada a inglês, com uma cobertura deholandês, desta mulher que é uma verdadeira força da natureza e que por issomesmo, por onde passa deixa a sua marca e arrasta tudo e todos consigo.

Strong is the new sexy!

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