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Arte: Em quantos frames se conta uma história?

Arte para se falar de arte. Assimse pode descrever o ambiente e a envolvência desta entrevista. As cores, oslivros, os quadros, os discos, tudo no TRIPALUSconvida a falar e a viver a arte. E foi isso que fizémos quando nossentámos com Ayana para conversar sobre esse tema e outros, aproveitando a suapresença em Angola, para um programa de residência artística (AIR, ou  artist-in-residence), organizado pelo ELA(Espaço Luanda Arte)

Se não conhece o trabalho deAyana Jackson, está na hora de pesquisá-lo.

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A premiada fotógrafa erealizadora Norte Americana diz ser na verdade uma ‘’criadora de imagens’’,cujo maior objectivo é ‘’tentar complicar as coisas, o objectivo é criar o que te faça pensar que há algo mais, algo que vaialém da imagem, quero que perguntes ‘whatelse? O que está fora da moldura?’ ’’.

Arte: Em quantos frames se conta uma história?

E acreditamos que se analisar otrabalho dela, vai sentir exactamente isso, pois tudo o que faz conta umahistória, principalmente a história da comunidade afro-americana entre osséculos XIX e XX. E as imagens, sejam elas em foto ou vídeo, obrigam-nos aquestionar, a procurar, a querer saber mais.

A escolha desse período não é por acaso, Ayana explica-nos que ‘’é o mais para trás que consigo ir na história da minha família, cresci com as fotos deles em casa e nunca os conheci, nunca os vi, nunca falei com eles, mas queria saber mais’’. Depois de uma longa pausa, acrescenta, ‘’para mim a dignidade dos escravos é importante, é fácil dizer ‘fomos escravizados’, mas nisso tudo houve uma dignidade e isso é muito importante e eu quero passar essa mensagem!’’.

Arte: Em quantos frames se conta uma história?
Saffroniá, 2017- Ayana V. Jackson (c)- cortesia da artista e da galeria Mariane Ibrahim

É desse modo artístico que Ayanavai exercendo um activismo firme, marcante mas subtil. Através das suas obras,faz declarações sobre o que sente em relação à sociedade, à política, àhumanidade, ‘’essencialmente tornei-meartista porque tinha uma mensagem específica a transmitir e a arte era oveículo certo para isso’’.

E não poderia ser de outro modo, pois o activismo está-lhe no sangue. Nasceu no berço de uma família panafricanista e muito importante para a comunidade afro-americana. A sua avó,  Angenetta Still Jackson (a responsável pelo seu amor pela fotografia), é descendente de Leah Arthur Jones – membro da família fundadora do primeiro Black Settlement de Nova Jersey. E o seu avô, J. Garfield Jackson, foi o primeiro reitor afro-americano do Condado de Essex, tendo mesmo uma escola primária baptizada com o seu nome.

Arte: Em quantos frames se conta uma história?

Em suma, Ayana faz parte damáquina de mudança social e está a fazê-lo de frame em frame, de ummodo expressivo e profundo, ‘’as minhas fotos são representação, dignidade,narrativas esquecidas (…) Há feridasespecíficas que a humanidade tem e a escravatura é uma delas, o Colonialismotambém. O Colonialismo construiu reinos que não merecem estar de pé, entãotêm de remediar isso. E até isso ser reconhecido e remediado, nenhum de nós vaiser feliz.’’

Jackson tem a capacidade decaptar a essência de ser negro, que para ela se traduz em ‘’humanidade, nós negros somos o material de origem. Todas as nossascaracterísticas genéticas são uma mutação da fonte e eu tenho orgulho de servisivelmente parte dessa fonte’’.

São imagens que falam connosco, mas deliberadamente não nos dizem tudo, porque cabe-nos a nós completar o diálogo.

Artigo publicado inicialmente no editorial de Maio.

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