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Entrevista com o designer Schwalsio Gabriel

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Schwalsio Gabriel é um dos grandes nomes da moda Huilana e tem feito barulho nas passerelles de Angola. Com um modo simples e bastante artístico, o jovem artista e designer de moda, filho de Sangueve e Lídia Gabriel, formado em Relações Internacionais, aponta a genética e a cultura como as maiores causadoras do seu grande sucesso artístico, classificado como: diferente, sua ancestralidade.

Entrevista com o designer Schwalsio Gabriel

Chocolate: Como surgiu o gosto pela moda?

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Schwalsio Gabriel: O gosto pela moda surgiu já desde pequeno, via o meu pai trabalhar nas colecções dele e transformar baldes de plástico em máscaras e não só e isso despertou em mim anos depois essa energia criativa que tenho hoje.

Em 2012/13 levei uma camisola para um Studio de design (gráfica) e quis ter alguns dizeres e preocupava-me que eles não fizessem da forma correcta. Por isso, quis presenciar o processo criativo. Recebi o material completamente diferente do que pedi e parei de confiar neles. Em 2017, no mês de Setembro, pintei o meu primeiro casaco junto ao meu amigo Misael Lehto “Dablo”, e as pessoas foram pedindo por encomendas e na altura não me sentia preparado e decidi ter mais tempo para ganhar experiência e estudar mais sobre o que estava à fazer.

Depois de 2 décadas e de ter perdido a minha avó (Maria da Purificação), descobri que ela trabalhava como costureira e despertou ainda mais um sentimento de satisfação por ter enveredado para o lado de onde um dos meus ancestrais havia enveredado.

CH: De onde vem a sua fonte de inspiração?

SG: Pode parecer clichê, mas quando eu trabalho, dificilmente penso em arte, porém penso na vida e nas várias situações que passamos diariamente, em situações sociais e não só, posso sim usar as técnicas dos principais movimentos artísticos, mas não em arte.

CH: Como é a moda na Huíla?

SG: Dinâmica, mas pouco valorizada infelizmente, mas sinto que estamos a trabalhar para mudar esse cenário.

CH: Tem uma boa relação com os seus colegas de trabalho?

SG: Tenho uma relação saudável com meus colegas.

CH: Pode citar alguns nomes de referência dela moda na Huíla?

SG:  Há muito talento na Huíla, vou destacar: Mumuila Fashion, Bauza, Elisaldo Manoa e Nassoma.

CH: Quais são os estilistas nacionais que mais admira?

SG: Bom… Pode parecer estranho, mas as minhas maiores referências são fora do mundo da moda, tenho algumas dentro óbvio que são: CHUCK MBEVO (king tafari), Nancova Alves, Hernani Santino (Framenti), G-Stel (Benguela), Soraya Piedade, Rose Palhares e Schwalsio Gabriel.

Permitam-me que me ponha nessa lista de forma super humilde – nada com perspectiva de exaltar o egocentrismo – porque nunca vi alguém fazer o que faço e da forma como faço e admiro muito o meu trabalho.

CH: Por que é que os tem como suas maiores referências a nível nacional?

SG: O motivo de serem referências: (Chuck) primeiramente por ser uma personalidade de moda e por ter prazer de conhecer pessoalmente e saber como trabalha, e ainda por fazer o que ele faz. Torna-se uma referência, não só para mim, mas para vários outros jovens e faz-nos acreditar que é possível viver daquilo que projectamos para as nossas vidas….. Os outros, devido aos trabalhos que têm feito, são sem dúvida nomes da moda nacional.

CH: Qual é a origem da marca Schw?

SG: SCHW é uma short form de Schwalsio Gabriel,  isso porque o meu pai, um génio criativo, deu-me um nome sem definição e disse ”Tu serás o responsável por trazer a definição do teu próprio nome, aquilo que tu fores, essa será a definição do teu nome, se for criativo, génio, anjo, único e autêntico, essa será a definição dele”. E por causa disso decidi usá-lo como nome da minha empresa. Por outro lado, foi também por querer ensinar às pessoas como dizer o meu nome , visto que erram tanto (risos) a marca traz a quem usa um sentimento de pertença, daí o slogan “SCHW ÉS TU”.

CH: Fale-nos um pouco sobre a vossa companhia.

SG: A nossa companhia é bastante abrangente, trabalhamos com música, design gráfico, shortfilms, arte e actividades filantrópicas e culturais.

CH: A sua técnica de trabalho é diferente. Como funciona, o Schwalsio também costura?

SG: Não considero tanto ainda, mas em breve garanto que será mais ousada. Trabalho com um mestre de obras, faço os designs e passo-lh a parte da produção, mas sempre a controlar ao pormenor.

CH: Tem algum título no mundo da moda?

SG: Não sou estilista nem gosto de ser rotulado como tal. Porque sinto que estarei a limitar o alcance do meu trabalho, exactamente por ser modelo, actor, bailarino… Já fui músico, sou jogador de voleibol e empreendedor e prefiro ser tratado por “artista”. É mais abrangente e estilista é como eu ser jogador de futebol e te dizerem que só deves jogar “balizinha” e não 11 ou salão.

CH: Quais são as impressões erradas com que se depara, enquanto designer de moda?

SG: “God complex”, acham-se superiores aos outros por verem as suas referências fazerem o mesmo, e pensam que isso é fazer moda. Penso que a moda deve ser mais inclusiva, para todos os tamanhos, tipo, cores e gostos.

CH: Que obstáculos encontrou durante a criação da sua marca?

SG:  O primeiro foi o registo da própria marca – que é super burocrático – e a aquisição do material.

CH: Trabalha principalmente com jovens. Na sua opinião, quais os erros que os jovens devem evitar nas escolhas das suas roupas?

SG: Penso que cada um deve conhecer o seu perfil e biótipo para poder fazer as melhores escolhas para si, apesar de eu ser muito controverso relativamente à moda tradicional, e penso que moda é arte: é bastante subjetivo, o que pode ser bom para uns, pode não ser para os olhos de outros.

CH: Tem quantas colecções, até ao momento?

SG: Tenho 4 colecções. E denomino-as como: primeira, segunda, terceira e quarta.

CH: Fale-nos um pouco sobre elas.

SG: As duas primeiras foram híbridas, poéticas, com referências renascentistas.

A terceira, pelo facto do 3 ter um grande poder numerológico, decidi trazer um conceito que representasse a divindade sem blasfémia, então peguei na mitologia Grega para me referenciar a nível visual.

O número 3 é o número da trindade, elementos fundamentais do ciclo de vida, ressurreição no 3o dia, principais deuses da mitologia grega e egípcia, há tantas outras referências em torno do número 3…

A quarta colecção teve um referencial mais pessoal a nível cultural para nós Africanos, Angolanos, negros, a nível da construção ideológica que os arquitectos de mentes ocidentais mantêm sobre nós para perpetuar os ideais deixados sobre o regime colonial Português, para nos manipular e manter a juventude na mediocridade e não saber reconhecer a sua ancestralidade.

CH: Que tipo de artista é o Schawlsio? O que tenta transmitir com as suas roupas?

SG: Sou do tipo de artista educador. sinto-me um educador, porque passo conhecimento com cada trabalho e peça que faço, e procuro ser a pessoa (referência) que não tive no bairro quando era mais novo. O Lubango é conhecido como cidade do conhecimento, cresci num lugar onde as principais referências como adultos no bairro eram pessoas que incentivavam a ter uma ou mais namoradas, a beber e eram de grupos.

Os meus pais são ambos educadores, e uma coisa que não me faltou foi educação (informação), porque informação é conhecimento e conhecimento é poder quando bem usado.

CH: Está a trabalhar nalgum projecto?

SG: Estou a trabalhar sim, nalguns projectos. Farei parte de um filme que em breve estará nas telas de toda Angola. Estou a trabalhar na expansão da minha marca que futuramente será considerada internacional. Tenho prrojectos com visão educacional, que consistem em fazer moda para surdos e mudos e bandas desenhadas com imagens dos nossos heróis (Mandume Ya Ndemufayo, rei Kaluvango, Ekuikui e outros), tudo para despertar o interesse dos mais novos com os filmes, músicas, arte e designs.

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Entrevista com o designer Schwalsio Gabriel
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