Festival de Teatro em Monólogo afirma-se como força vital do teatro em Angola

Gracieth Issenguele
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A realização do Festival Angolano de Teatro em Monólogos (FAMO), promovido anualmente no mês de novembro pelo Projeto SOS Teatro, continua a afirmar-se como o ponto mais alto desta vertente das artes cénicas em Angola. Sediado na província do Huambo, o evento tem reunido grupos e companhias de quase todas as províncias do país, consolidando-se como uma verdadeira celebração do teatro e da reflexão social.

Segundo informação avançada à Revista Chocolate, o destaque foi feito pelo ator Nelson Pedro Nhanga, mentor do Projeto SOS Teatro, uma plataforma artística e cultural fundada em 2018, vocacionada para a promoção e divulgação das artes cénicas. O FAMO, cuja primeira edição aconteceu em 2022, tem crescido de forma consistente, tornando-se uma referência nacional na valorização do monólogo enquanto expressão clássica do teatro.

A IV edição do festival, realizada no passado mês de novembro, decorreu sob o lema “Com o teatro, edifiquemos os marcos da paz e da Independência Nacional”, enquadrando-se nas celebrações do quinquagésimo aniversário da Independência Nacional. Ao longo do evento, foram promovidos momentos de profunda reflexão sobre problemáticas sociais atuais, com especial enfoque na educação social e na necessidade de resgatar valores éticos e morais numa sociedade cada vez mais fragilizada.

Para Nelson Nhanga, o monólogo é uma corrente artística exigente, que permite elevar a performance técnica e interpretativa dos atores. Trata-se, segundo explica, de uma forma de teatro que leva ao palco mensagens densas e reflexivas, visando educar, sensibilizar e provocar consciência crítica no público. Durante um monólogo, o ator enfrenta o desafio de sustentar sozinho a narrativa, exigindo segurança, rigor e uma forte capacidade de introspeção, já que se trata de um verdadeiro diálogo consigo próprio.

Além da dimensão artística, o FAMO distingue-se pelo seu forte compromisso social. O festival integra ações de solidariedade dirigidas a pessoas em situação de vulnerabilidade, como sem-abrigo e reclusos, reforçando o papel do teatro como instrumento de empatia, cidadania e transformação social, num esforço que envolve diversos atores da sociedade.

Nelson Nhanga sublinha ainda que o Projecto SOS Teatro é, actualmente, um dos poucos — senão o único — no país especializado na preservação e realização regular de um festival dedicado exclusivamente ao monólogo, diferenciando-se de outras abordagens cénicas mais colectivas. Para o mentor do projecto, o teatro vai muito além do entretenimento: é uma escola de vida, uma ferramenta pedagógica poderosa capaz de instruir, formar e despertar consciências.

“O teatro não existe para provocar apenas sorrisos, mas para transmitir lições de vida”, defende o promotor, acrescentando que esta arte continuará a ser essencial enquanto persistirem problemas sociais como famílias desestruturadas, vandalismo, suicídios e outras fragilidades que afectam a sociedade. A missão do teatro, afirma, é representar a vida real e denunciar aquilo que precisa de ser transformado.

Com um olhar voltado para o futuro, Nelson Pedro Nhanga revelou também o sonho da internacionalização do FAMO, acreditando ser possível repetir fora do país o percurso que levou o festival a tornar-se um evento nacional. A ambição passa por iniciar intercâmbios culturais com os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) e, posteriormente, alcançar outros continentes, promovendo a identidade cultural angolana e fomentando a troca de experiências artísticas.

O reconhecimento do impacto do FAMO estendeu-se à mais recente Gala Máscara de Ouro do Teatro (GALMOTE), realizada no passado dia 20 de Dezembro, em Luanda. Na ocasião, a actriz Elizabeth Fernanda Guerra, integrante do Projecto SOS Teatro e intérprete da peça “Pneu de Socorro”, foi distinguida como Melhor Actriz de 2025, fruto da sua dedicação, versatilidade e profundidade interpretativa. A actriz agradeceu o prémio, sublinhando os desafios técnicos e emocionais que o monólogo impõe e que contribuíram para este reconhecimento.

Na mesma gala, o Festival Angolano de Teatro em Monólogos foi consagrado como a Melhor Produção do Ano, reforçando o seu estatuto enquanto marca cultural nacional. Desde a sua criação, o FAMO já contou com a participação de mais de 30 grupos e companhias de várias províncias, com destaque para Bié, Benguela, Huíla, Namibe, Cubango, Bengo, Zaire, Kwanza-Sul, Malanje e Luanda, confirmando o seu papel central na dinamização do teatro angolano contemporâneo.

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