Na colectânea A Jornada dos Mortos, Pedro Kamorroto afirma-se como uma das vozes mais instigantes da prosa contemporânea angolana, explorando, através do conto breve, um universo marcado pela ambiguidade, pelo fantástico e pela reflexão existencial. Composta por 15 narrativas, a obra constrói imagens densas de miséria, abandono e adversidade, elementos recorrentes na literatura angolana, mas aqui revisitados por um olhar que une o concreto e o abstracto, sem nunca abdicar da poeticidade da linguagem.

Kamorroto opta pela forma curta como estratégia estética e discursiva, permitindo que cada conto funcione como um fragmento intenso de observação humana. O narrador, frequentemente imerso no espaço físico e psicológico que descreve, projecta-se nas imagens que constrói, criando uma literatura de espelhos, onde o mundo exterior reflecte estados interiores. Essa dinâmica é particularmente evidente em A mulher que era uma gaveta, um dos contos mais emblemáticos da colectânea.
Neste texto, o autor instala o paradoxo como motor narrativo: a mulher surge simultaneamente como realidade e construção onírica, um ser que existe na fronteira entre o sonho e a vigília. Os objectos, longe de serem meros elementos decorativos, tornam-se extensões do sujeito, revelando camadas profundas da identidade humana. A mulher-gaveta é metáfora, enigma e caminho — um espaço onde repousam restos de sonhos e onde o narrador se procura a si próprio.
A Jornada dos Mortos revela, assim, uma literatura que questiona a essência do ser e a relação entre o eu e o outro. Ao fundir o fantástico com a introspecção, Pedro Kamorroto convida o leitor a um exercício de reflexão sobre identidade, pertença e humanidade, confirmando a maturidade literária de uma obra que se impõe pela densidade simbólica e pela inteligência narrativa.


