“A minha visão integrada da saúde nasce da junção entre ciência, estratégia e humanidade”, Patrícia Andrade e a revolução do diagnóstico em Angola

Gracieth Issenguele
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Com um percurso académico sólido, marcado pela multidisciplinaridade e por uma visão profundamente humanizada da saúde, Patrícia Isabel Ribeiro Andrade afirma-se como uma das vozes mais influentes da medicina laboratorial em Angola. Biomédica, especialista em Anatomia Patológica e Oncologia, com formação avançada em Patologia Molecular, Genética e Medicina Laboratorial, construiu ao longo de mais de uma década no país uma carreira orientada para o diagnóstico precoce, a inovação científica e o impacto social. Fundadora e CEO da MACROLAB — Centro de Medicina Laboratorial, Patrícia Andrade alia rigor técnico, liderança estratégica e compromisso com a vida. Numa entrevista cedida à Revista Chocolate Lifestyle, partilha reflexões sobre o seu percurso, os desafios do sistema de saúde angolano e o papel transformador da ciência quando colocada ao serviço das pessoas.

RC: O seu percurso académico é marcado por uma forte componente multidisciplinar. De que forma essa diversidade de formações contribuiu para a sua visão integrada da saúde e do diagnóstico clínico?

PA: O meu percurso académico é marcado por uma forte componente multidisciplinar. Cada formação que realizei foi uma oportunidade de compreender o ser humano na sua totalidade — corpo, mente, espírito e contexto social. Hoje, o diagnóstico não é apenas um resultado; é uma ferramenta que salva-vidas, orienta decisões e transforma histórias. A minha visão integrada da saúde nasce dessa junção entre ciência, estratégia e humanidade.

RC: Vive e trabalha em Angola há mais de uma década. Que desafios encontrou no início da sua carreira no país e como essas experiências moldaram a sua actuação profissional?

PA: Cheguei a Angola cheia de sonhos, mas encontrei pacientes à espera de meses por um diagnóstico, tratamentos adiados e famílias em

sofrimento. Esses desafios despertaram em mim uma responsabilidade profunda: não apenas de participar do sistema, mas transformá-lo. Hoje,

cada conquista da minha equipe é a materialização desse compromisso.

RC: A sua passagem por instituições como a Clínica Sagrada Esperança, o IACC e o Hospital Américo Boavida deu-lhe um contacto directo com a realidade do sistema de saúde angolano. Que lacunas mais urgentes identificou nesse percurso?

PA:  A maior lacuna é o acesso desigual: quem recebe um diagnóstico rápido e quem não recebe. Vi demasiadas oportunidades perdidas para tratamentos eficazes. Isso motivou a criação de soluções locais, estruturadas e sustentáveis.

RC: A criação da MACROLAB surge como resposta a essas necessidades. Que momento ou constatação foi determinante para avançar com este projecto?

PA: Houve um momento decisivo: perceber que o tempo era o inimigo de muitos pacientes. A MACROLAB nasceu para mudar isso, oferecendo

diagnósticos precisos, rápidos e humanizados, com tecnologia de ponta e cuidado com cada paciente.

RC: Enquanto fundadora e CEO da MACROLAB, como equilibra a liderança estratégica com a exigência científica e técnica que a medicina laboratorial impõe?

PA: Liderar é servir. E, na saúde, servir é assumir total responsabilidade. Exijo excelência da minha equipa porque acredito que cada gesto, cada

decisão e cada resultado podem mudar destinos. Aqui, trabalhamos com vidas — e isso exige compromisso, consciência e coração.

RC: O diagnóstico precoce é um dos pilares do combate ao cancro. Em que medida a patologia molecular e a genética estão a transformar a oncologia em Angola?

PA:  Estamos a viver uma revolução silenciosa. Conseguimos antecipar, personalizar e salvar mais vidas. A genética permite tratar cada paciente como único — e Angola merece essa precisão.

RC: A MACROLAB aposta na integração entre ciência, tecnologia e humanização. Como se traduz, na prática, esta abordagem no atendimento e nos serviços prestados?

PA: Cada paciente é único. O nosso atendimento começa no olhar, na escuta e no respeito. A tecnologia é essencial, mas o acolhimento é

insubstituível. A MACROLAB não é só um centro de medicina laboratorial — é um espaço de confiança.

RC: A saúde materno-infantil é outra área de intervenção do centro que dirige. Que avanços considera fundamentais para reduzir riscos e melhorar indicadores nesta área em Angola?

PA: Cuidar de uma mãe é cuidar de gerações. É essencial investir em rastreio pré-natal, diagnóstico precoce e prevenção. Cada vida salva é um futuro protegido.

RC: A inovação em saúde exige investimento e colaboração. Que papel desempenham as parcerias público-privadas no fortalecimento do sistema de diagnóstico no país?

PA: As parcerias público-privadas são pontes que levam tecnologia, formação e esperança a quem mais precisa. Quando público e privado

caminham juntos, todos ganham.

RC: A literacia em saúde continua a ser um desafio estrutural. Que estratégias considera mais eficazes para aproximar o conhecimento científico da população em geral?

PA: A informação é poder. É preciso falar de saúde com verdade, clareza e proximidade. Quando uma mulher entende seu corpo, muda

sua história.

RC: Enquanto especialista em Anatomia Patológica e Oncologia, como avalia a capacidade actual de resposta do país face ao aumento das doenças oncológicas?

PA: A capacidade actual do país frente ao aumento das doenças oncológicas está firmando um novo caminho, mas ainda não no ritmo necessário. É preciso mais centros, mais especialistas e mais diagnóstico precoce. O cancro não espera, e nós também não podemos

esperar.

RC: A sustentabilidade dos projectos de saúde é uma preocupação central no contexto africano. Como garantir que a inovação não seja apenas pontual, mas estrutural e duradoura?

PA: A sustentabilidade constrói-se com visão, formação e compromisso. Projectos de saúde só são duradouros se formarem pessoas, criarem

estruturas e mudarmos mentalidades.

RC: A sua actuação posiciona-a como uma ponte entre ciência e impacto social. Sente que o conhecimento científico tem sido suficientemente valorizado na tomada de decisões em saúde pública?

PA:  O conhecimento científico ainda não é suficientemente valorizado na tomada de decisões em saúde pública. A ciência precisa ocupar mais espaço. Precisamos de políticas baseadas em dados, precisamos de investigação de registo oncológico para que dados se tornem evidencia e decisão política, com humanidade.

RC: Que conquistas da MACROLAB a deixam mais orgulhosa nestes quatro anos de actividade?

PA: Orgulho-me de cada vida tocada, de cada diagnóstico que chegou a tempo e de cada mulher que hoje vive porque acreditámos, persistimos e não desistimos. Isso é liderança com propósito: transformar ciência em esperança e cuidado em futuro.

RC: Olhando para o futuro, que transformações gostaria de ver concretizadas no sistema de saúde angolano e que papel ambiciona continuar a desempenhar nesse processo?

PA: Sonho com um sistema de saúde onde a justiça caminha lado a lado com a humanidade e a eficiência. Um sistema que cuida, protege e transforma vidas. Quero continuar a abrir caminhos onde antes havia silêncio, formar pessoas onde faltavam oportunidades, criar soluções onde existiam limites e deixar um legado que acenda luzes nas próximas gerações.

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