“O mundo muda quando pessoas comuns decidem agir com coragem extraordinária”, Catarina Joana e o propósito que guia uma liderança com impacto

Suzana André
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Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, Catarina Joana(@catarina.joana2) partilha o percurso que a levou das raízes angolanas aos palcos internacionais de liderança e formação académica. Movida por propósito, fé e uma profunda curiosidade pelo mundo, revela como as experiências multiculturais, os programas internacionais e as referências femininas que a marcaram moldaram uma visão assente na construção de pontes entre Angola e o mundo. Mais do que um currículo de excelência, apresenta uma trajetória orientada para o impacto, o serviço e o compromisso com o desenvolvimento inclusivo.

RC -Quem é a Catarina Joana para além do percurso académico e profissional?

CJ- Sou uma mulher profundamente movida por propósito, fé e curiosidade pelo mundo. Para além dos títulos e funções, sou alguém que acredita no poder das pessoas, das histórias e da educação como ferramenta de transformação. Valorizo muito as minhas raízes, a família e a missão de contribuir para algo maior do que eu mesma.

RC- Que valores ou experiências da sua infância e juventude mais influenciaram a mulher que é hoje?

CJ- Cresci com uma forte noção de disciplina, resiliência e responsabilidade. O contacto com diferentes realidades desde cedo ensinou-me a importância da empatia e do serviço. Uma das experiências mais marcantes da minha vida foi ter feito homeschooling (regime de educação em casa) numa família alemã, longe dos meus pais e inserida num ambiente completamente novo. Na altura, tive de aprender uma nova língua, adaptar-me a uma cultura diferente e comunicar com pessoas que inicialmente eram estranhas para mim. Foi um período desafiante, mas profundamente transformador que me ensinou resiliência, independência, instinto de liderança e capacidade de superar desafios. E sobretudo, a capacidade de construir pontes mesmo em contextos desconhecidos. Hoje reconheço que essa experiência moldou a minha forma de ver o mundo e preparou-me, desde cedo, para uma trajetória internacional. 

RC- Houve alguma figura ou momento decisivo que tenha orientado as suas escolhas de vida?

CJ- Houve várias pessoas e momentos que marcaram profundamente o meu caminho. Durante o meu percurso académico, tive o privilégio de cruzar-me com a Miss Sue, diretora da escola onde concluí o ensino médio – hoje já não entre nós, mas eternamente presente na minha memória. Foi ela quem, em momentos decisivos, segurou na minha mão e me disse que eu era uma líder nata e que iria chegar longe. Essas palavras acompanharam-me ao longo da vida e ajudaram-me a acreditar no meu próprio potencial.

Ao mesmo tempo, cresci rodeada por mulheres fortes que sempre foram referências para mim. Na minha família tenho grandes exemplos de resiliência e coragem, mãe, tia, prima, mas a maior de todas – a mulher mais extraordinária que tive o privilégio de conhecer – foi a minha avó, também já não entre nós, cuja força silenciosa continua a inspirar-me todos os dias.

Para além dessas figuras tão especiais, cada oportunidade internacional, desde os estudos, até aos programas de liderança – reforçou em mim a consciência de que a minha missão passa por construir pontes entre Angola e o mundo, levando comigo os ensinamentos dessas mulheres que ajudaram a moldar quem sou hoje.

RC- Como equilibra as exigências da vida profissional com o lado pessoal?

CJ- Procuro cultivar equilíbrio através de fé, autocuidado e momentos de silêncio. Aprendi que produtividade sustentável exige também pausa, reflexão e conexão com aquilo que nos inspira fora do trabalho.

RC- O que a motivou a seguir a área em que se formou?

CJ- Sempre tive interesse pelas dinâmicas internacionais e pelo impacto das relações económicas no desenvolvimento dos países. A combinação entre relações internacionais e gestão surgiu como uma forma de alinhar visão estratégica com impacto prático.

RC- Em que momento percebeu que queria levar o seu percurso para uma dimensão internacional?

CJ- Quando comecei a interagir com contextos multiculturais e percebi que Angola precisava de profissionais capazes de navegar entre diferentes realidades globais. Foi aí que a dimensão internacional deixou de ser apenas um sonho e tornou-se um propósito.

RC- Que desafios marcaram a sua caminhada académica e de que forma contribuíram para o seu crescimento?

CJ- A minha caminhada académica foi marcada por vários momentos de adaptação e superação, sobretudo por ter vivido e estudado em diferentes contextos internacionais. Participar em programas de liderança como o Erasmus+, o Mandela Washington Fellowship e a bolsa Chevening trouxe oportunidades extraordinárias, mas também exigiu uma grande capacidade de resiliência, gestão emocional e adaptação cultural. Cada país, cada sala de aula e cada experiência profissional fora de Angola – seja na Europa ou nos Estados Unidos, colocou-me perante novas formas de pensar, trabalhar e comunicar.

No início, houve desafios naturais: aprender a posicionar a minha voz em ambientes altamente competitivos, equilibrar a saudade de casa com a exigência académica e encontrar o meu lugar em espaços multiculturais. No entanto, foram precisamente essas experiências que fortaleceram a minha confiança e ampliaram a minha visão do mundo. Aprendi a valorizar a diversidade, a questionar perspectivas e a transformar diferenças em oportunidades de crescimento.

Esses desafios ensinaram-me que é possível desenvolver uma visão verdadeiramente global sem perder a essência das nossas raízes. Hoje sinto que a minha identidade angolana não só permaneceu intacta, como se tornou ainda mais forte, porque aprendi a levá-la comigo como parte da minha narrativa e da minha liderança.

RC- O que representou, pessoal e profissionalmente, ser bolseira Chevening?

CJ- Ser bolseira Chevening foi uma das experiências mais transformadoras da minha vida, tanto a nível pessoal como profissional. Representou um voto de confiança no meu potencial enquanto líder angolana e trouxe consigo uma enorme responsabilidade de crescer não apenas para mim, mas também para contribuir para o desenvolvimento do meu país. Durante esse período, tive a oportunidade de estudar em Oxford, conviver com pessoas de diferentes culturas e trajetórias e integrar uma comunidade global de líderes comprometidos com impacto positivo.

Mais do que uma experiência académica, o Chevening ampliou a minha visão sobre liderança, colaboração internacional e serviço público. Aprendi que o verdadeiro valor de uma oportunidade como esta está na forma como a utilizamos para criar pontes, inspirar outros e transformar conhecimento em ação concreta. Foi um momento que reforçou a minha identidade, fortaleceu a minha confiança e consolidou a certeza de que o meu caminho passa por conectar Angola ao mundo através de iniciativas com propósito.

RC- Que aprendizagens mais marcaram essa experiência?

CJ- Uma das maiores aprendizagens foi compreender que liderança não está ligada apenas a cargos ou títulos, mas sobretudo à capacidade de servir e influenciar positivamente os outros. O contacto diário com pessoas de diferentes culturas, histórias e visões reforçou em mim a importância da colaboração, da escuta ativa e da diversidade de pensamento como motores reais de inovação e crescimento.

RC-De que forma o programa transformou a sua visão sobre liderança e impacto social?

CJ- O programa levou-me a encarar a liderança como um compromisso contínuo com o futuro coletivo. Percebi que o verdadeiro impacto não se mede apenas pelo sucesso individual, mas pela capacidade de abrir caminhos, criar oportunidades e inspirar outros a avançarem com confiança nas suas próprias jornadas.

RC-Que diferenças encontrou entre o contexto académico internacional e o angolano?

CJ- No ambiente académico internacional existe um forte incentivo ao pensamento crítico, à interdisciplinaridade e ao debate aberto de ideias. Ao regressar a Angola, trouxe comigo essa mentalidade mais colaborativa e inovadora, acreditando que a combinação entre conhecimento global e realidade local pode contribuir significativamente para o fortalecimento do nosso sistema académico.

RC- Como foi o regresso a Angola após a experiência Chevening?

CJ- Foi um regresso carregado de propósito e responsabilidade. Voltei com uma visão mais ampla do mundo e com a consciência de que era o momento de transformar conhecimento em ação concreta, contribuindo para iniciativas que impulsionem o desenvolvimento económico e social do país.

RC-De que forma tem procurado aplicar no país os conhecimentos e redes adquiridos durante o programa?

CJ- Tenho procurado aplicar essas aprendizagens através do envolvimento em projetos estratégicos ligados ao comércio internacional, investimento e desenvolvimento humano. O objectivo tem sido sempre criar pontes entre Angola e parceiros globais, promovendo colaboração, troca de conhecimento e oportunidades sustentáveis.

RC-Considera que Angola oferece espaço para jovens profissionais implementarem novas ideias e soluções?

CJ-Acredito que sim. Apesar dos desafios estruturais, Angola é um país com enorme potencial e uma juventude criativa e resiliente. Existe espaço para inovação e transformação, especialmente quando aliamos visão estratégica, ética profissional e compromisso com o desenvolvimento a longo prazo.

RC- Quais são os projetos em que se encontra atualmente envolvida?

CJ- Atualmente estou envolvida em iniciativas ligadas ao comércio e investimento internacional, desenvolvimento económico e projetos de impacto social, com especial foco em educação, liderança e empoderamento feminino – áreas que considero essenciais para a construção de um futuro mais inclusivo.

RC-Que impacto pretende gerar através do seu trabalho?

CJ-O impacto que procuro gerar passa pela criação de oportunidades sustentáveis, pelo fortalecimento de ligações internacionais e pela inspiração de mais mulheres e jovens a acreditarem no seu potencial e a ocuparem espaços de liderança.

RC-Existe algum projeto que considere particularmente desafiador ou transformador nesta fase da sua carreira?

CJ- Os projetos que ligam Angola ao cenário internacional têm sido especialmente transformadores, porque exigem uma combinação constante entre visão estratégica, sensibilidade cultural, diplomacia e capacidade de execução em ambientes complexos.

RC-Como define o seu propósito profissional neste momento?

CJ- Vejo o meu propósito como a construção de pontes, entre pessoas, mercados e ideias – sempre com foco em desenvolvimento inclusivo, inovação e impacto sustentável.

RC- Onde se imagina nos próximos cinco a dez anos, tanto a nível pessoal como profissional?

CJ- Imagino-me a liderar iniciativas com impacto global, contribuindo para políticas, projetos e plataformas que promovam crescimento inclusivo em Angola e além-fronteiras, mantendo sempre um equilíbrio entre realização profissional e evolução pessoal.

RC- Que áreas considera prioritárias para o desenvolvimento social e académico em Angola?

CJ- Acredito que educação de qualidade, liderança jovem, empreendedorismo feminino e capacitação económica sustentável são pilares fundamentais para o desenvolvimento social e académico do país.

RC- Que legado gostaria de construir através do seu percurso?

CJ- Gostaria de deixar um legado assente na abertura de portas e na criação de oportunidades. Ser lembrada como alguém que inspirou outros a acreditar que é possível sonhar grande, crescer globalmente e, ao mesmo tempo, permanecer profundamente ligada às suas raízes.

RC- Que conselho deixaria aos jovens angolanos que ambicionam candidatar-se a programas internacionais como o Chevening?

CJ- Acreditem na vossa história e preparem-se com intenção. Mais do que um currículo perfeito, programas internacionais procuram autenticidade, visão e compromisso genuíno com o impacto.

RC- O que significa, para si, inspirar outras pessoas através da sua história?

CJ- Significa transformar experiências pessoais – com desafios e conquistas, em pontes de esperança para outras pessoas perceberem que também é possível trilhar caminhos extraordinários.

RC- Que mensagem gostaria de deixar aos jovens em geral?

CJ- Não esperem pela perfeição para começar. O mundo muda quando pessoas comuns decidem agir com coragem extraordinária. Invistam no vosso crescimento, honrem as vossas raízes e tenham a ousadia de ocupar os espaços que antes pareciam inalcançáveis. Ser jovem hoje é ter a responsabilidade, e o privilégio de construir pontes entre o que somos e o que ainda podemos tornar-nos. Se há algo que aprendi na minha jornada é que os sonhos ganham força quando são colocados ao serviço de algo maior do que nós mesmos. E quando caminhamos com propósito, não há limites para até onde podemos ir.

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