Conhecido artisticamente como Morenasso Crack, o dançarino e coreógrafo que tem levado a Kizomba e o Semba a dezenas de países é, fora dos palcos, Hélder Ricardo, um homem de raízes fortes, história marcante e uma missão clara: divulgar a cultura angolana pelo mundo. Em entrevista concedida exclusivamente à Revista Chocolate, o artista partilhou detalhes do seu percurso pessoal e profissional.

Hélder Ricardo cresceu numa família numerosa de sete irmãos, um ambiente que, segundo ele, teve um papel fundamental na construção da sua identidade e dos seus valores.
Antes de ganhar reconhecimento internacional na dança, Morenasso iniciou a sua trajectória no futebol. Ainda jovem começou a treinar na Joka Sport, considerada a primeira escola de futebol em Angola, participando em torneios internacionais em Espanha, França e Brasil. O seu talento levou-o a integrar as selecções jovens de Angola nas categorias Sub-17 e Sub-20 e posteriormente a jogar pelo FESA (Fundação Eduardo dos Santos).

Com apoio do manager António Kavungo, seguiu para a Europa, treinando em clubes como Sporting de Braga, Benfica, CD Tenerife, Ajax e na equipa B do Paris Saint-Germain, jogando depois cinco anos no Paris FC. Em 2007, uma lesão muscular encerrou a sua carreira no futebol.

Mas a sua história não terminou aí. Em 2008, quando a Kizomba começava a ganhar grande projecção na Europa, Morenasso decidiu seguir a sua outra paixão: a dança. Participou na competição África Dançar, representando a França num concurso mundial. Apesar de ter terminado em quarto lugar, a reacção do público foi tão forte que o momento acabou por impulsionar o seu reconhecimento internacional.

A partir daí passou a dedicar-se totalmente à promoção e ao ensino da Kizomba e do Semba. Abriu a sua primeira escola de dança em Itália em parceria com o professor Walter Antonini e, desde então, a sua carreira tornou-se global. Até hoje já visitou 97 países e mais de 230 cidades e províncias, levando workshops, espetáculos e formações.

Actualmente dirige a sua escola de dança em Paris, chamada Sensualonda, nome que significa “onda sensual” e que representa a ligação e fluidez entre a Kizomba e o Semba, base do seu método de ensino. Através da escola organiza workshops, formações e eventos dedicados à cultura angolana.
Fora dos palcos, Morenasso descreve-se como uma pessoa calma, observadora e muito ligada às suas raízes. A disciplina adquirida no futebol continua a orientar a sua vida, e mesmo com uma agenda internacional intensa procura manter equilíbrio através da organização do tempo, do contacto com a família e de momentos de reflexão.

Apesar de viver no exterior, confessa sentir muitas saudades de Angola, especialmente da família, dos amigos de infância, da energia das ruas e da comida tradicional como muamba de galinha, calulu e funge.
Na dança, Morenasso também enfrentou desafios e críticas, especialmente quando começou a introduzir novas abordagens no ensino da Kizomba, como a marca do contra-tempo e a importância de contar o tempo da música. Com o passar dos anos, muitas dessas ideias passaram a ser adoptadas por outros profissionais da dança.

Para o artista, a expansão global da Kizomba, do Semba e do Kuduro representa a força da cultura angolana no mundo. Ele acredita que ensinar dança não significa apenas ensinar passos, mas também transmitir a história, o ritmo e o sentimento por trás dessas expressões culturais.
Entre os momentos mais marcantes da sua carreira, destaca a participação na competição África Dançar, que impulsionou o seu reconhecimento internacional, e também a experiência emocionante de dançar diante dos seus próprios filhos.
Hoje, Morenasso Crack afirma sentir-se grato pelo caminho que construiu. Para ele, representar Angola através da dança vai muito além da arte: é uma missão, uma forma de preservar a identidade cultural e de criar pontes entre Angola e o mundo.



