Num momento em que se enaltece o papel das mulheres destacadas em diferentes áreas da sociedade, a Revista Chocolate Lifestyle conversou com Cândida Margarida Van-Dúnem Moreira Bastos Katumbela, publicitária de 33 anos, residente em Luanda, cuja trajectória académica e profissional cruza diferentes culturas e experiências internacionais. Com o ensino médio concluído na África do Sul e licenciatura em Publicidade e Propaganda pela Universidade Pontifícia Católica de Minas Gerais, no Brasil, Cândida soma seis anos de experiência no mercado e apresenta-se como uma mente criativa que alia estratégia, sensibilidade cultural e paixão pela escrita.

Nesta entrevista exclusiva, a publicitária partilha reflexões sobre o seu percurso, os desafios da profissão, a influência das artes no processo criativo e a importância da autenticidade na comunicação contemporânea.
RC: Cândida, a sua formação passou pela África do Sul e pelo Brasil. De que forma estas experiências internacionais moldaram a sua visão sobre a publicidade e a comunicação?
CB: Moldaram-me de forma muito positiva, dando-me uma visão clara de que a identidade de uma marca não se define apenas pelo que ela diz, mas por tudo o que faz e pela forma como faz os seus clientes sentirem-se. Aprendi também o quão importante a cultura é na publicidade e comunicação, reforçando a necessidade de conhecermos profundamente a nossa própria cultura.

RC: Com seis anos de experiência no mercado publicitário, como descreve o seu percurso profissional até aqui e quais foram os maiores desafios enfrentados?
CB: O meu percurso profissional tem sido bonito, nem sempre fácil, mas sempre apaixonante. A publicidade é aquilo que faz os meus olhos brilharem e me leva a reflectir sobre como impactei vidas através dos projectos em que participei. Ao olhar para eles, sinto que deixei a minha marca e isso enche-me de orgulho. Quanto aos maiores desafios, destaco alguns pontos: ainda existe a desvalorização pelo trabalho do Publicitário/Marketeer embora tenha havido progressos, ainda há espaço para fazer mais e melhor. Há também a ideia de que todos entendem de marketing, menos quem realmente trabalha na área. E, por fim, um dos maiores desafios é gerir expectativas irreais: a ideia de que devemos fazer milagres e conseguir tudo ao mesmo tempo.

RC: Define-se como uma mente criativa e disruptiva. Como essa característica influencia o seu processo de criação publicitária?
CB: Influencia profundamente o meu processo de criação publicitária, pois leva-me a ir além do simples “pensar fora da caixa”. Procuro sempre trabalhar a partir de referências, compreender o contexto em que a marca está inserida e trazer autenticidade às ideias que desenvolvo. Para mim, criatividade também é ter sensibilidade estratégica para transformar conceitos em mensagens relevantes e memoráveis para o público.

RC: A publicidade vive muito da capacidade de contar histórias. De que forma a sua paixão pela leitura e pela escrita contribui para a construção de campanhas mais impactantes?
CB: A minha paixão pela leitura e pela escrita tem um papel muito importante no processo criativo, porque são duas fontes riquíssimas de inspiração. Através delas encontro novas palavras, visualizo imagens, referências e diferentes formas de contar histórias. Esse contacto constante com narrativas e ideias acaba por ampliar o meu repertório cultural e criativo, o que contribui naturalmente para a construção de campanhas mais autênticas e impactantes.

RC: Começou a escrever aos 12 anos. Que papel a escrita desempenha hoje na sua vida pessoal e profissional?
CB: A escrita ocupa um lugar muito especial na minha vida, tanto a nível pessoal como profissional. É uma ferramenta que me ajuda a compreender melhor a mim mesma, sobretudo em momentos em que tudo parece mais complexo ou quando preciso de reorganizar pensamentos e emoções. Muitas vezes, é através da escrita que consigo expressar aquilo que ainda não encontrei forma de dizer em voz alta. Ao mesmo tempo, no contexto profissional, ela permite-me estruturar ideias com mais clareza, comunicar de forma mais estratégica e transformar pensamentos em mensagens com propósito.
RC: A arte parece ocupar um lugar importante na sua vida. Como o cinema, o teatro e outras expressões artísticas inspiram o seu trabalho criativo?
CB: A arte ocupa, de facto, um lugar muito importante na minha vida. Cresci muito próxima do teatro, não como actriz, mas a acompanhar a minha mãe, que dedicou muitos anos da sua vida a essa arte. Essa vivência marcou-me profundamente e, quando penso no processo criativo, é impossível não associá-lo ao teatro, porque ajudou a moldar a minha sensibilidade para contar histórias e compreender emoções humanas.
O cinema também é uma grande fonte de inspiração para mim, porque apresenta narrativas que muitas vezes refletem a vida real, mas com diferentes camadas de interpretação, estética e emoção. Essas referências acabam por alimentar a minha imaginação e influenciar a forma como penso conceitos criativos.
RC: Num mercado cada vez mais competitivo e digital, quais considera serem as principais tendências que estão a transformar a publicidade actualmente?
CB: Num mercado cada vez mais competitivo e digital, acredito que três elementos têm vindo a ganhar cada vez mais relevância: a identidade cultural, a autenticidade e a clareza na comunicação. As marcas precisam de compreender profundamente o contexto cultural do público com quem comunicam, porque isso cria uma ligação mais verdadeira e significativa. Ao mesmo tempo, os consumidores valorizam cada vez mais conteúdos autênticos, que transmitam propósito e não apenas promoção. Por fim, a clareza tornou-se essencial, especialmente num ambiente digital onde a atenção é limitada e as mensagens precisam de ser simples, directas e relevantes.
RC: Sendo uma comunicadora nata, como encara o desafio de criar mensagens que realmente dialoguem com diferentes públicos?
CB: Encaro esse desafio de forma muito positiva, porque acredito que cada marca tem o seu próprio público, os seus valores e uma forma muito particular de se posicionar. Costumo dizer que as marcas também têm uma “alma”, e é precisamente essa identidade que deve orientar a forma como comunicam. O papel da comunicação é entender profundamente essa essência e traduzi-la em mensagens que façam sentido para diferentes públicos, para criar uma ligação autêntica e relevante.
RC: A criatividade muitas vezes nasce do inconformismo. O que mais a desafia hoje enquanto profissional da publicidade?
CB: O que mais me desafia hoje enquanto profissional da publicidade é acompanhar a constante evolução do mercado: as tendências mudam rapidamente e os hábitos do consumidor transformam-se a um ritmo muito acelerado. No entanto, um dos maiores desafios continua a ser lidar com os momentos de bloqueio criativo, sobretudo quando existe muita pressão para encontrar soluções e conteúdos relevantes. Ainda assim, acredito que esses momentos também fazem parte do processo criativo e, muitas vezes, acabam por abrir espaço para novas perspectivas e soluções mais fortes.
RC: A fé também faz parte da sua identidade. De que forma os seus valores espirituais influenciam as suas decisões e como encara a vida e a carreira?
CB: A fé é um pilar muito importante na minha vida. Não existe nenhuma decisão que eu tome, nem situação que enfrente, sem antes falar com Deus. Peço sempre sabedoria e discernimento para tomar decisões sábias. Acredito que os meus valores espirituais ajudam-me a manter o equilíbrio, tanto na vida pessoal como na minha vida profissional.
RC: Ao olhar para o futuro, que metas ou projectos gostaria ainda de concretizar no universo da comunicação e da criatividade?
CB: Ao olhar para o futuro, gostaria de concretizar projectos relevantes no universo da comunicação e da criatividade com marcas internacionais e globais que admiro e que me inspiram, como a Netflix, Amazon, Nubank, Globo, Burger King, Apple, Heinz. Mais do que trabalhar com grandes marcas, o meu objectivo é desenvolver projectos criativos com impacto real, que contem histórias autênticas e que consigam conectar diferentes culturas e públicos.
RC: Que conselho deixaria aos jovens angolanos que sonham seguir uma carreira na publicidade e nas indústrias criativas?
CB: Essa indústria, como qualquer uma, tem os seus desafios, mas não desistam. Criem, inspirem-se, sejam autênticos e jamais COPIEM! Persigam os vossos sonhos como se estivessem numa maratona: com determinação, foco e a vontade de fazer acontecer. Quando vivemos os nossos sonhos com verdade, as pessoas que nos apoiam acompanham essa energia e tornam-se um suporte fundamental. Como diz o meu amigo Mauro Sérgio: “Pega nos que te amam e vai.”



