Silêncio nas estantes: Biblioteca do Atelier Transversal encerra portas por falta de leitores na Huíla

Gracieth Issenguele
3 leitura mínima

A biblioteca do Atelier Transversal, situada no bairro da Mapunda, na província da Huíla, encerrou definitivamente há uma semana, apenas um ano após a sua inauguração, assinalada a 8 de março de 2025. O espaço cultural, que nasceu com a ambição de promover a leitura e dinamizar a vida intelectual local, sucumbiu à fraca adesão do público e à ausência de sustentabilidade financeira. De acordo com o Jornal de Angola Online, a biblioteca contava com 597 títulos e chegou a receber, na semana do encerramento, uma proposta para aquisição de mais 5.000 livros provenientes de Luanda, um investimento que acabou por não se concretizar face à escassez de leitores.

Idealizado pelas professoras universitárias Eduarda Pereira e Paula Rocha Santos, o Atelier Transversal ia além de uma simples biblioteca: integrava galeria de arte, oficina de desenho e pintura, acesso à Internet e um espaço de café. Apesar de registar alguma procura em períodos lectivos, sobretudo por estudantes do ensino médio e superior, o fluxo revelou-se insuficiente para garantir a continuidade do projecto. Entre as iniciativas mais marcantes destacou-se o clube de leitura quinzenal, que promoveu a discussão de obras como As Aventuras de Ngunga, de Pepetela, e textos de autores como Ondjaki.

O projecto também apostou na formação e inclusão cultural das camadas mais jovens. O programa “sábado dos kandengues”, dedicado às crianças, decorreu durante seis meses, mas acabou interrompido por falta de envolvimento dos pais e encarregados de educação. “Preferem ir às compras com os filhos”, lamentou Eduarda Pereira, sublinhando o desinteresse que comprometeu uma das iniciativas mais promissoras do espaço.

Ao longo do seu curto percurso, o Atelier Transversal promoveu ainda tertúlias sobre temas variados, desde Comunicação e Literatura até Inteligência Artificial e questões socioculturais como o “alambamento” e crenças tradicionais. Paula Rocha Santos, responsável pela gestão do espaço, destacou também a importância do ensino prático da informática desde a infância, defendendo que a aprendizagem não deve limitar-se à teoria.

Apesar do encerramento, o legado do Atelier Transversal permanece como um alerta sobre os desafios da promoção da leitura em Angola. Num contexto cada vez mais dominado pelo digital, Eduarda Pereira reforça a importância do livro físico como ferramenta essencial para o desenvolvimento intelectual. O fecho deste espaço deixa não apenas prateleiras vazias, mas também uma reflexão urgente sobre o papel da sociedade na valorização da cultura e do conhecimento.

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