“O que me prendeu foi a liberdade”: Jolarson Tati e o desafio da industrialização do cinema

Michela Silva
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O percurso do cineasta em ascensão Jolarson Tati, no cinema, não começou como um sonho claro, mas sim como uma descoberta inesperada que acabou por definir a sua identidade.

Ao contrário de muitos artistas que desde cedo sabem o que querem ser, Jolarson encontrou o cinema quase por acaso. Inicialmente inclinado para a robótica e programação, áreas que lhe despertavam interesse intelectual, sentia ainda assim uma ausência de ligação emocional. Foi apenas quando ingressou num programa de cinema mais por circunstância do que por vocação que tudo mudou.

“O que me prendeu foi a liberdade”, explica numa entrevista exclusiva à revista Chocolate. No cinema, encontrou um espaço onde podia explorar emoções, ideias e memórias sem as limitações rígidas da lógica técnica. Essa liberdade criativa despertou nele uma dedicação intensa, que o levou a concluir o programa com distinção máxima e a perceber que estava diante de algo maior do que um simples interesse: era identidade.

Sem referências específicas no início, Jolarson foi guiado sobretudo pelo impacto emocional dos filmes. Com o tempo, aprofundou o estudo da cinematografia, passando a compreender a imagem como uma linguagem poderosa. A sua entrada na Interlochen Arts Academy marcou um ponto de viragem decisivo, colocando-o num ambiente altamente exigente e competitivo, onde o talento é constantemente desafiado.

Outro factor determinante foi a influência do tio, que o incentivou a levar o cinema a sério, questionando o seu conhecimento e compromisso. Essa pressão construtiva ajudou a moldar a sua disciplina e visão.

O momento de viragem profissional aconteceu quando decidiu candidatar-se à Interlochen, mesmo diante das dificuldades financeiras. Determinado, trabalhou intensamente durante um ano para melhorar o seu desempenho académico e artístico. A aceitação com bolsa foi mais do que uma conquista externa, foi a confirmação de que estava no caminho certo.

Essa certeza ganhou ainda mais força quando venceu o prémio de Melhor Cinematografia no Indie Short Fest. Para Jolarson, o reconhecimento internacional trouxe credibilidade, mas também uma nova responsabilidade. “Não foi um ponto de chegada, foi um ponto de partida”, afirma.

O impacto do prémio foi significativo, abrindo portas e permitindo-lhe reposicionar a sua carreira de forma mais estratégica. Hoje, pensa o seu percurso a longo prazo, com um objectivo claro: contribuir para o desenvolvimento estrutural do cinema em Angola.

Apesar do talento existente no país, Jolarson reconhece que os maiores desafios são estruturais. A falta de acesso a equipamentos, formação e redes profissionais ainda limita o crescimento da indústria. Ainda assim, acredita que Angola possui um diferencial valioso: autenticidade.

Para ele, o futuro do cinema angolano passa pela construção de uma indústria sólida, capaz de gerar emprego, atrair investimento e posicionar o país no cenário cultural global. Mais do que fazer filmes, quer criar um ecossistema completo que inclua formação, produção e inovação tecnológica.

A sua visão vai além da arte. Jolarson vê o cinema como um negócio poderoso e uma ferramenta de transformação económica e cultural. E é essa ambição que também o leva a explorar outras áreas, como engenharia óptica e novas tecnologias de produção visual.

No campo pessoal, mantém uma relação equilibrada entre vida artística e afectiva, reconhecendo que as experiências humanas são essenciais para enriquecer as histórias que conta.

Entre os seus maiores sonhos está a criação de uma infraestrutura completa para o cinema em Angola, um espaço que permita aos criadores locais produzir ao mais alto nível sem sair do país.

Para os jovens angolanos que desejam seguir o mesmo caminho, deixa uma mensagem direta: começar com os recursos disponíveis, manter consistência e apostar em festivais internacionais como forma de projecção.

Fora das câmaras, Jolarson define-se como alguém em constante busca, um observador do mundo que utiliza o cinema como forma de interpretar e traduzir a realidade.

Mais do que um cineasta em ascensão, Jolarson Tati posiciona-se como um pensador do futuro do cinema angolano, alguém que não quer apenas contar histórias, mas construir as bases para que muitas outras possam ser contadas.

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