Médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia, palestrante, influenciadora digital e activista social, Nádia Costa tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais influentes na promoção da saúde feminina em Angola. Formada pela Faculdade de Medicina da Universidade Lueji A’Nkonde e especialista pela Maternidade Lucrécia Paim, dedica a sua carreira não apenas ao acompanhamento clínico das mulheres, mas também à educação, consciencialização e combate aos tabus ligados à saúde íntima. Fundadora do projecto social Santu Muhatu, iniciativa focada no combate à pobreza menstrual, gravidez na adolescência e falta de informação sobre saúde sexual e reprodutiva, a médica acredita que o conhecimento continua a ser uma das ferramentas mais poderosas para transformar vidas. Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, Dra. Nádia Costa falou sobre o seu percurso, os desafios enfrentados pelas mulheres angolanas, o impacto das redes sociais na educação em saúde e o sonho de construir uma geração feminina mais informada, livre e consciente.

Licenciada pela Faculdade de Medicina da Universidade Lueji A’Nkonde, em Malanje,
Médica especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela Maternidade Lucrécia Paim. Palestrante,
influenciadora digital para a área da saúde da mulher em todas as etapas da vida.
Fundadora do projecto social Santu Muhatu, que combate a vulnerabilidade menstrual, gravidez na adolescência e falta de educação em saúde íntima.
RC: O que a motivou a seguir a especialidade de Ginecologia e Obstetrícia e como foi o seu percurso até aqui?
NC: O meu interesse pela Ginecologia e Obstetrícia surgiu durante o internato, quando acompanhei o meu primeiro parto normal. Aquele momento de acolher uma nova vida, ao mesmo tempo, em que cuidava da mulher numa das experiências mais intensas da sua vida, foi transformador para mim.
Ao longo da residência, identifiquei-me tanto com o acompanhamento pré-natal quanto com a ginecologia de consultório, especialmente o cuidado longitudinal com a saúde da mulher. Hoje actuo em Luanda, e o que mais me motiva é essa relação de confiança que se constrói com as pacientes ao longo dos anos.
RC: De que forma a sua formação na Faculdade de Medicina da Universidade Lueje A’nkonde influenciou a profissional que é hoje?
NC: A minha formação colocou-me em contacto precoce com uma realidade clínica diversa e desafiante, o que desenvolveu em mim um raciocínio clínico aguçado e uma grande capacidade de adaptação. Aprendi a valorizar o cuidado humanizado mesmo em contextos de alta demanda, e isso é algo que levo para cada consulta e cada parto que acompanho.

RC: Na sua experiência, quais são os principais desafios enfrentados pelas mulheres angolanas no acesso à saúde íntima?
NC: Na minha prática em Luanda, os desafios que mais me marcam são três: o tabu e a vergonha que fazem as mulheres adiar a procura de cuidados, a chegada tardia com casos já avançados — muitas vezes evitáveis com um rastreio simples — e a dificuldade económica que interrompe tratamentos a meio.
Estes desafios lembram-me todos os dias que o meu papel vai além da consulta clínica. Cuidar da mulher angolana exige também escuta, educação e advocacia pela sua saúde.
RC: Como avalia o nível de informação das adolescentes em Angola sobre saúde sexual e reprodutiva?
NC: No meu dia-a-dia em consultas individuais com adolescentes, o que observo é preocupante: a maioria chega com informação escassa, distorcida ou vinda de fontes pouco fiáveis.
Os temas que surgem com mais frequência são a gravidez precoce, o desconhecimento sobre contracepção, mitos sobre o próprio corpo e a menstruação, e dúvidas sobre IST’s e VIH. O que mais me impressiona é que muitas chegam à consulta pela primeira vez já grávidas — o que revela que a informação não está a chegar antes de ser necessária.
Há muito trabalho a fazer, e acredito que o consultório pode ser também um espaço de educação.
RC: Enquanto médica e influenciadora digital, como equilibra a prática clínica com a criação de conteúdos educativos?
NC: Não vou fingir que é fácil — equilibrar a prática clínica com a criação de conteúdo várias vezes por semana em múltiplas plataformas é genuinamente desafiante. Há dias em que saio de uma consulta intensa e ainda tenho de encontrar energia e clareza para comunicar de forma útil e responsável online.
Mas o que me mantém é perceber que os dois se alimentam mutuamente. O consultório dá-me a matéria-prima — as dúvidas reais, os medos, os mitos que as mulheres trazem — e o conteúdo digital permite-me chegar a quem nunca vai conseguir marcar uma consulta comigo.
No fundo, vejo as redes sociais como uma extensão do meu consultório. Com uma diferença: ali posso chegar a milhares de mulheres ao mesmo tempo. Isso, para mim, vale o esforço.
RC: A sua comunicação nas redes sociais tem sido fundamental para desmistificar tabus. Que temas ainda considera mais difíceis de abordar junto do público?
NC: Apesar de já ter abordado muitos temas sensíveis nas redes sociais, há dois que ainda exigem de mim uma preparação especial: o aborto e a violência obstétrica.
O aborto é talvez o mais polarizador. Num contexto cultural e religioso como o nosso, falar sobre o tema de forma informada e sem julgamento gera reacções muito intensas. Não fujo do assunto — porque as mulheres precisam de informação independentemente das opiniões de cada um — mas faço-o com muito cuidado e responsabilidade.
A violência obstétrica é igualmente delicada, porque toca directamente na prática dos profissionais de saúde. Falar sobre isso publicamente é quase um acto de coragem, porque pode gerar desconforto dentro da própria classe médica.

Mas é precisamente nesses temas difíceis que a minha voz é mais necessária. O silêncio nunca protegeu nenhuma mulher.
RC: O projecto Santu Muhatu tem um forte impacto social. Como surgiu a ideia e quais são os principais resultados já alcançados?
NC: O Santu Muhatu nasceu de uma experiência pessoal, que não consigo esquecer. Houve um momento — uma menina, uma situação, uma realidade que tocou profundamente a minha adolescência — em que percebi que não bastava lamentar. Era preciso agir antes, chegar mais longe e de forma diferente.
Santu Muhatu, que significa “saúde da mulher”, nasceu exactamente disso: da convicção de que toda a mulher merece cuidado, informação e dignidade — independentemente de onde vive ou do que tem.
Hoje, olho para trás e sinto um orgulho imenso. Já chegámos a 2.000 mulheres e meninas, abrangemos cinco comunidades e escolas, e o que mais me emociona não são os números — são as mudanças que observo. Meninas que passaram a falar sobre o próprio corpo sem vergonha. Mulheres que procuraram ajuda médica pela primeira vez. Comunidades que começaram a ver a saúde feminina como prioridade.
RC: A pobreza menstrual continua a ser uma realidade em muitas comunidades. Que soluções considera urgentes para combater este problema em Angola?
NC: A pobreza menstrual é uma crise silenciosa que tira meninas da escola, rouba-lhes dignidade e perpetua ciclos de desigualdade. Em Angola, isso é uma realidade que não podemos continuar a ignorar.
A solução que considero mais urgente e concreta é a criação de bancos de dignidade menstrual nas escolas. Um espaço simples, discreto, onde nenhuma menina precise faltar às aulas por não ter acesso a produtos menstruais. Porque quando uma menina fica em casa durante a menstruação, não é só um dia perdido — é uma oportunidade de aprendizagem, de futuro e de dignidade que lhe é negada.
Já trabalhei directamente com comunidades e escolas e sei que a mudança é possível. Mas precisa de vontade política, parceiros sociais e uma sociedade que assuma que menstruar não pode ser um privilégio, e nenhuma adolescente deve escolher entre ir à escola e gerir a sua menstruação com dignidade.
RC: De que forma a educação pode contribuir para a redução da gravidez na adolescência no país?
NC: A gravidez na adolescência não se resolve com um único caminho — exige uma abordagem em três frentes.
Primeiro, a educação sexual nas escolas, que ainda é tratada com resistência em Angola, mas é absolutamente essencial. Segundo, o papel da família — os pais precisam de ser capazes de falar sobre sexualidade com os filhos sem tabu. E terceiro, o acesso real à contracepção, porque informação sem acesso não chega a ser suficiente.
Pessoalmente, tenho levado este tema às escolas através de palestras e às redes sociais, porque acredito que a prevenção começa muito antes do consultório.
RC: O empoderamento feminino é um dos pilares do seu trabalho. Que mudanças gostaria de ver nas próximas gerações de mulheres angolanas?
NC: Sonho com uma geração de mulheres angolanas que conheçam o próprio corpo, que saibam reconhecer os seus sinais e que tomem decisões sobre a sua saúde com confiança e autonomia — sem precisar de pedir permissão a ninguém.
Quero ver mulheres que cheguem ao consultório não por medo ou em estado de emergência, mas porque aprenderam desde cedo que cuidar de si é um direito. Que falem sobre saúde íntima com a mesma naturalidade com que falam sobre qualquer outro assunto — sem vergonha, sem tabu, sem silêncio.
E quero que esse acesso seja igual para todas — independentemente de onde vivem, do quanto ganham ou do nível de escolaridade que têm.
Esse é o Angola que estou a tentar construir — um passo de cada vez, seja no consultório, numa palestra ou numa publicação nas redes sociais.
RC: Fora do ambiente profissional, como descreve o seu lifestyle e o que faz para manter o equilíbrio emocional e físico?
NC: Fora do consultório, sou uma pessoa bastante comum — e isso reconforta-me.
O exercício físico é sagrado para mim. Não só pelo corpo, mas pelo que faz à minha cabeça depois de um dia intenso. A família e os amigos são o meu porto seguro — aquele espaço onde deixo de ser médica e sou simplesmente eu. E a fé é o que me ancora, especialmente nos dias mais difíceis.
No fundo, cuido de mim da mesma forma que aconselho as minhas pacientes a fazerem. Porque não consigo dar o que não tenho.
RC: Que hábitos de autocuidado considera essenciais para as mulheres, especialmente no contexto angolano?
NC: Quando falo de autocuidado com as minhas pacientes, gosto de deixar claro que cuidar de si não é luxo — é necessidade.
No contexto angolano, onde a mulher acumula tantos papéis — mãe, profissional, cuidadora da família — há três hábitos que considero essenciais e que são frequentemente negligenciados.
O primeiro é a saúde mental e emocional. A mulher angolana carrega muito e pede pouco. Aprender a reconhecer os próprios limites e pedir ajuda quando necessário é um acto de coragem, não de fraqueza.
O segundo são os check-ups e rastreios ginecológicos regulares. Muitas doenças são silenciosas — e detectá-las cedo pode salvar vidas. Uma consulta anual não é exagero, é prevenção.
O terceiro é o sono e o descanso. Descansar não é perder tempo — é repor energia para continuar a dar o melhor em tudo o que se faz.
Cuide de si primeiro. O resto flui melhor quando você está bem.
RC: Que conselho deixaria às jovens que desejam seguir carreira na área da saúde e, ao mesmo tempo, causar impacto social?
NC: Diria primeiro: encontre o seu porquê. Quando os dias forem longos e difíceis — e vão ser — é o propósito que a mantém de pé.
Não tenha medo de usar a sua voz. A medicina salva vidas no consultório, mas a sua história, a sua perspectiva e a sua coragem de falar podem salvar vidas muito além disso.
Invista sempre na sua formação — o conhecimento é a ferramenta mais poderosa que tem. E quando sentir vontade de desistir, lembre-se de que o mundo precisa exactamente de si — da sua versão autêntica, comprometida e impactante.
Angola precisa de mais mulheres que curam e inspiram ao mesmo tempo. Seja essa mulher.



