Gabriel Batalha Ulombe desafia narrativas históricas em duas novas obras sobre a identidade do Planalto Central

Gracieth Issenguele
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O escritor e investigador Gabriel Batalha Ulombe realizou, no último sábado, na Biblioteca Provincial do Huambo, o lançamento oficial, a venda e a sessão de autógrafos de duas novas obras literárias, “Quando o Passado Nos Faz a Cama” e “História do Planalto Central”, publicações que convidam os leitores a revisitar a história e a reflectir sobre as identidades construídas ao longo do período colonial.

Segundo o Jornal de Angola Online, os dois livros, editados pela Editora Clamor, na província do Huambo, apresentam abordagens distintas, sendo um romance e o outro um conto, escritos numa linguagem acessível e pensados para alcançar leitores de diferentes faixas etárias e contextos sociais. As obras contam, respectivamente, com 80 e 120 páginas e tiveram disponíveis cerca de 200 exemplares de cada título, comercializados ao preço de 15 mil kwanzas.

Mais do que uma proposta literária, “Quando o Passado Nos Faz a Cama” apresenta-se como um exercício de reflexão crítica sobre os rótulos identitários historicamente atribuídos aos povos do Planalto Central. Ao abordar designações como “Sulanos”, “Bailundos” e “Trabalhadores leais”, o autor questiona a permanência de estereótipos que, segundo defende, continuam a influenciar a percepção colectiva sobre os ovimbundu.

“Esses rótulos identitários, proferidos com espontaneidade, são difíceis de apagar, roubam dignidade e enfatizam diferenças”, explicou Gabriel Batalha Ulombe, defendendo a necessidade de desconstruir categorias que contribuíram para a marginalização de determinados grupos sociais.

Na obra, o escritor sustenta que a designação “ovimbundu” corresponde a uma construção colonial e recorda que, antes da presença portuguesa, as populações eram identificadas pelas suas origens específicas, como va Wambo, va Tchiyaka, va Tchingolo e va Sambo, cada uma com a sua própria identidade cultural e histórica. O autor esclarece ainda que a ideia de uma superioridade histórica do Bailundo sobre outros povos do Planalto Central não encontra sustentação, uma vez que as organizações tradicionais eram independentes e cooperavam entre si, sem uma liderança central que representasse a totalidade desses povos.

“O termo ovimbundu refere-se apenas a pessoas de pele escura e não a um conjunto de grupos étnicos”, reforçou o investigador.

Além do lançamento literário, Gabriel Batalha Ulombe aproveitou a ocasião para incentivar novos estudos sobre a História do Planalto Central, sublinhando a importância de uma investigação aprofundada, sobretudo porque a tradição oral está frequentemente sujeita à memória e à interpretação de quem transmite os acontecimentos.

Com uma trajectória profissional repartida entre o jornalismo e a docência universitária, actividades que considera complementares, o autor é investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde desenvolve a sua tese de doutoramento dedicada à resistência dos povos do Planalto Central à ocupação colonial, à evangelização e a outros aspectos determinantes da história angolana.

Gabriel Batalha Ulombe é igualmente autor da obra “Em Terra de Vários Povos: O Planalto Central entre os Séculos XVIII e XIX”, um estudo que analisa a construção das identidades étnicas nos períodos pré e pós-coloniais, reforçando o seu compromisso com a preservação e a reinterpretação da memória histórica nacional.

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