A médica reumatologista, professora, investigadora e líder científica brasileira, Dra. Licia Mota, partilhou com a Revista Chocolate Lifestyle a sua trajectória profissional, os desafios da carreira, as histórias que marcaram a sua vida e a visão humanista que orienta o seu trabalho há décadas.
Movida pela curiosidade e pelo desejo de compreender o ser humano, Licia conta que a escolha pela medicina surgiu de forma natural. “Queria compreender melhor o ser humano, mas permaneci na medicina porque descobri que cuidar das pessoas é uma das formas mais profundas de dar sentido à vida”, afirma.

Especialista em reumatologia, área pela qual se declara profundamente apaixonada, a médica explica que encontrou nesta especialidade a combinação perfeita entre ciência, complexidade e relações humanas. Para ela, acompanhar pacientes durante anos, por vezes décadas, permite construir vínculos que ultrapassam a dimensão puramente clínica.
Ao recordar os desafios do início da carreira, Licia revela que a maior dificuldade não foi superar obstáculos específicos, mas encontrar uma forma de conciliar as diferentes paixões que sempre fizeram parte da sua vida: a assistência médica, a investigação científica, a docência, a comunicação e a liderança associativa. Hoje, desempenha simultaneamente funções como professora universitária, investigadora, médica assistente num hospital público, médica em consultório privado e palestrante internacional.

Entre os inúmeros casos clínicos que marcaram a sua trajectória, um permanece especialmente vivo na sua memória. Trata-se da história de uma paciente com lúpus que acompanhou durante mais de dez anos. Após uma longa batalha contra a doença, a paciente faleceu, deixando uma filha pequena. Sensibilizada pela situação, a médica decidiu escrever uma carta para a criança, relatando quem havia sido a sua mãe para além da doença uma forma de preservar a memória da mulher que conheceu profundamente.
“Esse caso ensinou-me que cuidar de alguém vai muito além de prescrever tratamentos ou interpretar exames. Significa estar presente, compartilhar esperanças e oferecer conforto quando não podemos mudar o desfecho”, recorda.

A Dra. Licia Mota também destaca a revolução vivida pela reumatologia nas últimas décadas, impulsionada pelo avanço da ciência, das terapias inovadoras e, mais recentemente, da inteligência artificial e da medicina personalizada. Segundo a especialista, hoje é possível proporcionar aos pacientes uma qualidade de vida impensável há algumas décadas.
Apaixonada pela investigação científica desde os tempos de estudante, Licia coordena importantes projectos relacionados com a artrite reumatoide e desenvolve pesquisas sobre doenças infecciosas e autoimunes, com impacto particular em países da América Latina e África. Para ela, o verdadeiro valor da ciência está na capacidade de transformar conhecimento em benefícios concretos para as pessoas.

Além da carreira académica e científica, a médica construiu uma sólida trajectória de liderança em sociedades médicas nacionais e internacionais. No entanto, afirma que nunca viu a liderança como um objectivo pessoal, mas sim como uma forma de serviço. “Liderar significa criar oportunidades, formar pessoas e construir pontes”, defende.
Fora dos hospitais e laboratórios, Licia cultiva uma forte ligação com as artes. Bailarina desde a infância, continua a praticar ballet clássico e jazz regularmente. Apaixonada por literatura, história, mitologia e viagens, acredita que a arte e a ciência são expressões complementares da inteligência humana.

Ao reflectir sobre os valores que orientam a sua vida, destaca a ética, o respeito, a empatia, a compaixão e a honestidade como princípios inegociáveis. “O sucesso profissional tem valor, mas o caráter tem valor permanente”, afirma.
Para os jovens de Angola, do Brasil e dos restantes países lusófonos que desejam seguir uma carreira na medicina e na ciência, deixa uma mensagem de incentivo e esperança: “Não deixem ninguém definir os limites dos seus sonhos. Continuem curiosos, continuem aprendendo e continuem acreditando que é possível fazer a diferença. A ciência transforma o mundo, mas são as pessoas que dedicam as suas vidas ao conhecimento que tornam essa transformação possível.”



