Radiação ultravioleta: um risco invisível que pode comprometer a visão

Redacção
5 leitura mínima

Quando pensamos nos efeitos da exposição solar, associamos quase automaticamente os raios ultravioleta (UV) aos danos na pele. Há, no entanto, um aspecto que continua a passar em claro: os olhos estão expostos à mesma radiação e podem sofrer consequências significativas quando não são devidamente protegidos. Ao contrário de uma queimadura solar, cujos efeitos são visíveis em poucas horas, os danos oculares provocados pela radiação UV são, na maioria dos casos, silenciosos e cumulativos — só se manifestam anos mais tarde.

A radiação UV faz parte da luz solar e está presente ao longo de todo o ano, mesmo em dias nublados. É comum pensar-se que os olhos só precisam de protecção na praia ou no Verão, mas esta ideia está errada. A exposição acontece diariamente — a conduzir, a praticar desporto ao ar livre, a trabalhar no exterior ou simplesmente a caminhar na rua. Superfícies como a água, a areia ou o betão reflectem ainda parte desta radiação, aumentando a exposição dos olhos.

O principal perigo está na acumulação destes danos ao longo da vida. Tal como a pele, os olhos têm uma capacidade limitada de reparar as lesões provocadas pelos raios UV, o que significa que anos de exposição sem protecção podem acelerar o envelhecimento das estruturas oculares e aumentar o risco de várias doenças.

Entre as consequências mais bem documentadas encontram-se a fotoqueratite — uma lesão aguda da córnea causada por exposição intensa — o pterígio, uma lesão vascularizada que se desenvolve na conjuntiva e pode crescer em direcção à córnea, e um risco aumentado de catarata precoce.

Já a relação entre a radiação UV e doenças da retina e da mácula é menos consistente. A evidência científica atual não permite confirmar uma associação directa: a córnea e o cristalino filtram a maior parte da radiação UV antes de esta atingir a retina, e os estudos apontam antes para a luz visível — em particular a componente azul — como o factor com maior peso nestes casos. Isto não significa que a protecção seja dispensável; significa apenas que, com o conhecimento actual, o risco real para a retina parece estar mais ligado à luz visível do que à radiação UV.

As crianças merecem atenção especial. O seu cristalino é mais transparente, o que deixa passar uma maior quantidade de radiação até à retina e as torna mais vulneráveis. Como os danos se acumulam ao longo da vida, a protecção deve começar desde cedo, criando hábitos que se mantenham na idade adulta. Quem trabalha no exterior, pratica desporto ou passa muito tempo ao ar livre está, pela mesma razão, mais exposto.

Neste contexto, o Dia Mundial dos Óculos de Sol, recentemente assinalado, é um bom pretexto para recordar que a protecção ocular deve ser um hábito diário e não apenas uma preocupação sazonal. Mais do que um acessório de moda, os óculos de sol são um instrumento de prevenção — desde que tenham protecção certificada contra a radiação UV. Lentes escuras sem filtro UV adequado podem até representar um risco acrescido: ao escurecerem o campo visual, provocam a dilatação da pupila e permitem a entrada de mais radiação nociva.

Além dos óculos de sol certificados, há outras medidas simples que ajudam a proteger a visão: o uso de chapéus de aba larga, a redução da exposição solar nas horas de maior intensidade, e a realização regular de consultas e rastreios visuais, que permitem detectar precocemente alterações oculares e agir a tempo.

Proteger os olhos da radiação UV é um investimento na saúde visual futura. A maior parte dos danos causados pela exposição excessiva pode ser evitada com gestos simples e consistentes. Cuidar da visão não deve começar quando surgem sintomas — deve começar muito antes, através da prevenção, para preservar um dos sentidos mais importantes ao longo de toda a vida.

José Geraldes

Director Técnico do Centrooptico

Referências científicas

Organização Mundial da Saúde (OMS). Relatório Mundial sobre a Visão, 2019. https://iris.who.int/handle/10665/328717

American Academy of Ophthalmology. The Sun, UV Light and Your Eyes. https://www.aao.org/eye-health/glasses-contacts/sun

Yam JC, Kwok AK. Ultraviolet light and ocular diseases (revisão científica). International Ophthalmology, 2014. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23722672/

Referências online

https://www.zeiss.pt/vision-care/cuidados-e-saude-ocular/saude-e-prevencao/quando-necessita-de-proteger-os-seus-olhos-da-radiacao-uv.html
https://www.cuf.pt/mais-saude/7-conselhos-para-proteger-os-olhos-dos-raios-uv
Compartilhe este artigo
Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *