“Trabalhar marca pessoal não significa criar uma personagem” – Nilsa Samara, empreendedora

Gracieth Issenguele
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Empreendedora angolana, estrategista de Marketing Digital, especialista em Branding e fundadora da N.I Eventos, N.I Branding, N.I Academia e Okandú Cacau, Nilsa Samara construiu uma trajectória marcada pela criatividade, estratégia e inovação. Para ela, empreender ultrapassa a criação de empresas: significa transformar ideias em oportunidades, gerar impacto e contribuir para o desenvolvimento de Angola.

Ao longo do seu percurso, tem desenvolvido projectos que cruzam diferentes universos, desde a produção de eventos corporativos, culturais e sociais à formação, passando pelo Branding, Marketing Digital e pela produção de chocolates artesanais de inspiração gourmet. Na N.I Eventos, idealiza e produz experiências que fortalecem marcas e criam conexões entre pessoas e organizações, enquanto, na N.I Branding, desenvolve estratégias de comunicação e posicionamento para empresas e empreendedores.

É também através da N.I Academia que aposta na capacitação de novos talentos, defendendo uma visão de empreendedorismo assente no conhecimento, na disciplina e na consistência. Já a Okandú Cacau traduz a sua aposta num conceito em que o chocolate deixa de ser apenas um produto para se transformar numa experiência associada ao prazer, ao requinte e à identidade.

Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, Nilsa Samara fala sobre os desafios de conciliar diferentes negócios, as transformações do lifestyle angolano, liderança feminina, branding, luxo, formação e o legado que pretende deixar para as próximas gerações.

RC.: A sua carreira divide-se entre eventos, branding, formação e chocolates gourmet. Como consegue conciliar estas diferentes áreas sem perder a identidade da sua marca e o equilíbrio do seu estilo de vida?

NS.: Confesso que não é fácil, mas aprendi que não preciso de fazer tudo ao mesmo tempo. Cada projecto tem o seu momento, a sua equipa e os seus objectivos. O que une todas as minhas áreas é a criatividade e a vontade de transformar ideias em experiências e negócios com propósito.

Hoje, procuro trabalhar muito mais com organização e estratégia. Aprendi também a respeitar os meus limites e a perceber que, para construir algo sustentável, não podemos estar sempre a funcionar no limite. Ainda estou nesse processo de encontrar o equilíbrio, mas acredito que faz parte da própria caminhada empreendedora.

RC.: O lifestyle angolano tem evoluído significativamente nos últimos anos. Que tendências de consumo e de comportamento considera que estão a moldar uma nova geração de empreendedores e consumidores em Angola?

NS.: Acredito que o consumidor angolano está cada vez mais atento à experiência e não apenas ao produto. As pessoas querem qualidade, mas também querem identificação, bom atendimento, uma boa apresentação e sentir que existe uma história por detrás daquilo que estão a comprar.

Também vejo uma geração de empreendedores muito mais disposta a criar marcas próprias, explorar o digital e transformar talentos em negócios. As redes sociais tiveram um papel enorme nisso, porque hoje uma pessoa pode começar praticamente do zero e construir uma comunidade em torno daquilo que faz.

RC.: A Okandú Cacau aposta em chocolates artesanais de inspiração gourmet. De que forma pretende transformar o chocolate numa experiência ligada ao requinte e ao estilo de vida dos angolanos?

NS.: Para mim, o chocolate nunca foi apenas um alimento. Pode ser um presente, uma forma de demonstrar carinho, fazer parte de uma celebração ou simplesmente representar um momento de prazer.

Na Okandú Cacau, procuro trabalhar precisamente essa dimensão. Desde o sabor à apresentação, quero que a pessoa tenha a sensação de estar a receber algo especial. Quero que o chocolate gourmet seja associado a momentos, experiências e emoções, e acredito que Angola tem espaço para consumir e valorizar cada vez mais produtos desse género.

RC.: Como estrategista de Marketing Digital e Branding, acredita que a imagem pessoal de um empreendedor é tão importante quanto a qualidade dos produtos ou serviços que oferece? Por quê?

NS.: Sim, mas acredito que uma coisa não substitui a outra. A imagem pode abrir uma porta, mas é a qualidade que faz o cliente permanecer.

Hoje, as pessoas querem saber quem está por detrás das marcas. A forma como comunicamos, nos posicionamos e nos relacionamos com o público influencia muito a percepção que as pessoas têm do nosso negócio. Por isso, trabalhar a marca pessoal não significa criar uma personagem, mas aprender a comunicar aquilo que realmente somos e aquilo que defendemos.

RC.: A liderança feminina tem conquistado cada vez mais espaço no universo empresarial. Quais desafios e oportunidades encontrou enquanto mulher empreendedora em Angola?

NS.: Ser mulher empreendedora em Angola tem sido uma experiência de muito crescimento. Existem desafios, claro. Muitas vezes, precisamos de provar a nossa capacidade antes de termos a oportunidade de mostrar aquilo que conseguimos fazer.

Mas também vejo uma mudança muito positiva. Hoje, temos cada vez mais mulheres a criar empresas, liderar equipas e ocupar espaços que antes pareciam distantes.

Para mim, uma das maiores oportunidades está precisamente nessa nova geração de mulheres que já não espera autorização para começar. Começa, aprende, erra, melhora e continua.

RC.: Na sua perspectiva, que hábitos ou competências devem fazer parte do estilo de vida de quem pretende construir uma carreira sólida e sustentável no empreendedorismo?

NS.: Disciplina, organização e capacidade de aprender constantemente. Acho que também é muito importante saber ouvir e aceitar críticas.

Outra coisa que considero fundamental é aprender a gerir dinheiro e entender que facturação não significa necessariamente lucro. Muitos negócios acabam por falta de gestão, mesmo quando têm bons produtos.

E acrescentaria uma coisa: consistência. Nem todos os dias teremos motivação, mas precisamos de continuar a trabalhar mesmo nos dias em que as coisas não estão a correr como esperávamos.

RC.: Através da N.I Academia, tem investido na formação de novos talentos. Que mudanças gostaria de ver na mentalidade dos jovens angolanos relativamente ao empreendedorismo e à inovação?

NS.: Gostaria que os jovens percebessem que empreender não significa simplesmente “ter o próprio negócio”. É preciso preparação, conhecimento, estratégia e responsabilidade. Também gostaria de ver menos medo de começar pequeno. Muitas pessoas têm uma grande ideia, mas ficam à espera das condições perfeitas. Nem sempre elas vão existir.

Acredito muito na capacitação. É por isso que a N.I Academia é importante para mim: quero ajudar pessoas a desenvolver competências que possam transformar em oportunidades reais.

RC.: O conceito de luxo está a ganhar novas interpretações em Angola. Como vê a relação entre marcas autênticas, experiências exclusivas e o consumidor angolano actual?

NS.: Acho que o luxo está a deixar de ser apenas aquilo que é caro. Hoje, luxo também é exclusividade, atenção aos detalhes, personalização e experiência.

Um consumidor pode valorizar muito mais um produto feito com cuidado, uma experiência personalizada ou um atendimento excepcional do que simplesmente um produto com um preço elevado.

É nesse espaço que acredito que as marcas angolanas têm uma grande oportunidade: criar produtos e experiências com identidade própria e elevar os padrões de qualidade sem perder a nossa essência.

RC.: Quando olha para o futuro, que legado gostaria de deixar para o empreendedorismo feminino e para o desenvolvimento do lifestyle angolano através dos seus projectos?

NS.: Gostaria de ser lembrada não apenas pelas empresas que criei, mas pelas pessoas e oportunidades que consegui impactar através delas.

Quero construir negócios que possam crescer para além de mim, criar empregos, desenvolver talentos e mostrar que é possível criar marcas angolanas com qualidade, identidade e ambição internacional.

E, principalmente, gostaria que outras mulheres olhassem para a minha trajectória e pensassem: “Se ela conseguiu começar e construir, eu também posso.”

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