Quarenta e sete anos depois, Neto continua presente em nossa memória

Redacção
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Morreu com 56 anos, presidente havia menos de quatro, líder do MPLA havia mais de duas décadas. Poeta antes de tudo, disso ninguém duvida nem os que discordam do resto. “O mais importante é resolver os problemas do povo”, disse ele, frase que desde então tem sido citada por tanta gente com tão poucos resultados práticos que já merecia direitos de autor pagos em dobro. É a sina das boas frases de fundadores de nações: sobrevivem ao homem, sobrevivem ao regime, sobrevivem inclusive à sua própria aplicação.

O poeta que se tornou instituição

Há qualquer coisa de perturbador em como Angola trata os seus mortos ilustres: com um zelo cerimonial que por vezes parece inversamente proporcional ao zelo dedicado às instituições que eles próprios fundaram enquanto vivos. Neto foi, entre tantos títulos, o primeiro presidente eleito da União dos Escritores Angolanos, em Dezembro de 1975, a mesma UEA cuja biblioteca, dizíamos nós há algum tempo nestas páginas, se debate hoje com estantes centenárias, poeira insubmissa e computadores que já não roncam, oferecidos por um Ministério que também parece ter esquecido a promessa. As mesmas estantes, aliás, compradas com o dinheiro do Prémio Lotus que o próprio Neto trouxe para casa em 1970. Há uma simetria quase cruel nisto: o homem morre, é elevado a Herói Nacional, ganha estátuas, avenidas, universidades com o seu nome — e a biblioteca que ajudou a mobilar continua à espera de umas prateleiras novas.
Convenhamos que homenagear é fácil, manter é que dá trabalho.
Este é o género de contradição que Angola sabe cultivar com talento quase artístico: lembrar-se dos símbolos com pompa e esquecer-se dos objectos com naturalidade. Um dia oficial de luto nacional, discursos, minutos de silêncio devidamente cronometrados — e no dia seguinte, a rotina de sempre, com as suas instituições a envelhecer em silêncio, sem imprensa, sem cerimónia, sem ninguém a despejar um balde de água suja ao lado para as refrescar.

Entre o mito e o homem

Convém não cair na tentação fácil do sarcasmo barato: Neto foi, de facto, figura incontornável, médico formado em Coimbra e Lisboa, preso pela PIDE mais do que uma vez, fundador do MPLA, presidente de uma nação recém-nascida em plena guerra civil, e poeta que continua a ser estudado nas escolas com mais devoção do que muitos autores vivos alguma vez conseguirão. Não é pequena proeza acumular estes currículos num só homem, e menos ainda fazê-lo antes dos 57 anos.

Mas talvez seja precisamente por isso que estas efemérides merecem mais do que discursos empolados e automáticos. Merecem a pergunta incómoda: o que fizemos, nestes quarenta e sete anos, com a herança que ele deixou? Se a resposta passar pelas estantes empenadas de uma biblioteca com o seu nome moral gravado nas paredes, talvez seja hora de trocar os discursos por martelo e prego. Neto escrevia sobre libertação; o mínimo que lhe devemos é não deixar a memória dele apodrecer com a humidade.

Fica o dia assinalado, como manda a praxe. Fica também a pergunta, que ninguém costuma fazer em voz alta nestas ocasiões: celebramos o homem, ou celebramos apenas a data?

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