“Criatividade, Regionalidade e Autenticidade São os Pilares da Moda Angolana” – Reginaldo Fonseca, consultor de moda

Michela Silva
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Empresário, consultor de moda, escritor, diretor da Cia Paulista de Moda e membro da Academia Joseense de Letras, Reginaldo Fonseca regressa ao Angola Fashion Week 2026. Em entrevista exclusiva à Chocolate, o especialista brasileiro reflete sobre os 35 anos de carreira, a evolução do mercado em Luanda, o combate à validação europeia e o papel do evento como motor de transformação social e cultural.

Há mais de três décadas no epicentro da indústria global, Reginaldo Fonseca carrega uma trajectória que une a sensibilidade do olhar criativo à visão estratégica dos grandes negócios. Diretor da prestigiada Cia Paulista de Moda, consultor, escritor e membro da Academia Joseense de Letras, o empresário brasileiro é uma das figuras-chave que ajudaram a projectar o Angola Fashion Week (AFW) no ecossistema cultural e internacional.

De regresso a Luanda para a edição de 2026, Reginaldo Fonseca fala sobre a aliança renovada com a família Morais e com a diretora Emilia Morais, destaca a maturação da sociedade angolana e desmistifica a ideia de que um desfile é apenas um espetáculo visual. Para o especialista, a moda é comportamento, identidade e motor económico, um ecossistema vivo onde a criatividade africana assume, por mérito próprio, o seu lugar de destaque no mundo.

Entrevista na Íntegra

Revista Chocolate: O que o motivou a voltar a colaborar com o Angola Fashion Week 2026?

Reginaldo Fonseca: Minha maior motivação certamente é a Emília Morais, uma mulher que não só gosta de moda, mas acredita muito em seu país. Ela investe alto para que o Angola Fashion Week exalte a cultura africana e revele talentos, como é o caso dos novos criadores que vamos conhecendo. A Emília é uma mulher fantástica, com a qual me identifico pelo modo de pensar. Junto com todos os diretores e com a família Morais, estamos voltando com o Angola Fashion Week, dessa vez para ficar.

Revista Chocolate: O que Angola representa na sua trajectória profissional e pessoal?

Reginaldo Fonseca: Estar em Angola e participar de um grande evento de moda que é um dos maiores da África e consta no calendário da moda internacional me ensina muito. Claro que a vida é uma via de mão dupla, mas eu gosto de colaborar, de levar novas ideias e, também, de aprender com os angolanos. Cada vez que volto de Angola, volto com algo novo que aprendi, vi, senti e percebi. Isso automaticamente me estimula a ser um profissional melhor e fazer o trabalho que realizo há 35 anos. E isso reflete na minha vida pessoal, porque adoro estar na África e em Angola, assim como amo o povo angolano, que aprecia moda, música e gastronomia, coisas das quais gosto muito. A cada ida ao país de vocês, com certeza me torno uma pessoa melhor.

Revista Chocolate: O que encontrou de diferente no mercado angolano em comparação com as suas primeiras vindas ao país?

Reginaldo Fonseca: Conheci Angola há cerca de 15 anos e fui pela última vez em 2019. Agora retornei e é visível que Luanda mudou muito. O aeroporto chama a minha atenção e ele não perde para nenhuma outra cidade importante do mundo. A companhia aérea TAAG avançou demais. Senti o povo angolano mais receptivo também, e fiquei muito feliz por saber que as pessoas sentiram minha falta. Recebo mensagens dizendo que estão felizes por eu estar de volta, colaborando junto a elas e levando ideias novas. Angola evoluiu muito e mudou para melhor. Está mais organizada e mais cuidada. É um país lindo, com enormes riquezas e seres humanos fantásticos.

Revista Chocolate: O que o público pode esperar desta edição do Angola Fashion Week?

Reginaldo Fonseca: Preparamos algo muito bacana! Vamos trabalhar da mesma forma que as semanas de moda têm feito seus desfiles pelo mundo, a exemplo de Milão, Paris, Nova York, Seul e Dubai. Será um desfile interativo e muito democrático, no qual teremos estilistas de renome internacional, como a Nadir Tati, mas também novos criadores, que vão apresentar, pela primeira vez, uma colecção num evento grandioso como o Angola Fashion Week. Então, as pessoas podem esperar todo o encanto, o glamour e a sofisticação que a moda mundial quer. É isso que vamos oferecer a todos que estiverem no dia 10 de outubro prestigiando e assistindo ao Angola Fashion Week 2026.

Revista Chocolate: O que faz uma Fashion Week deixar de ser apenas um desfile para se tornar uma plataforma de desenvolvimento da indústria?

Reginaldo Fonseca: As pessoas acham que um desfile de moda serve somente para colocar roupas em modelos e soltá-las na passarela. Não! Falar de moda significa falar de comportamento e lifestyle, duas palavras importantes, que estão muito mais na moda do que roupa, na actualidade. O Angola Fashion Week não é só um desfile; é uma plataforma para desenvolver, fomentar e alavancar a moda angolana como um todo. Percebo que a moda de Angola tem um diferencial, pelos criadores conseguirem misturar, de forma fantástica, a moda internacional com a regional. Dentro dos padrões internacionais, eles trabalham com seus tecidos e suas matérias-primas únicas. Então, o Angola Fashion Week é essa plataforma que comunica, que fala de moda e dá força e oportunidade a quem quer mostrar suas criações. Ao mesmo tempo, quem assiste acaba recebendo as informações e vivencia um momento mágico e único, como um sonho de estar em um grande evento pertencente ao calendário da moda internacional, que é o Angola Fashion Week.

Revista Chocolate: O mundo finalmente está a olhar para África ou ainda existe muito preconceito?

Reginaldo Fonseca: Acredito que o mundo nunca deixou de olhar para a África, que é um continente tão rico, cuja população surpreende com seus feitos. Como disse anteriormente, amo estar na África, de onde conheço quatro países. Dentre eles, identifico-me muito com a Angola, pelo povo, pela ousadia, pelos gostos em comum aos brasileiros, pela busca por aprender e, claro, pela oportunidade de participar de um evento como o Angola Fashion Week. O país tem o privilégio de ter a família Morais, que investe nesse projecto e está fazendo com que ele recomece, para continuar tendo a força que sempre teve. O evento leva o glamour de grandes marcas, criadores e designers, além do talento dos que estão iniciando no setor. Para a edição de 2026, teremos dez embaixadores angolanos. Cada um à sua forma, com olhar e pensamento individualizados, está comunicando sobre o Angola Fashion Week. Eles vão ajudar a ressaltar que o projeto vai muito além da moda, revelando a cultura, a arte, o comportamento, a música e tudo de melhor que há pela África.

Revista Chocolate: O que a moda africana tem que o resto do mundo ainda não conseguiu reproduzir?

Reginaldo Fonseca: A moda africana é diferente, surpreendente, encantadora… Visitei o ateliê de uma designer que trabalha com linho, tecido nobre e um dos primeiros do mundo. Fiquei fascinado com o olhar da criadora e com toda a sofisticação, leveza e qualidade do acabamento. Tive contacto com os costureiros que desenvolvem as peças. Para mim, isso é um encanto! No mercado fashion, tudo é pensado com antecedência. E o Angola Fashion Week está aí para mostrar e valorizar o que as pessoas estão fazendo. Certamente, os angolanos conseguem reproduzir a moda de uma forma fantástica. É o caso da Nadir Tati, da Rose Palhares, da Soraya da Piedade e de tantos outros talentos que vocês têm no país. De alguma forma, eles levam a moda africana para dentro do conceito da moda internacional. Vocês estão de parabéns!

Revista Chocolate: Se tivesse de definir a identidade da moda angolana em três palavras, quais seriam?

Reginaldo Fonseca: Criatividade, regionalidade e autenticidade. Para mim, esses são os pilares que fazem da moda angolana tão diferente, actual e que não fica aquém de nenhum outro lugar do mundo.

Revista Chocolate: O que falta para Angola ser uma referência internacional na moda?

Reginaldo Fonseca: Nada! Quando participamos pela primeira vez do Angola Fashion Week, fazendo a produção do evento, naquela mesma edição conseguimos internacionalizar a marca Angola Fashion Week. Isso fez com que as próximas edições ganhassem cada vez mais espaço, tornando-se referência. Foi então que o evento entrou para o calendário da moda internacional e se transformou num dos grandes acontecimentos da moda em toda a África. Então, a internacionalização já aconteceu. É claro que a cada dia as pessoas vão aprimorando-se e acreditando mais em seus sonhos. Assim como qualquer marca de moda mundialmente reconhecida tende a se inovar a cada coleção lançada, é preciso sempre se reciclar.

Revista Chocolate: Ainda faz sentido investir em desfiles físicos?

Reginaldo Fonseca: Faz todo sentido! As semanas de moda mundiais nunca param, até porque nenhuma peça de roupa tem vida: somos nós, seres humanos, que damos vida às vestimentas. As pessoas amam assistir às semanas de moda de Nova York, Milão, Paris e de outras capitais fashionistas. A moda pulsa, vibra, encanta, gera desejo, e tudo isso termina em consumo. Todo indivíduo possui duas necessidades básicas durante a vida: comer e vestir-se. Não conseguimos iniciar um novo dia sem colocarmos uma roupa em nossos corpos e sem nos alimentarmos. Então, acredito que os desfiles físicos não deixarão de existir, mas eles vão se inovando, claro. Para o Angola Fashion Week 2026, por exemplo, vamos apresentar um desfile totalmente inovador, dentro das propostas da moda internacional. O importante é não esquecer que o mundo físico e digital caminham lado a lado.

Revista Chocolate: Existe algum sonho pessoal que ainda não realizou?

Reginaldo Fonseca: O ser humano vive de sonhos, e quando deixamos de sonhar deixamos de viver. Tenho muitos sonhos a realizar. Um deles é ir às Maldivas. Em algum momento de férias, quero vivenciar isso.

Revista Chocolate: A formação académica é indispensável ou o talento continua a falar mais alto?

Reginaldo Fonseca: Sabemos que o estudo é importante. Ele muda tudo! Ainda mais na era digital, é fundamental se atualizar para não ficar obsoleto. Porém, é fato que nada vai superar o talento. A pessoa pode ter a formação acadêmica, mas com o talento ela vai muito longe. Entretanto, ressalto que conheço muitos estilistas que nunca estudaram Moda, mas pesquisam, entendem, fazem peças extraordinárias e vestem muitos corpos. Assim como também existem designers que não sabem costurar. Então, tudo é relativo. Minha dica é que o conhecimento e o talento andem de mãos dadas, pois isso fará muita diferença lá na frente.

Revista Chocolate: A moda africana ainda procura validação da Europa?

Reginaldo Fonseca: Na realidade, a moda do mundo todo procura validação da Europa. Brasil, Angola, África do Sul, Moçambique e tantos outros países buscam essa aprovação. Para mim, não faz muito sentido, porque a moda tem que existir para vestir pessoas normais, que gostam e precisam de roupas. Não precisamos ficar nesse empenho de que alguém tem que validar. Se uma marca, um criador, designer ou estilista desenvolveu uma coleção e ela foi vendida, ali já está a confirmação de que o cliente gostou do que viu e levou para o seu guarda-roupa. Quem cria e se propõe a vestir corpos deve ter esse entendimento.

Revista Chocolate: As celebridades ainda influenciam mais do que os estilistas?

Reginaldo Fonseca: É muito relativo, então vamos por partes. Na realidade, as celebridades têm que usar peças de alguém para obterem a atenção que desejam, por onde passarem. Já os estilistas, para mim, estão em primeiro plano, pois eles é que vão criar, desenvolver, produzir e levar uma roupa para vestir aquela personalidade importante. Então, quando uma celebridade coloca uma peça de determinado criador ou marca, obviamente ela vai se sobressair, mas depende muito da roupa escolhida. Portanto, vejo que ambos – celebridades e estilistas – estão muito próximos em seus níveis de importância.

Revista Chocolate: Depois de tantas semanas de moda em diferentes países, o que ainda o emociona?

Reginaldo Fonseca: Realmente, através do meu trabalho, participei de várias semanas de moda: em Dubai, Milão, Londres, Paris, Luanda, São Paulo. O que mais me emociona é quando, no dia do desfile, vejo as pessoas chegando com aqueles olhos atentos, na expectativa do que vai acontecer. E ao vê-las ir embora, saem com um semblante de satisfação, mostrando que aprenderam, perceberam, entenderam, viram e gostaram. Isso me emociona muito! Sem esquecer de falar do momento em que dou o comando para que se apague todas as luzes da sala de desfile e a primeira música começa. Sempre me dá aquele frio na barriga! Nesses anos de carreira, produzi mais de cinco mil desfiles, e cada um é único e tem uma emoção diferente. Isso é fabuloso, pois os sentimentos provam que estou vivo, fazendo com que a moda nunca deixe de ser moda. Para mim, isso é primordial.

Revista Chocolate: Qual é o maior conselho que dá aos jovens criadores?

Reginaldo Fonseca: Há muitos deles em Luanda, e na minha ida recente à cidade, conheci três com muita visão, conteúdo, pesquisas e aquele desejo de fazer diferente. Para os jovens criadores, meu conselho é que nunca desistam. Sim, sabemos que a moda faz parte de um grupo muito fechado. Para se conseguir algo, tem que batalhar muito, correr atrás e estar de acordo com o que está acontecendo no planeta. É preciso ter um olhar de 360 graus para o mundo moderno, onde as coisas acontecem. Então, acredite no seu sonho, continue trabalhando, fazendo as coisas, criando… Mas sempre dentro de uma proposta comercial, porque a moda se tornou comercial e vendável. Ela é muito objetiva na atualidade, não dá para ficar inventando tanto. Até mesmo nos desfiles de alta-costura ou de marcas importantes existentes pelo mundo afora, os criadores estão sempre com a sacada de trazer aquilo que realmente vista corpos. As pessoas não querem mais uma moda cheia de coisas, com aquela proposta conceitual de fortalecimento de marca. Não! Elas querem colocar peças que façam parte do seu dia-a-dia. Afinal, vivemos numa correria tão louca que almejamos praticidade, conforto e sofisticação. Então, corra em direção ao seu sonho e nunca deixe de alçar voos altos.

Revista Chocolate: Que legado gostaria de deixar para a indústria da moda?

Reginaldo Fonseca: Em 1993, quando vi a primeira semana de moda acontecendo no Brasil – a São Paulo Fashion Week, que tinha outro nome na época, na hora pensei que podíamos e devíamos levar isso para muito mais pessoas. Os desfiles eram muito restritos, e não se tinha internet. Sem a presença do digital, se a sala de desfile tivesse 200 lugares, somente 200 convidados viam a coleção. Portanto, minha empresa – Cia Paulista de Moda – foi pioneira em levar os desfiles de moda para dentro dos shopping centers brasileiros. Com isso, fizemos com que as pessoas despertassem o interesse de entender, perceber e usar roupas que fazem parte do seu estilo pessoal. Como a internet não existia, o interesse de comprar uma peça de roupa ou montar um look vinha dos personagens que brilhavam nas novelas. Ali percebemos a importância de levar as pessoas para dentro dos shoppings. Acredito que esse é um legado importante que já deixamos, a nossa contribuição para realizar eventos grandiosos espalhados pelo Brasil e levar a moda a um grande público. Quando entramos para o Angola Fashion Week, entendemos também que tínhamos que realizar um espetáculo igualmente poderoso, que tivesse glamour e toda a atenção voltada a ele. Lembro-me que, nas primeiras edições do AFW, não se falava sobre outra coisa durante aquela semana. Esse é o nosso legado para Angola, que tem prazer em ver moda.

À medida que o Angola Fashion Week 2026 se aproxima, a visão de Reginaldo Fonseca reafirma a maturidade e o impacto social da criação feita em Angola. Mais do que um espetáculo de passarela, o evento consolida-se como uma celebração do comportamento, da cultura e do progresso económico e humano. Com o olhar atento aos novos talentos e o respeito rigoroso pelo mercado global, o especialista brasileiro lembra-nos que a verdadeira moda vive das pessoas, transforma sociedades e constrói legados duradouros.

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