Helena Rocha: Da varanda de casa à formação de mais de 600 profissionais de manicure

Gracieth Issenguele
10 leitura mínima

De uma varanda em Cacuaco nasceu um percurso marcado pela coragem, aprendizagem e empreendedorismo. Helena Manuel da Rocha encontrou no universo das unhas uma oportunidade para transformar uma habilidade numa carreira, tornando-se hoje mentora e formadora à frente da Escola de Manicure Helena Rocha, com mais de 600 alunos formados.

Em conversa com a Revista Chocolate Lifestyle, Helena revisita os desafios que marcaram a sua trajectória, desde o abandono da Enfermagem até à formação internacional em língua russa na técnica Mold F1, e fala sobre profissionalização, empreendedorismo, maternidade, autocuidado e os próximos passos para o crescimento da sua academia.

RC.: A sua carreira começou de forma improvável, após abandonar a Enfermagem. Em que momento percebeu que o universo das unhas era, afinal, a sua verdadeira vocação?

HR.: A minha história no empreendedorismo começou num momento de muita procura por identidade e independência. Quando decidi abandonar a Enfermagem, percebi que precisava encontrar uma área onde pudesse construir algo meu e depender das minhas próprias capacidades.

O meu primeiro contacto com as unhas aconteceu ainda em 2019, quando comecei a explorar essa área na varanda da casa dos meus pais. Naquele momento, eu não imaginava que aquilo se transformaria numa carreira, mas existia dentro de mim uma vontade muito grande de aprender, evoluir e fazer diferente.

A confirmação veio quando comecei a estudar técnicas mais diferenciadas, aperfeiçoar os meus trabalhos e perceber que as pessoas não estavam apenas interessadas no resultado, mas também queriam aprender comigo. Foi aí que percebi que as unhas não eram apenas uma oportunidade profissional, mas também uma forma de impactar outras vidas.

RC.: A formação internacional em língua russa exigiu coragem e persistência. O que a motivou a ultrapassar todas as barreiras para dominar a técnica Mold F1?

HR.: O que me motivou foi a vontade de oferecer algo diferente ao mercado angolano. Na altura, eu procurava uma técnica que ainda não fosse comum e encontrei a Mold F1 através de uma profissional russa.

O maior desafio foi a língua. O curso não estava disponível em português, então precisei encontrar formas alternativas para compreender o conteúdo, utilizando tradução por áudio e muita dedicação.

Foi um processo cansativo, mas eu acreditava que aquele conhecimento poderia abrir uma porta diferente para mim. Eu sempre tive a visão de que, para crescer, precisava procurar conhecimento além do que estava disponível ao meu redor.

RC.: A Escola de Manicure Helena Rocha já formou mais de 600 alunos. Qual considera ser o maior impacto que o seu trabalho tem gerado na vida destes profissionais?

HR.: O maior impacto é mostrar que a manicure pode ser vista como uma profissão e não apenas como uma forma temporária de sobrevivência.

Muitas pessoas chegam até nós sem acreditar totalmente no seu potencial. Durante a formação, além das técnicas, trabalhamos autoestima, qualidade de entrega e uma visão mais profissional da área.

É muito gratificante ver pessoas que começaram connosco conquistarem clientes, melhorarem a sua realidade financeira e perceberem que podem construir algo sustentável através de uma habilidade.

RC.: A sua academia recebe alunos de diferentes realidades sociais. Como consegue tornar a formação acessível sem comprometer a qualidade do ensino?

HR.: Acredito que acessibilidade e qualidade podem caminhar juntas quando existe organização e propósito.

A nossa missão sempre foi permitir que mais pessoas tenham acesso a conhecimento de qualidade, independentemente da sua realidade financeira. Mas acessível não significa ensinar de qualquer forma.

Temos uma metodologia estruturada, trabalhamos fundamentos, técnicas, padrões de qualidade e preparação profissional, porque acreditamos que todos os alunos merecem receber uma formação de excelência.

RC.: Além de ensinar técnicas, dedica-se também à mentoria para empreendedores da área da beleza. Quais são os erros mais frequentes que identifica em quem deseja criar um negócio neste sector?

HR.: Um dos maiores erros é começar um negócio apenas com vontade, mas sem estrutura.

Muitas pessoas sabem executar uma técnica, mas não sabem organizar um espaço, definir preços corretamente, controlar custos, posicionar a marca ou criar uma experiência para o cliente.

Foi justamente por viver esse processo na prática que surgiu a minha mentoria. Hoje ajudo pessoas que querem começar ou estruturar os seus negócios a tomarem decisões mais conscientes, evitando erros que podem comprometer o crescimento.

RC.: Num mercado cada vez mais competitivo, o que distingue a Escola de Manicure Helena Rocha das restantes academias de formação em Angola?

HR.: O nosso diferencial está na forma como enxergamos a formação.

Nós não ensinamos apenas procedimentos. Ensinamos bases, estrutura, qualidade e uma visão profissional da área.

Acredito que um bom profissional não é apenas aquele que sabe fazer unhas bonitas, mas aquele que entende o processo completo, desde a técnica até à experiência que entrega ao cliente.

RC.: Enquanto empreendedora e mãe de gémeos, como tem conseguido conciliar a vida familiar com a gestão de uma empresa em constante crescimento?

HR.: Não é um processo simples. Exige organização, disciplina e muita consciência das prioridades.

Ser mãe e empreendedora ensinou-me a gerir melhor o meu tempo e a perceber que nem sempre consigo fazer tudo ao mesmo tempo, mas preciso garantir que aquilo que faço tenha qualidade.

Também aprendi a construir uma equipa e processos, porque para uma empresa crescer não podemos depender apenas da presença da fundadora.

RC.: Acredita que o mercado da beleza em Angola já reconhece a manicure como uma profissão qualificada e sustentável ou ainda há preconceitos a ultrapassar?

HR.: Acredito que estamos a evoluir, mas ainda existe muito trabalho pela frente.

Durante muito tempo, a manicure foi vista apenas como um serviço simples, sem necessidade de formação ou conhecimento técnico. Hoje estamos a mudar essa realidade, mostrando que existe ciência, técnica, investimento e possibilidade de construir uma carreira.

Quanto mais profissionais qualificados existirem, mais o mercado irá reconhecer esta área.

RC.: Que conselho deixaria aos jovens angolanos que desejam empreender, mas sentem que lhes faltam oportunidades?

HR.: O primeiro passo é começar com aquilo que está disponível, mas com vontade de aprender e evoluir.

Muitas vezes esperamos ter todas as condições perfeitas para começar, mas a minha própria história mostra que é possível iniciar com poucos recursos e construir algo maior através da dedicação, conhecimento e consistência.

Uma oportunidade muitas vezes nasce quando decidimos desenvolver uma habilidade e levá-la a sério.

RC.: A inovação faz parte da sua identidade profissional. Quais são os próximos projectos e metas que pretende concretizar para a Escola de Manicure Helena Da Rocha?

HR.: O nosso objetivo é continuar a expandir o impacto da escola, levando formação para mais pessoas dentro e fora de Luanda.

Também queremos fortalecer a área da mentoria, ajudando mais empreendedores da beleza a criarem negócios estruturados e sustentáveis.

A nossa visão é contribuir cada vez mais para a profissionalização do mercado das unhas em Angola.

RC.: A Revista Chocolate Lifestyle acompanha histórias que inspiram o empreendedorismo e o bem-estar. Na sua perspectiva, como define o verdadeiro lifestyle angolano e de que forma a imagem, o autocuidado e o empreendedorismo contribuem para esse estilo de vida?

HR.: Acredito que o lifestyle angolano está muito ligado à nossa capacidade de criar, superar desafios e valorizar aquilo que somos.

O autocuidado não é apenas estética; também representa autoestima e confiança. O empreendedorismo representa a nossa capacidade de transformar talentos e habilidades em oportunidades.

Quando uma pessoa cuida da sua imagem e acredita no seu potencial, ela também transforma a forma como se apresenta ao mundo.

RC.: Quando olha para a jovem que começou a aprender técnicas de unhas na varanda da casa dos pais, em Cacuaco, que mensagem gostaria de deixar a essa Helena e a todas as mulheres que sonham transformar uma habilidade numa carreira de sucesso?

HR.: Eu diria para aquela Helena confiar mais no processo.

Talvez naquela época ela não imaginasse até onde aquela pequena varanda poderia levá-la, mas cada passo, cada dificuldade e cada tentativa fizeram parte da construção.

Para todas as mulheres que têm um sonho, eu diria: não menosprezem aquilo que sabem fazer. Uma habilidade pode transformar-se numa carreira quando existe dedicação, aprendizagem e coragem para começar.

Compartilhe este artigo
Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *