“Quando entro no octógono, não estou a lutar apenas por mim” – Mário Stefan e o sonho de competir no UFC

Michela Silva
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Em entrevista à Chocolate Lifestyle, Mário Stefan fala sobre o percurso no MMA, o orgulho de representar Angola, os sacrifícios da carreira, o lado mais pessoal por detrás das luvas e a ambição de chegar ao UFC. Entre os sonhos de conquistar grandes palcos internacionais e o compromisso de inspirar novas gerações, o atleta quer provar que o seu legado pode ir muito além das vitórias.

A história de Mário Stefan é feita de disciplina, superação e ambição. Desde cedo ligado ao Jiu-Jitsu tradicional do clã Bison, o atleta angolano encontrou nas artes marciais a base para construir um percurso que hoje o leva a sonhar com os maiores palcos do MMA mundial.

No entanto, o caminho nem sempre foi fácil. No final de 2022, depois de participar num campeonato e sofrer lesões, Mário chegou a ponderar afastar-se das competições. Foi nessa fase que surgiu uma pessoa determinante para a sua trajectória: Armando Diogo, conhecido como Mestre Scotty, que o motivou, assumiu os custos do seu tratamento, ofereceu-lhe o primeiro equipamento de MMA e o convidou a integrar a selecção angolana da modalidade.

Um mês depois, Mário estava na Sérvia a disputar o Campeonato do Mundo. O que poderia ter sido um ponto final transformou-se no início de uma nova etapa.

Após conquistar o Campeonato Africano, decidiu elevar as suas ambições e mudou-se para Lisboa, onde passou a treinar com Artur Lemos, treinador que considera ser a pessoa certa para o ajudar a alcançar o topo do MMA profissional.

Vestir as cores de Angola é, para Mário Stefan, muito mais do que entrar no octógono para competir. É transportar a sua identidade, as suas raízes e o orgulho de um país que deseja ver reconhecido internacionalmente pela qualidade dos seus atletas.

“Quando entro no octógono, não estou a lutar apenas por mim”, afirma, sublinhando a responsabilidade de mostrar que Angola tem talento e capacidade para competir ao mais alto nível.

O lutador acredita também que o seu percurso pode servir de inspiração para os jovens angolanos que sonham construir uma carreira no desporto. Para ele, a mensagem é clara: com trabalho, disciplina e confiança nas próprias capacidades, é possível transformar sonhos em objetivos concretos.

A sua ligação à pátria traduz-se numa convicção que faz questão de expressar com determinação: “A pátria aos seus não implora, ORDENA!!”

Por detrás das vitórias, dos treinos e da imagem de força que caracteriza os lutadores, existe uma realidade marcada por renúncias e dificuldades.

Mário reconhece que o MMA exige muito mais do que preparação física. A carreira implica abdicar de momentos com a família e os amigos, enfrentar despesas, gerir períodos de incerteza e tomar decisões difíceis para continuar a investir no próprio futuro.

Também já sentiu cansaço e dúvidas. Ainda assim, aprendeu a encarar os obstáculos como parte do processo e não como razões para desistir.

“Os grandes resultados exigem paciência, sacrifício e uma vontade enorme de não parar pelo caminho”, partilha.

Esta capacidade de persistência é uma das características que considera essenciais para continuar a evoluir e aproximar-se dos objetivos que traçou para a carreira.

Embora o MMA exija intensidade, agressividade competitiva e resistência mental, Mário Stefan faz questão de mostrar que a sua personalidade não se resume à imagem do lutador dentro do octógono.

Fora da competição, valoriza a tranquilidade, a família, as amizades verdadeiras e os momentos em que pode simplesmente ser ele próprio. Procura manter os pés assentes na terra, independentemente dos resultados, e continua empenhado em crescer tanto como atleta como enquanto pessoa.

Há ainda uma faceta menos conhecida do público: o seu lado de escritor. Uma dimensão que revela interesses e objectivos para além do desporto e que reforça a ideia de que a sua identidade vai muito além das luvas.

Na vida sentimental, apresenta-se como um homem comprometido e defende que uma relação saudável deve assentar na confiança, na comunicação, no respeito e na compreensão mútua. Reconhece que os treinos, as viagens e os combates podem dificultar a gestão do tempo a dois, mas acredita que o equilíbrio depende do esforço de ambas as partes.

Para Mário, a força não significa ausência de sentimentos. Pelo contrário, considera que a sensibilidade se manifesta na atenção aos pequenos detalhes e na forma como se cuida de quem está ao nosso lado.

A experiência no desporto ensinou-lhe que a resistência física é apenas uma parte da batalha. A pressão, a frustração e a incerteza também exigem preparação e maturidade.

Sem expor detalhes íntimos da sua vida, Mário admite que enfrentou momentos difíceis e aprendeu a importância de reconhecer quem permanece ao seu lado nos períodos mais complicados.

O apoio das pessoas que acreditam nele tem um valor especial. São essas relações, aliadas à consciência dos seus objectivos, que o ajudam a encontrar motivação para continuar.

A sua visão da superação vai, assim, além da capacidade de enfrentar adversários: trata-se também de saber levantar-se quando a vida apresenta obstáculos.

O desejo de deixar uma marca não se limita aos resultados desportivos. Mário Stefan destaca também o seu envolvimento em iniciativas que reflectem a vontade de contribuir para a comunidade.

Entre elas estão o Caixa Aberta, um projecto social, e a The Box, academia criada pelo próprio atleta. Estas iniciativas representam uma dimensão importante do seu percurso, associada à criação de oportunidades e à valorização do desporto.

Embora o seu objectivo seja alcançar o topo do MMA, Mário demonstra que também olha para o futuro dos jovens que procuram no desporto uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e de construção de um caminho diferente.

A ambição de crescer individualmente surge, assim, acompanhada pela vontade de contribuir para o desenvolvimento da modalidade em Angola.

Quando olha para os próximos cinco a dez anos, Mário Stefan imagina-se a competir em grandes palcos internacionais, a conquistar títulos e a enfrentar alguns dos melhores atletas do mundo.

Chegar ao UFC está entre os seus grandes objectivos. Mais do que isso, quer tornar-se um dos nomes africanos de referência no MMA, demonstrando que a dedicação e o trabalho podem abrir portas a atletas que partem de realidades nem sempre favoráveis.

Mas o seu conceito de sucesso não se esgota nos combates ganhos ou nos títulos conquistados. Mário quer contribuir para o crescimento do MMA angolano, inspirar jovens talentos e ajudar a criar oportunidades para que mais atletas possam representar o país além-fronteiras.

É nessa visão que encontra o verdadeiro significado de legado: não apenas alcançar os próprios sonhos, mas ajudar outros a perceber que também podem alcançar os seus.

A trajectória de Mário Stefan é a de um atleta que transformou uma fase de incerteza numa nova oportunidade e que continua a trabalhar para chegar mais longe.

Entre a preparação desportiva, a vida pessoal, a escrita e os projectos que desenvolve fora do octógono, procura construir uma identidade que não dependa exclusivamente dos resultados da competição.

O UFC é uma meta. Ser uma referência africana é uma ambição. Contribuir para o futuro do MMA em Angola é parte da missão que escolheu para si.

E, enquanto trabalha para transformar esses objectivos em realidade, Mário Stefan mantém uma convicção que resume a sua ligação ao país e a responsabilidade que assume sempre que compete: representar Angola é uma honra que leva consigo em cada combate.

Porque, para este lutador, a verdadeira vitória poderá estar não só naquilo que conquistar, mas também nas portas que conseguir abrir para os que vierem depois dele.

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