O FIC Luanda conquista mais de 6 mil espectadores e traça o futuro do cinema angolano

Gracieth Issenguele
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O regresso do Festival Internacional de Cinema de Luanda (FIC Luanda) marcou em definitivo o panorama cultural da capital angolana. Encerrada a sua 8.ª edição, realizada de 28 de outubro a 2 de novembro de 2026, a iniciativa congregou mais de seis mil espectadores em torno de uma vasta programação com mais de 100 filmes oriundos de 20 países. O evento, promovido após um interregno de onze anos, voltou a posicionar Luanda como ponto de convergência de profissionais nacionais e internacionais, colocando no centro do debate os desafios da produção, distribuição e circulação cinematográfica em Angola.

Ao longo de seis dias intensos, as actividades repartiram-se entre a Cinemateca Nacional, o Cine Teatro Nacional e diversos recantos da cidade. A programação aliou competições oficiais a oficinas, masterclasses e mostras formativas, projectando o cinema para lá do ecrã tradicional. A popularização da arte fez-se sentir com iniciativas ao ar livre como o Cine Zunga, no emblemático Largo do Kinaxixi — que reuniu 327 espectadores —, e a secção juvenil Kia’Ndengue, acolhida no Centro de Ciência de Luanda (CCL) com mais de duas centenas de crianças e jovens de instituições públicas e privadas.

Nos painéis e mesas-redondas profissionais, cineastas e produtores de renome abordaram sem rodeios as soluções necessárias para profissionalizar a indústria cinematográfica angolana. O realizador Zézé Gamboa sublinhou a urgência de capacitação na escrita de argumentos e nos processos de pós-produção para corresponder às exigências dos mercados externos. Por seu turno, Nguxi dos Santos apontou a melhoria das condições acústicas e técnicas de projecção nas salas como prioridade imediata, enquanto o produtor Mawete Paciência alertou para a carência de fundos regulares capazes de sustentar circuitos comerciais de exibição activos.

O intercâmbio além-fronteiras constituiu outro marco relevante da edição, contando com a Nigéria como país convidado de honra e uma mostra dedicada ao cinema brasileiro contemporâneo. Exemplificando essa ponte criativa, o realizador angolano Paulo Idalécio, distinguido com o galardão de Melhor Curta-Metragem Nacional, partilhou diálogos construtivos e parcerias em gestação com criadores da Nigéria e do Brasil. No domínio da capacitação, o laboratório LuaLAB, sob mentoria de Fernanda Polacow, impulsionou seis novos projectos, enquanto a oficina «Corpo e Poema», orientada por Licínio Januário, registou mais de 40 inscrições, complementada pelo estágio curricular de dezenas de estudantes do CEARTE, IMETRO e FAARTES.

Produzido pela Geração 80 sob iniciativa da Agência Nacional das Indústrias Culturais e Criativas (ANICC), o FIC Luanda delineou também caminhos institucionais. Asdrúbal Rebelo, director-geral da ANICC, confirmou que o organismo está a desenhar políticas públicas estruturadas para o audiovisual, entre as quais se salienta a proposta de canalizar uma percentagem das receitas de bilheteira de filmes estrangeiros para subsidiar a produção nacional, medida que aguarda homologação em Conselho de Ministros.

Para Jorge Cohen, director-geral da Geração 80, este regresso demonstrou a vitalidade da procura cultural na capital e a urgência de consolidar Luanda como rota permanente da cinematografia africana e global. A celebração do pensamento crítico e das narrativas autorais partilha sintonia com as inquietudes intelectuais do país, tal como quando António Cláver desafia certezas e convida à liberdade de pensar em “O Incómodo de Pensar”, demonstrando que o fortalecimento da cultura angolana assenta na reflexão livre, na formação de novas gerações e na valorização da nossa própria identidade.

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