“Vestir em segunda mão não é falta de opção, é uma escolha inteligente” — Cássia Sephora e a (re)novação da moda

Gracieth Issenguele
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Há conversas que inspiram e há outras que despertam um verdadeiro sentido de propósito — esta é uma dessas. Falámos com Cássia Sephora, uma mulher angolana cuja criatividade parece não conhecer fronteiras. Comunicadora, diretora criativa, amante da moda, da escrita e da fotografia, é também a mente por detrás da NadaNovo (NN) — uma marca que nasceu de memórias partilhadas com a mãe e que hoje é um movimento de consciência, identidade e sustentabilidade.

Com um olhar poético e realista sobre o mundo, Cássia fala sobre a sua jornada, o impacto da criatividade e o poder de recomeçar com o que já existe.

RC: Cássia, o teu percurso cruza várias linguagens criativas — da moda à comunicação, da fotografia à escrita. Como consegues equilibrar tantas áreas sem perder a tua essência enquanto criadora?

CS: Desde criança, a criatividade sempre foi algo muito natural em mim. Lembro-me de passar horas a escrever, a imaginar histórias e a reinventar o que via à minha volta — fosse através da roupa, de pequenos detalhes visuais ou de palavras.

A moda e a escrita foram as minhas primeiras formas de expressão, e mais tarde a comunicação tornou-se o espaço onde consegui transformar ideias em experiências reais.

A fotografia surgiu como um prolongamento desse processo. Eu sou muito visual, muito ligada à estética, e a imagem sempre foi uma forma de traduzir aquilo que penso e sinto. Não sou fotógrafa, sou directora criativa — o meu papel é materializar ideias, conceptualizar e guiar narrativas visuais.

O equilíbrio vem do entendimento de que tudo está interligado. A moda comunica, a fotografia conta histórias, a escrita dá-lhes profundidade. Tudo o que envolve criatividade fala a mesma língua — e o meu papel é encontrar a harmonia entre elas sem perder a minha essência.

RC: A tua marca NadaNovo nasceu de uma vivência pessoal com a tua mãe e hoje é símbolo de sustentabilidade e consumo consciente. O que mais te inspira nesse processo de dar “nova vida” a peças esquecidas?

CS: A NadaNovo nasceu das minhas idas às praças de Luanda com a minha mãe — sempre muito voltadas para o vintage e o retro. Sem perceber, eu já vivia uma relação com o vestir baseada na identidade, não na tendência.

Com o tempo, percebi que essa ligação tinha tudo a ver com o consumo consciente. Ser minimalista, para mim, é reavaliar o que realmente precisamos, é fazer escolhas responsáveis.

O que mais me inspira é poder transformar essa filosofia em algo tangível — uma marca que não só reduz o impacto ambiental, mas que também ajuda a reeducar mentalidades.

As roupas têm histórias, e há algo de mágico nisso. Eu ainda uso peças antigas da minha mãe. São memórias vivas. Vestir algo que já teve sentido para alguém é surreal — e não tem preço.

RC: Num país onde o novo ainda é muitas vezes associado ao status e à modernidade, como tem sido o desafio de desmistificar o preconceito em torno da moda em segunda mão?

CS: Tem sido um desafio, mas também muito gratificante. Durante muito tempo, em Angola, “novo” era sinónimo de poder e sucesso. Comprar algo antigo era visto como carência. Com a NadaNovo, quero mudar essa narrativa. Vestir em segunda mão não é falta de opção, é uma escolha inteligente.

No início havia resistência, mas quando as pessoas começaram a compreender o propósito, tudo mudou. Hoje, “o luxo está na consciência, não na etiqueta.” A verdadeira modernidade é consumir de forma responsável e com personalidade.

RC: Foste uma das vencedoras do prémio “100 Anos, 100 Empreendedores” da TotalEnergies. Que significado teve esse reconhecimento para ti e para o percurso da NadaNovo?

CS: Foi um momento muito especial. Validou um caminho construído com intenção, muitas vezes em silêncio.

A NadaNovo nasceu de uma inquietação sobre a forma como consumimos e valorizamos o que vestimos, e ver esse trabalho reconhecido como inovação e impacto social foi a confirmação de que é possível inspirar mudança.

Esse prémio trouxe-me ferramentas, mentoria e uma visão mais clara do potencial da marca. Reforçou o meu compromisso em continuar a ser uma voz activa no ecossistema criativo angolano. A sustentabilidade não é uma tendência — é um caminho.

RC: O digital é hoje o grande palco das marcas. Como vês o mundo digital, considerando que grande parte do teu trabalho se desenvolve nesse espaço?

CS: O digital é um espelho e um palco. É onde as narrativas se constroem e transformam — mas também onde é fácil perder a autenticidade.

Uso as redes como ferramenta de expressão, não de validação. Acredito que a influência verdadeira nasce da genuinidade, não do alcance.

O digital deve amplificar mensagens com propósito. O meu objectivo é continuar a usar esse espaço para inspirar mudança e conectar pessoas com causas reais.

RC: Com a tua experiência em agências como a Blend, Authentic e Creation, quais são, na tua visão, as maiores transformações no comportamento das marcas e consumidores nos últimos anos?

CS: Houve uma viragem profunda. As pessoas deixaram de procurar apenas produtos — procuram intenção.

O consumidor actual quer coerência, quer marcas com valores e humanidade.

Do lado das marcas, há uma transição da performance para a relação. Já não basta vender bem — é preciso fazer sentido.

O marketing de influência também amadureceu. Já não é sobre quem tem mais seguidores, mas sobre quem tem mais verdade e impacto real.

RC: Enquanto mulher angolana a destacar-se no ecossistema criativo, que papel acreditas que a representatividade feminina tem na construção de um futuro mais inclusivo e sustentável?

CS: A representatividade feminina é essencial. Em Angola, esse papel ganha ainda mais força.Estamos a reconstruir uma cultura onde as mulheres finalmente ganham espaço como criadoras, líderes e empreendedoras.

Ser mulher neste meio é um compromisso com o legado — é abrir caminho para que outras também se sintam autorizadas a sonhar e a criar.

RC: O nome da tua marca é provocador. O que representa para ti a ideia de “recomeçar com o que já existe”?

CS: NadaNovo é uma metáfora da vida. Recomeçar não é apagar o passado, é ressignificá-lo.

É olhar para o que já existe com mais cuidado. É transformar o esquecido em essencial.

RC: O que o público ainda não sabe sobre Cássia Sephora, a mulher por detrás da marca e da lente?

CS: Talvez não saibam que sou muito introspectiva. Gosto do silêncio, é nele que encontro fé e inspiração.

Sou emocional e cada projecto tem um bocadinho de mim. Acredito que a criatividade é uma forma de fé — acreditar no invisível e dar-lhe forma.

RC: E o futuro, Cássia? Quais são os próximos passos da NadaNovo e da tua jornada?

CS: O futuro passa por crescer com consciência. Quero que a NadaNovo continue a ser uma ponte entre estética e educação.

A curto prazo, quero consolidar o espaço físico e fortalecer parcerias locais. A médio prazo, quero que a marca se torne um espaço global de diálogo sobre moda consciente feita a partir de África.

Pessoalmente, quero continuar a crescer enquanto criadora e mulher de fé — com um propósito maior: inspirar outras pessoas a recomeçar com o que já têm.

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