Consultor de negócios da música e especialista em direitos de autor e conexos, Lucioval Gama tem sido uma das vozes mais activas na defesa da profissionalização do sector musical angolano. Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, o consultor partilhou o seu percurso, a visão sobre o futuro da indústria e a sua missão de contribuir para uma estrutura sólida, moderna e internacionalmente reconhecida — sem deixar de lado o seu lado mais humano, o de pai e gestor de sonhos.

RC: O seu nome está hoje associado à consultoria estratégica na música e à defesa dos direitos de autor e conexos. Como começou essa paixão pelo lado mais técnico e jurídico da indústria musical?
LG: A paixão começou na altura como realizador de conteúdos audiovisuais, e pela ausência de entidades que defendiam os criadores musicais — intérpretes, compositores, produtores de fonogramas e videogramas. Em 2019 tomei a decisão de contribuir para o nascimento da indústria musical em Angola de acordo com os padrões internacionais. Contratei consultores internacionais e nacionais, fiz formações na área de negócio da música e de direitos de autor e conexos, e hoje vejo resultados: pela primeira vez começámos a atribuir códigos ISRC angolanos, IPI, galardões de ouro, platina e diamante, além da entrada de grandes editoras internacionais no nosso mercado. Estamos a caminhar para boas práticas internacionais no que concerne ao negócio da música e direitos de autor e conexos.
RC: O mercado da música vive uma revolução constante com o avanço das plataformas digitais. De que forma esta transformação tem impactado o valor dos direitos autorais e a rentabilidade dos artistas?
LG: É verdade que o mundo caminha para a digitalização a velocidades ultrassónicas. Para a indústria musical, esse impacto tem sido positivo: artistas, produtores e compositores começaram a receber mais pelas suas obras e fonogramas desde 2021. Segundo relatórios internacionais da IFPI, a receita global da indústria passou de 19 mil milhões em 2019 para 29 mil milhões em 2024, com projeções de atingir 34 mil milhões em 2025. As transações de compra de catálogos aumentaram, impulsionadas pela inteligência artificial e pela expansão do audiovisual. Há mais dinheiro na indústria, e Angola precisa fazer parte desses dados.

RC: Como consultor, que desafios encontra quando trabalha com artistas que ainda não percebem a importância de proteger as suas obras e gerir a carreira como um verdadeiro negócio?
LG: O maior desafio são as influências externas que não querem que o nosso mercado funcione de acordo com padrões internacionais. Muita gente ganha com a desorganização e aconselha artistas e compositores a tomarem decisões erradas. Há grupos, inclusive estrangeiros, que se alimentam da ignorância dos titulares de direitos. A nossa missão é combater isso com palestras e eventos, como o Angola Music Business, e com a criação da Academia do Negócio da Música. Estamos focados em educar e transformar o setor.
RC: Na sua perspetiva, a música angolana tem sabido adaptar-se às novas exigências do mercado global? Quais são os maiores obstáculos que ainda persistem?
LG: Infelizmente, o mercado angolano ainda não se adaptou à era digital, o que representa um risco para a soberania cultural e económica do país. Os principais obstáculos são a resistência de muitos servidores públicos e entidades privadas à modernização, o fraco funcionamento das instituições de defesa dos direitos e a não adesão de Angola aos tratados internacionais, como o de Berna e o de Roma. Por exemplo, por Angola não aderir a esses tratados, artistas como C4 Pedro e Anselmo Ralph são registados como portugueses nos sistemas internacionais.
RC: O tema dos direitos conexos continua a gerar dúvidas. Como explicaria, de forma simples, a importância desses direitos?
LG: Os direitos conexos estão ligados à obra musical e pertencem aos intérpretes, produtores de fonogramas e músicos executantes. Infelizmente, é um tema pouco abordado e muitos titulares não recebem o que lhes é devido. Surge agora a AIFA — Associação da Indústria de Fonogramas de Angola — para gerir e defender esses direitos. É um passo fundamental para incentivar o investimento na indústria criativa e corrigir uma lacuna histórica que tem feito muitos profissionais perderem dinheiro e buscarem soluções noutros países.
RC: Acredita que as redes sociais podem ser uma ferramenta eficaz para a educação musical e a consciencialização sobre direitos de autor?
LG: Sim. Hoje as redes sociais são veículos rápidos e poderosos de informação. Aconselho todas as associações a criarem contas, sites e podcasts dedicados a temas técnicos sobre direitos de autor e conexos. Assim, é possível alcançar um público mais vasto em todo o país e até fora de Angola.
RC: Com o crescimento do streaming e da inteligência artificial, que futuro prevê para a gestão dos direitos de autor nos próximos anos? Estamos preparados para essa nova realidade?
LG: O streaming e a IA estão a desafiar o mundo em termos de regulação. As entidades de gestão colectiva vão precisar trabalhar cinco vezes mais e modernizar-se. Com o surgimento do streaming 2.0, implementado por grandes editoras para eliminar intermediários, o futuro exigirá estruturas mais ágeis. Em Angola, temo que as entidades atuais corram o risco de desaparecer se não se adaptarem rapidamente.
RC: Além da sua atuação técnica, é também pai. De que forma a paternidade influencia a sua visão sobre o tempo, o legado e o impacto do seu trabalho?
LG: Como pai, desejo deixar o legado de ter contribuído para o funcionamento da indústria musical angolana — uma indústria capaz de gerar riqueza e emprego para muitas famílias.
RC: A sua rotina parece bastante intensa. Que estratégias usa para manter o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal?
LG: É verdade, a rotina é exigente. Procuro gerir o tempo, o stress e cultivar pensamentos positivos. Agradeço também à minha esposa pela paciência e apoio constantes.
RC: Olhando para o futuro, qual seria o seu maior sonho dentro do universo musical angolano?
LG: O pleno funcionamento dos direitos de autor e conexos, com todos os titulares devidamente compensados pela utilização das suas obras. Gostaria que os nossos artistas deixassem de procurar soluções no exterior, que Angola aderisse aos tratados internacionais e que houvesse finalmente monetização do YouTube em Angola. Isso seria um marco de soberania e reconhecimento para o país.




