A moda angolana volta a subir ao palco internacional com força e personalidade por meio de Angélica da Graça Nvula, estilista natural de Cabinda, formada em Gestão de Recursos Humanos e CEO da marca Angelica’s Griff. Recentemente distinguida na Nigéria como African Fashion Designer of the Year (Female), reafirma a nova era da moda africana: autoral, consciente, cultural — e orgulhosamente angolana. “A moda angolana é inovação que respira cultura, quebrando padrões sem perder as nossas raízes”, afirma em entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle criadora que hoje inspira um continente inteiro.
A vitória em Lagos marca um ponto alto num percurso feito de ousadia, autenticidade e propósito. Para Angélica, receber o prémio foi mais do que reconhecimento: foi a validação de uma visão. “Conquistar este título representa excelência, inovação e impacto no panorama da moda africana. Reforça o meu compromisso em valorizar a identidade cultural através do design contemporâneo”, explica. A sua coleção “Angola Independent”, que lhe valeu o prémio, despertou emoções além-fronteiras pela capacidade de transformar história em estética. A estilista percebeu o poder universal da coleção quando viu públicos fora de Angola conectarem-se com a profundidade simbólica das peças, que celebram liberdade, memória e identidade.

Apresentar essa visão em Lagos foi uma experiência marcante. “Ao levar a identidade angolana para um dos centros mais vibrantes da moda africana, percebi que partilhava mais do que uma colecção — apresentava uma parte essencial de quem somos.” Para Angélica, a autenticidade cultural, quando trabalhada com verdade, ganha ressonância mundial. E essa conquista não é só sua: “Quando um de nós alcança destaque internacional, isso ilumina todo o setor criativo angolano.”
A criadora mergulhou profundamente nos 50 anos da independência de Angola para construir uma estética moderna, equilibrando passado e futuro. Interpretou símbolos, narrativas e memórias, transformando-os em formas e texturas que dialogam com a moda contemporânea. O processo trouxe desafios significativos, sobretudo ao traduzir vestes tradicionais de diferentes regiões e ao encontrar o equilíbrio perfeito entre tradição e modernidade. “O ponto de partida nunca é a estética, mas o significado”, afirma.
A força da sua marca, criada em Cabinda em 2017, está no ADN: modernidade, elegância, sofisticação e um toque artesanal que se tornou assinatura. Angelica’s Griff cresceu, vestiu o Comité Paralímpico de Angola em Tóquio e conquistou reconhecimento internacional com a coleção vencedora. O segredo? “Autenticidade, sofisticação, cultura, contemporaneidade e identidade autoral. É isso que nos permite competir no mercado global sem perder a essência angolana.”

A sua formação em Gestão de Recursos Humanos desempenha um papel fundamental na forma como lidera equipas, gere pressão e mantém uma comunicação eficaz dentro do seu universo criativo. Lidar com prazos curtos, clientes exigentes e desafios de produção tornou-se possível graças a competências que hoje considera indispensáveis.
Ser natural de Cabinda é uma marca profunda no seu processo criativo. A estilista descreve a província como uma matriz cultural rica e emocional, onde mulheres vaidosas e tradições fortes moldam o seu olhar artístico. “A minha terra natal influencia muito o meu trabalho — não só esteticamente, mas de forma emocional e espiritual.”
A paixão pela moda nasceu cedo, quando ainda adolescente escolhia as roupas do pai. Mais tarde, entre empregos e o desejo de empreender, percebeu que a moda era o seu caminho. Uma conversa inspiradora, uma máquina de costura antiga oferecida pelo tio e um início humilde numa lavandaria dos pais deram vida ao sonho que agora ecoa pelo mundo.
Nas suas influências, surgem nomes como Nadir Tati, a mãe e a escritora Chimamanda Ngozi Adichie. E quando o assunto é representar Angola, Angélica é firme: “Representar o meu país é uma honra e um equilíbrio delicado. A autenticidade é a única forma de honrar a minha identidade. Sou apenas um fragmento da constelação angolana.”
Sobre a pressão do sucesso, a resposta é tão inteligente quanto humana. “Quando o reconhecimento chega, traz alegria e responsabilidade. Mas o prémio não muda quem eu sou — apenas ilumina aquilo que eu já vinha construindo. Transformo a pressão em combustível, não em peso.”
Com a ambição de expandir a Angelica’s Griff para o mercado internacional, a estilista segue firme no propósito de inspirar novas gerações e elevar a moda angolana. Porque, para ela e para muitos que a seguem, a moda em Angola não é apenas roupa — é narrativa, memória e expressão.






