“A mulher contemporânea não precisa escolher entre ser poderosa e ser delicada” — a visão, a identidade e o propósito de D’jaene Lourenço 

Gracieth Issenguele
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Estilista, stylist e fundadora do atelier DL, D’jaene Lourenço  é a protagonista de uma entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle que revela muito mais do que o percurso de uma criadora de moda: expõe a construção de uma identidade, a transformação de uma paixão espontânea num projecto sólido e a afirmação de uma mulher que encontrou na moda uma forma de interpretar, valorizar e contar histórias femininas. Aos 31 anos, D’jaene fala com maturidade sobre criatividade, negócio, sensibilidade estética e propósito, num testemunho inspirador que confirma o atelier DL como uma marca que nasce da autenticidade e se afirma pela elegância consciente.

RC: Como descreve o momento exato em que percebeu que aquela “brincadeira” de mandar fazer vestidos para cada evento poderia transformar-se num verdadeiro negócio de moda?

DL: Aquela suposta brincadeira já não se comportava como passatempo. Tinha ritmo, tinha procura, tinha identidade. E, de repente, eu entendi: o que eu fazia por prazer estava a resolver um desejo real de outras pessoas. Foi ali, no meio de tecidos espalhados, linhas coloridas e ideias a nascer, que senti a virada — a sensação nítida de que aquilo podia ser muito mais. Foi o momento exacto em que percebi: o meu talento não era apenas um dom; era um negócio a pedir para crescer.

RC: O que mais a surpreendeu durante esta transição de apaixonada por vestidos personalizados para Stylist e fundadora do atelier DL?

DL: O que mais me surpreendeu nessa transição foi perceber que, por trás de cada vestido, existia muito mais do que técnica ou gosto pessoal: havia mulheres a confiar em mim para contar a história delas através da roupa. Quando passei de apaixonada por peças personalizadas para Stylist e fundadora do meu próprio atelier, entendi que o meu trabalho não era apenas vestir… era interpretar, valorizar e transformar.

RC: Os elogios constantes às peças que idealizava foram determinantes para avançar. Mas houve algum episódio específico que tenha funcionado como ponto de viragem?

DL: Os elogios sempre me motivaram, é verdade. Mas houve um episódio que se tornou o verdadeiro ponto de viragem. Foi num evento em que eu não era a protagonista — eu era apenas mais uma convidada. No entanto, o vestido que eu tinha idealizado começou a “roubar a cena”. Em poucos minutos, mulheres que eu nunca tinha visto aproximaram-se para perguntar quem tinha feito aquele modelo, se eu aceitava encomendas e quanto tempo demorava para criar algo semelhante.

A certa altura, uma senhora disse algo que eu nunca esqueci:

“Você não tem noção do talento que tem. Isto não é hobby — é profissão.”

Naquele momento, percebi que não era apenas a opinião de amigas próximas ou familiares. Pessoas totalmente desconhecidas conseguiam reconhecer valor no meu trabalho, sem contexto, sem ligação, apenas pelo impacto da peça.

RC: Quando começou a receber pedidos de amigas para ajudar na criação de vestidos para cerimónias, imaginou que dava os primeiros passos de uma carreira sólida na moda?

DL: Quando comecei a receber pedidos de amigas para ajudar na criação de vestidos para cerimónias, eu não imaginava, nem de perto, que estava a dar os primeiros passos de uma carreira sólida na moda. Para mim, naquela altura, era apenas um gesto carinhoso: usar o que eu sabia para ajudar alguém a sentir-se mais bonita, mais confiante, mais “ela”.

Eu via aquilo como extensão natural da minha paixão — não como uma profissão a nascer.

RC: No processo criativo, como equilibra as inspirações que surgem das páginas que acompanha com a sua identidade própria enquanto criadora? 

DL: No meu processo criativo, o equilíbrio nasce de uma regra simples: as inspirações são referências, a identidade é direção.

As páginas que acompanho — sejam estilistas, fotógrafos, editoriais ou criadoras independentes — alimentam a minha visão, ampliam o meu repertório e ajudam-me a perceber tendências ou novas formas de olhar para a moda. Mas nunca deixo que isso se sobreponha à minha essência. Uso essas inspirações como pontos de partida, nunca como destino.

RC: A colecção “Lais” destaca-se pela estrutura e detalhes. Que mensagem pretende transmitir com esta linha mais recente?

DL: A mensagem que pretendo transmitir é esta: a mulher contemporânea não precisa escolher entre ser poderosa e ser delicada — ela é as duas coisas ao mesmo tempo.

RC: Como define a mulher que veste o atelier DL? Que características considera fundamentais para representar a essência da marca?

DL: A mulher que veste o atelier DL é alguém que compreende que a elegância vai muito além da roupa. Ela valoriza presença, autenticidade e detalhe. Não precisa de gritar para ser notada — a força dela está na forma como ocupa o espaço, na postura, na confiança tranquila e no olhar que sabe exatamente o que quer.

Ela é moderna, mas aprecia o clássico.

É delicada, mas firme nas escolhas.

É ousada, mas nunca perde a sofisticação.

As características que considero fundamentais para representar a essência da marca são:

• Autenticidade

• Sofisticação discreta

• Confiança

• Sensibilidade estética

• Individualidade

No fundo, a mulher do atelier DL é aquela que entende que vestir-se bem não é apenas adornar o corpo, mas afirmar a sua essência. Cada criação existe para amplificar essa identidade — nunca para a esconder.

RC: Qual é o maior desafio de ser Stylist e, simultaneamente, gerir uma marca num mercado angolano cada vez mais competitivo?

DL: O desafio maior é que o mercado angolano está a evoluir rapidamente: há mais marcas, mais estilos, mais exigência e um consumidor cada vez mais informado. Isso significa que não basta criar peças bonitas — é preciso criar experiências, consistência, profissionalismo e identidade.

A minha maior tarefa é unir estes dois mundos sem perder a essência:

criar com autenticidade, enquanto construo uma marca sólida e preparada para competir num cenário que se torna mais profissional a cada dia.

RC: O que acha que diferencia o atelier DL de outras marcas emergentes do país? Há algum elemento que considere exclusivo do seu trabalho?

DL: O que diferencia o atelier DL de outras marcas emergentes em Angola é a atenção ao detalhe e a forma como cada peça é pensada para refletir a identidade da mulher que a veste. Não se trata apenas de seguir tendências, mas de criar experiências personalizadas, onde cada vestido conta uma história e é feito para realçar a essência de quem o usa.

Um elemento que considero exclusivo do meu trabalho é a capacidade de unir estrutura e delicadeza. Cada peça é cuidadosamente construída, com linhas que valorizam o corpo e acabamentos que transmitem sofisticação, mas sem perder a fluidez e o conforto. É esta harmonia entre força e sensibilidade que se tornou a assinatura do atelier DL — uma marca que não veste apenas corpos, mas também personalidades e histórias.

RC: Falando de evolução: como imagina a marca nos próximos cinco anos? Pretende expandir, lançar novas linhas ou explorar outras áreas dentro da moda?

DL: Nos próximos cinco anos, imagino o atelier DL a consolidar ainda mais a sua identidade, tornando-se uma referência de elegância, personalização e qualidade no mercado angolano e, quem sabe, além-fronteiras. A evolução que visualizo passa por três frentes principais:

Expansão e acessibilidade

Novas linhas e colecções

Experiências de moda diferenciadas

No fundo, a visão é crescer com propósito, mantendo autenticidade e qualidade, e fazendo com que cada mulher que vista atelier DL se sinta única, confiante e valorizada.

RC: Ao olhar para o seu percurso, que conselho deixaria a jovens estilistas que começam hoje com a mesma “brincadeira” transformada em paixão?

DL: O meu conselho para jovens estilistas que começam hoje com aquela “brincadeira” transformada em paixão é simples, mas essencial: acreditem no vosso talento, mas trabalhem com disciplina.

A paixão é o motor que dá energia e criatividade, mas sem organização, consistência e atenção ao detalhe, é difícil transformar sonhos em carreira sólida. Observem, aprendam, experimentem, mas nunca percam a vossa assinatura própria — aquilo que faz o vosso trabalho único.

RC: As redes sociais têm impactado muito a moda actual. De que forma usa o digital para comunicar a estética e a narrativa do atelier DL?

DL: As redes sociais tornaram-se uma extensão natural do atelier DL, não apenas como vitrine, mas como espaço onde construo a estética e a narrativa da marca. Uso o digital de forma estratégica para comunicar mais do que vestidos: comunico sensações, valores e a personalidade da mulher que veste o atelier.

Estética visual coerente

Narrativa emocional e autêntica

Proximidade com o público

Conteúdos que educam e inspiram

RC: A moda é também emocional. De todas as peças que já criou, existe uma que guarda como símbolo da sua afirmação enquanto Stylist?

DL: Sim, existe uma peça que guardo como verdadeiro símbolo da minha afirmação enquanto Stylist. Não foi a mais elaborada, nem a mais fotografada, mas foi aquela em que, ao terminar, senti pela primeira vez que estava a criar algo que ia além da costura.

RC: Que papel tem a formação contínua no seu trabalho? Tem procurado

especializações para aprimorar ainda mais as suas técnicas de moldagem e design?

DL: Tenho procurado, sim, especializações que me permitam aprimorar ainda mais as minhas técnicas de moldagem, construção e design. Cada curso, workshop ou certificação que faço não é apenas para acrescentar conhecimento técnico, mas para refinar o meu olhar, melhorar a precisão do meu trabalho e elevar a qualidade das peças que entrego.

Para mim, evoluir como profissional significa unir a sensibilidade criativa a uma base técnica sólida. É essa combinação — arte e técnica — que faz a diferença no resultado e que garante que cada peça do Atelier DL tenha personalidade, estrutura e excelência.

RC: Por fim, como se sente ao ver mulheres a brilhar em eventos usando peças que nasceram de uma inspiração sua?

DL: Ver mulheres a brilhar em eventos com peças que nasceram de uma inspiração minha é, sem dúvida, uma das maiores recompensas do meu trabalho. É um sentimento que mistura orgulho, gratidão e uma emoção difícil de descrever. Cada vez que vejo uma cliente entrar num espaço com confiança, presença e aquele brilho especial no olhar, percebo que o meu trabalho vai muito além do tecido e da linha.

É como se cada peça ganhasse vida própria ao vestir uma história, uma personalidade, um momento importante da vida de alguém. E saber que contribuí para que essa mulher se sentisse mais forte, mais bonita e mais ela… é simplesmente indescritível.

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