Advogada de formação, mãe, esposa e criadora de conteúdos digitais, a brasileira Manu Costa encontrou em Angola muito mais do que um novo país para viver: encontrou um espaço de transformação pessoal, profissional e humana. Através das redes sociais, partilha com autenticidade o seu quotidiano em Luanda, revelando choques culturais, aprendizados, alegrias e desafios, sempre com um olhar sensível, crítico e responsável.

Querida pelo público angolano e acompanhada de perto também por brasileiros curiosos com a realidade africana, Manu construiu uma comunidade que se identifica com a sua forma honesta de comunicar beleza, lazer e lifestyle. Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, reflecte sobre identidade, comunicação digital, responsabilidade social e o poder das histórias contadas com intenção.

RC: Sendo brasileira, advogada de formação e actualmente residente em Angola, como descreve a transformação da sua identidade pessoal e profissional ao longo desta mudança de país?
MC: A mudança de país tirou-me de um lugar de identidade pronta e colocou-me num processo constante de construção — pessoal e profissional. No plano pessoal, aprendi a escutar mais, a observar antes de reagir e a respeitar tempos, culturas e formas de viver diferentes das que eu trazia do Brasil. Isso tornou-me mais humana, mais consciente e menos rígida sobre quem eu “precisava de ser”. Profissionalmente, percebi que as minhas competências iam além do Direito, hoje vejo-me como uma excelente comunicadora, estrategista, e com alta capacidade de adaptação.
RC: O seu conteúdo destaca muito os choques culturais e os aprendizados do quotidiano angolano. Que experiências a marcaram mais profundamente desde que chegou ao país?
MC: O que mais me marcou foi o quotidiano, os pequenos choques culturais, repetidos todos os dias, são os que mais me ensinam. Esta semana aprendi que quando uma pessoa mais velha te chama, você não deve respondê-lo com um simples “sim”, ou “oi”, deve falar o nome ou título da pessoa logo após o “sim”, como “sim, papá”, “sim, tia fulana”. Eu fiquei chocada por pensar quantas pessoas devem ter se sentido desrespeitadas todas as vezes em que falei “oi”. Hoje, o meu conteúdo nasce justamente desse lugar: de alguém que continua aprendendo, errando, observando e sendo transformada pelo quotidiano angolano.
RC: Como a sua formação em Direito influência a forma crítica, responsável e ética com que comunica nas redes sociais?
MC: A minha formação em Direito influencia diretamente a forma como me posiciono e comunico nas redes sociais. O Direito me ensinou, antes de tudo, a responsabilidade da palavra, a entender que toda comunicação gera impacto, e pode afetar pessoas, decisões e comportamentos. Essa base jurídica me trouxe um olhar crítico: questionar informações, evitar simplificações perigosas e compreender os contextos antes de opinar. Eu me preocupo em não normalizar discursos irresponsáveis, nem romantizar situações que merecem reflexão séria.
RC: Enquanto mulher, esposa e mãe, como concilia a vida familiar com a exposição constante e a exigência de produzir conteúdo digital de forma regular?
MC: Não é fácil! Como mulher, esposa e mãe, eu precisei entender que nem tudo pode ou deve ser mostrado, e que proteger a minha família é tão importante quanto comunicar. Eu faço escolhas muito claras sobre o que compartilho. A minha casa, a minha relação e a maternidade aparecem nas redes de forma respeitosa, nunca como espetáculo. E sobre a produção de conteúdos, nem sempre vou conseguir produzir com a frequência ideal, e está tudo bem, porque eu sei que a cada eu tenho prioridades diferentes. Há fases em que a família precisa mais de mim, outros dias o trabalho toma toda a minha atenção, no fim, consigo equilibrar, mas tenho que confessar, não é fácil.
RC: O seu trabalho é marcado pela autenticidade e pela proximidade com o público. Onde estabelece o limite entre o que partilha e o que prefere preservar da sua vida pessoal?
MC: Autenticidade, para mim, não está em expor tudo, mas em ser verdadeira naquilo que escolho compartilhar. Eu compartilho o que pode gerar reflexão, identificação ou aprendizado. Existem vivências que cumprem o seu papel apenas dentro de casa, na relação com o meu marido, com o meu filho e comigo mesma. Mas eu também entendo que a proximidade que criei com o público exigiu um certo acesso à minha vida, e quando escolhi abrir parte da minha rotina, fiz isso com verdade, mostrando a simplicidade do meu dia a dia, sem ultrapassar limites que possam expor ou fragilizar quem eu amo.
RC: Acredita que a criação de conteúdos pode ser uma ferramenta de integração cultural entre estrangeiros e angolanos? Que papel sente que desempenha nesse diálogo?
MC: Eu acho que, quando bem utilizada, a comunicação aproxima, humaniza e quebra estereótipos — tanto de quem chega quanto de quem já pertence. Ao mostrar choques culturais com respeito, aprendizados com humildade e diferenças sem julgamento, criamos pontes onde antes havia distância ou desconhecimento. Isso vale tanto para estrangeiros que estão tentando se adaptar quanto para angolanos que muitas vezes são vistos através de lentes simplificadas. Nesse diálogo, sinto que o meu papel não é o de explicar Angola, nem de falar por ela. É o de partilhar a experiência de quem chega, aprende, erra e se transforma. Eu comunico a partir do lugar de escuta, não de autoridade. Se o meu conteúdo consegue fazer alguém olhar para o outro com mais curiosidade do que julgamento, com mais empatia do que resistência, então ele já cumpre uma função social importante dentro desse diálogo cultural.
RC: Que tipo de feedback tem recebido do público angolano e brasileiro, e de que forma essas reacções influenciam a evolução do seu conteúdo?
MC: Dos angolanos, recebo muitas vezes correções que melhoram o meu olhar sobre o país. Esse retorno é fundamental, porque me ajuda a comunicar com mais responsabilidade, evitando generalizações e ajustando a forma como abordo certos temas culturais. Por outro lado, há um carinho gigante comigo por parte deste mesmo publico, tanto online quando pessoalmente. Vejo que eles amam o fato de eu ter me adaptado rápido e mostrar a vida aqui com simplicidade e afeto. Do público brasileiro, o feedback vem muito no formato de identificação e curiosidade. Muitos se veem nas minhas experiências como estrangeira, nos estranhamentos, nas dúvidas e nos processos de adaptação. Isso reforça a importância de narrar essas vivências com honestidade, sem vitimização nem romantização. Essas reações influenciam diretamente a evolução do meu conteúdo. No fundo, o feedback do público não me molda por pressão, mas me orienta e funciona como um termômetro que me ajuda a crescer sem perder a minha essência.
RC: Para si, o que torna uma história ou uma dica verdadeiramente significativa e capaz de impactar positivamente a vida das pessoas?
MC: Acredito que a intenção faz toda a diferença. Quando a comunicação vem do cuidado, da escuta e da responsabilidade, ela toca de forma mais profunda. Uma dica simples, colocada no momento certo e com honestidade, pode mudar uma decisão, ou abrir um novo olhar. Um exemplo foi quando passei a compartilhar que eu dava sextas básicas mensalmente aos meus funcionários, fiz isto de forma simples, mostrando como montar a cesta sem gastar muito, e em poucos dias, recebi mais de 20 fotos de donas de casa me mostrando que se inspiraram e passaram a fazer o mesmo, No fim, o que torna uma história ou dica relevante não é o alcance, mas o efeito. Se aquilo que eu compartilho ajuda alguém de alguma forma, então o conteúdo já cumpriu o seu papel.
RC: O lifestyle angolano tem sido um dos eixos do seu conteúdo. Que aspectos da cultura local mais a surpreenderam e que gostaria de continuar a explorar?
MC: O lifestyle angolano me surpreende pela intensidade com que a vida é vivida. Existe uma presença muito forte da música e gastronomia, esses são aspectos que mais me encantam e que desejo continuar explorando. Os sabores, as tradições e a comida é partilhada dizem muito sobre a cultura angolana. Comer, aqui, é um acto social, de encontro e de memória. Também me surpreende a estética do cotidiano: a moda, os cabelos, as cores, a forma como identidade e criatividade aparecem mesmo nos detalhes mais simples. O bom de tudo isso é saber que ainda há muito a aprender e explorar.
RC: Esta segunda-feira esteve no restaurante Espaço Luanda, em Talatona, para criação de conteúdos. Que importância têm estes espaços na valorização da gastronomia e da experiência urbana de Luanda nas redes sociais?
MC: Espaços como o Espaço Luanda não são apenas locais para comer, mas pontos de encontro que une cultura e identidade angolana. A gastronomia é uma das formas mais potentes de contar a história de um país, quando um restaurante valoriza sabores locais, ele contribui diretamente para a forma como Luanda é percebida, tanto por quem vive aqui quanto por quem observa de fora. Nas redes sociais, esses espaços ajudam a construir uma narrativa mais real da cidade. Mostram que Luanda é dinâmica, criativa e viva, com uma cena urbana que vai muito além dos estereótipos. Ao criar conteúdo nesses lugares, sinto que estou ampliando a visibilidade e reconhecimento que eles merecem.
RC: Considera que o digital, hoje, carrega uma responsabilidade social maior? Como lida com essa responsabilidade enquanto criadora de conteúdos?
MC: Com certeza! As redes deixaram de ser apenas espaços de entretenimento e passaram a influenciar comportamentos, decisões e até a forma como as pessoas se percebem e se relacionam com o mundo. Como criadora de conteúdos, lido com essa responsabilidade com muita consciência e cuidado. Eu entendo que aquilo que comunico pode reforçar padrões, normalizar discursos ou, ao contrário, abrir espaço para reflexão. Por isso, procuro sempre comunicar com intenção, evitando a banalização de temas importantes e respeitando os contextos culturais e humanos que atravessam cada conteúdo. Também acredito que responsabilidade não significa silêncio, mas posicionamento. Escolho falar quando sinto que posso contribuir de forma construtiva, sem explorar dores, polêmicas ou narrativas que não me pertencem.
RC: Que desafios enfrentou ao transformar a comunicação digital num projecto consistente, com propósito e impacto real?
MC: Acho que o mais difícil é lidar com os clientes (os contratantes) que na maioria das vezes não entendem o valor de uma presença digital alinhada com o propósito, identidade e objetivos reais da empresa. Também enfrentei o desafio da constância: manter qualidade, coerência e verdade mesmo em cenários de pressão por resultados rápidos. Com o tempo, aprendi que um projeto consistente nasce quando a comunicação deixa de ser apenas estética e passa a ser ferramenta de transformação, conectando marcas a pessoas de forma genuína e sustentável.
RC: De que forma procura equilibrar entretenimento e informação para manter o público envolvido sem perder profundidade?
MC: Eu tento partir da verdade e da utilidade do conteúdo. O entretenimento é a porta de entrada, mas a informação é o que sustenta a relação com o público. Uso narrativas leves e linguagem acessível porque esse equilíbrio me ajuda a traduzir temas relevantes de forma simples, humana e contextualizada à realidade de quem me acompanha. A profundidade não está na complexidade do discurso, mas na intenção, na clareza e na capacidade de gerar reflexão, identificação ou mudança de comportamento.
RC: Que conselhos deixaria a outras mulheres que desejam criar conteúdos autênticos, especialmente fora do seu país de origem?
MC: Eu diria para eles serem autênticas, e produzir conteúdos usando as suas próprias identidades, histórias e vivências, elas devem entender que isso é um diferencial, não um obstáculo, mesmo fora do país de origem. Criar conteúdo em outro contexto exige escuta, respeito cultural e humildade para aprender, mas também coragem para ocupar espaço com a própria voz. Por fim, a parte mais difícil, consistência, isso faz toda a diferença.
RC: Olhando para o futuro, que novos formatos, temas ou projectos gostaria de desenvolver para continuar a inspirar e informar a sua comunidade?
MC: Quero aprofundar formatos que permitam mais diálogo, educação e impacto real. Tenho interesse em desenvolver conteúdos mais longos, como séries temáticas, conversas e projetos educativos que explorem comunicação, também estou trabalhando na criação de uma empresa inovadora que quero lançar nos próximos meses, mas agora não posso dar muito detalhes. Acima de tudo, o meu foco continuará a ser criar conteúdos com intenção, que informem, inspirem e acompanhem as transformações sociais e culturais do nosso tempo, sempre com responsabilidade, sensibilidade e verdade.


