Dalva Coimbra: A chef que transforma tradição, técnica e paixão numa nova linguagem da gastronomia

Gracieth Issenguele
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Num universo gastronómico onde a exigência, o rigor e a criatividade caminham lado a lado, Dalva Coimbra também conhecida como Chef Dalva de Freitas tem afirmado o seu nome com talento e determinação. Formada em Culinária Profissional e Gestão de Cozinha pela International Hotel School, na Cidade do Cabo, África do Sul, iniciou a sua trajectória profissional em Cape Town, tendo passado pelo prestigiado hotel cinco estrelas One&Only Cape Town.

Reconhecida pela dedicação, atenção ao detalhe e profunda paixão pelas cozinhas profissionais, Dalva encara a gastronomia como uma poderosa forma de expressão cultural, onde técnica, identidade e partilha se encontram à mesa. Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, no mês dedicado à mulher, a chef fala sobre a sua experiência internacional, os desafios de afirmar-se num sector ainda maioritariamente masculino e a importância de valorizar as raízes da culinária.

RC: Que impacto teve a sua experiência internacional na sua visão sobre a gastronomia?

DC: Foi um período de grande crescimento pessoal e profissional. Permitiu-me estar em contacto com diferentes culturas e culinárias, técnicas modernas e padrões de excelência bastante exigentes.

Trabalhar e aprender num contexto multicultural desenvolve, acima de tudo, a capacidade de adaptação, uma competência essencial numa cozinha profissional. Essa experiência também ampliou a minha visão sobre a gastronomia e despertou em mim um forte espírito de partilha de tudo o que aprendi.

Hoje, um dos meus grandes sonhos é poder aplicar e transmitir esses conhecimentos numa escala maior.

RC: Que aprendizagens mais marcantes trouxe da sua experiência numa cozinha de alto nível?

DC: Foi uma experiência extremamente marcante e decisiva para a minha formação como chef. Trabalhar numa cozinha de alto nível ensinou-me, acima de tudo, a importância da disciplina, da atenção ao detalhe e do compromisso permanente com a excelência.

Num ambiente onde os padrões são muito elevados, cada prato precisa de ser preparado com precisão e consistência. Aprendi também o valor do trabalho em equipa, da organização na cozinha e da gestão eficiente do tempo — aspectos fundamentais para garantir um serviço de qualidade.

Outro ponto muito importante foi a oportunidade de aprender com chefs experientes de diferentes partes do mundo, o que contribuiu significativamente para ampliar a minha visão gastronómica e aperfeiçoar as minhas técnicas.

RC: De que forma procura integrar identidade e tradição nos pratos que cria?

DC: Para mim, a gastronomia é uma poderosa forma de expressão cultural. Cada prato pode contar uma história, revelar memórias e transmitir a identidade de um povo.

Por isso, procuro sempre incluir nos meus menus criações que tenham uma ligação genuína com as nossas raízes. Ao mesmo tempo, gosto de reinterpretar alguns elementos de forma contemporânea, respeitando a essência da tradição, mas apresentando-os com uma abordagem moderna.

Assim, os pratos mantêm a sua identidade, mas também surpreendem pela criatividade e pela forma como são apresentados.

RC: Que desafios encontrou enquanto mulher neste sector?

DC: No início — e muitas vezes ainda hoje — sinto que preciso de trabalhar mais para provar as minhas capacidades e competências.

As cozinhas profissionais são ambientes de grande pressão, com ritmos intensos e padrões muito elevados. Isso exige resiliência, determinação e confiança em si própria.

Um dos maiores desafios foi afirmar a minha voz e conquistar o meu espaço num meio ainda predominantemente masculino. Acredito que, através do trabalho, da consistência e da dedicação, é possível demonstrar que a competência não tem género nem idade.

Hoje acredito que é fundamental que mais mulheres ocupem espaços de liderança na gastronomia, não apenas para inspirar outras, mas também para trazer novas perspectivas, sensibilidade e criatividade ao sector.

RC: Como descreve o seu método de trabalho no dia a dia?

DC: O meu método de trabalho baseia-se sobretudo em organização, disciplina e consistência. Numa cozinha profissional, cada detalhe conta, por isso procuro começar sempre com um planeamento claro.

Dou grande importância à preparação, à limpeza, à gestão do tempo e à comunicação com a equipa. Quando todos compreendem o seu papel e trabalham em sintonia, o serviço flui com muito mais qualidade.

Também sou extremamente atenta aos detalhes, desde o equilíbrio de sabores até à apresentação final do prato. Para mim, cada prato que sai da cozinha representa não apenas o meu trabalho, mas também o respeito pelo cliente e pela experiência que queremos proporcionar.

RC: De que forma a gastronomia pode transmitir cultura e criar experiências memoráveis?

DC: A culinária tem o poder de transmitir cultura, memória e identidade através dos sabores, dos aromas e até da forma como um prato é apresentado.

Quando criamos um prato inspirado em ingredientes locais ou em receitas tradicionais, estamos a partilhar um pouco da nossa história e das nossas raízes com quem o prova.

Muitas vezes, um sabor pode despertar lembranças de infância, de família ou de momentos especiais. É isso que torna a experiência gastronómica muito mais profunda do que simplesmente alimentar.

RC: O que mais a motivou a continuar a evoluir na gastronomia?

DC: Acima de tudo, a paixão pela cozinha. Costumo dizer que nasci para isto e dificilmente me imaginaria a fazer outra coisa.

A culinária é um universo dinâmico, onde há sempre novas técnicas, sabores e inspirações a descobrir. Essa constante possibilidade de aprender mantém-me curiosa e motivada a crescer.

Inspira-me também a possibilidade de criar experiências que marquem as pessoas. Saber que um prato pode despertar emoções ou memórias e proporcionar um momento especial à mesa dá um grande sentido ao meu trabalho.

Outro factor importante tem sido o desafio de superar limites e afirmar o meu espaço num sector exigente enquanto mulher e jovem profissional.

RC: O que transforma um prato simples numa experiência gastronómica?

DC: Tudo começa com a qualidade dos ingredientes. Quando trabalhamos com produtos frescos, bem seleccionados e respeitamos a sua essência, até as preparações mais simples podem ganhar grande profundidade de sabor.

Outro elemento essencial é o equilíbrio entre sabores, texturas e aromas. Um prato precisa de harmonia para que cada componente se complemente.

A técnica também tem um papel fundamental, pois é através dela que conseguimos valorizar os ingredientes e realçar o melhor de cada um.

Por fim, a apresentação é igualmente importante, porque comer começa com o olhar. A forma como um prato é apresentado pode despertar curiosidade e criar uma expectativa positiva antes mesmo da primeira prova.

RC: Como observa a evolução da gastronomia em Angola?

DC: Observo com bastante entusiasmo a evolução da gastronomia em Angola. Nos últimos anos tem-se notado um crescente interesse em valorizar a cozinha local, os ingredientes tradicionais e as técnicas que fazem parte da nossa identidade cultural.

Há uma nova geração de chefs, cozinheiros e empreendedores cada vez mais empenhada em resgatar e reinterpretar pratos típicos angolanos, levando-os para restaurantes, eventos gastronómicos e até para contextos internacionais.

Este movimento é extremamente positivo, porque mostra que estamos a olhar para a nossa gastronomia não apenas como tradição, mas também como um espaço de criatividade, inovação e afirmação cultural.

RC: Que competências são fundamentais para quem quer seguir carreira na cozinha?

DC: Para quem deseja seguir uma carreira profissional na cozinha, algumas competências são fundamentais para construir um percurso sólido e sustentável.

A primeira é, sem dúvida, a paixão pela gastronomia. Trabalhar numa cozinha exige dedicação, energia e muitas horas de trabalho.

A disciplina e a organização também são indispensáveis, pois uma cozinha profissional funciona com base em processos bem definidos, gestão do tempo e atenção ao detalhe.

Outra competência muito importante é a capacidade de trabalhar em equipa. A cozinha é um ambiente colectivo, onde cada pessoa tem um papel essencial para garantir que o serviço funcione bem.

Além disso, é fundamental ter curiosidade e vontade constante de aprender, porque a gastronomia está sempre em evolução.

RC: Que mensagem deixa às mulheres que desejam seguir este caminho?

DC: Às mulheres que sonham seguir este caminho digo: acreditem no vosso talento e não tenham medo de ocupar o vosso espaço.

A cozinha exige dedicação, estudo e muita resiliência, mas também oferece a oportunidade de contar histórias através dos pratos.

Não deixem que desafios ou preconceitos vos façam desistir. Cada técnica aprendida, cada prato preparado e cada experiência vivida são passos importantes na construção de uma carreira sólida.

Que cada mulher que entra numa cozinha profissional saiba que o seu lugar ali é legítimo.

RC: Que sonhos ainda deseja concretizar?

DC: Um dos meus maiores sonhos é poder leccionar e contribuir para a formação de novos profissionais.

Por ter passado por uma escola especializada, tive acesso a conhecimentos muito valiosos que gostaria de partilhar com muitos outros apaixonados pela culinária. Acredito que tudo começa com o capital humano. Se tivermos cada vez mais profissionais bem preparados, o cenário da restauração em Angola poderá evoluir significativamente.

Formar grandes profissionais, futuros líderes e chefs de cozinha é, sem dúvida, um dos meus maiores objectivos.

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