Do percurso internacional à liderança em RH: Mirian Xavier e a força de uma carreira construída com propósito 

Gracieth Issenguele
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Com um percurso académico e profissional marcado pela multiculturalidade, pela resiliência e por uma visão estratégica do capital humano, Mirian Xavier  afirma-se como uma referência no sector dos Recursos Humanos. Licenciada em RH, com formação repartida entre Portugal, Angola e Namíbia, e detentora de um MBA, a profissional construiu uma carreira sólida, pautada pela aprendizagem contínua e pela valorização da imagem, da postura e da autenticidade no contexto corporativo. 

Nesta entrevista exclusiva cedida à Revista Chocolate Lifestyle, a especialista  partilha, de forma aberta e inspiradora, o seu trajecto, os desafios enfrentados, as conquistas alcançadas e a sua visão sobre o papel estratégico dos Recursos Humanos nas organizações actuais. 

RC: A sua formação começou em Portugal e passou por Angola e Namíbia. 

De que forma esta vivência multicultural influenciou a sua visão profissional e como se posiciona hoje no mercado de trabalho? 

MX: Viver em países com realidades diferentes desde educação, cultura e políticas impulsionou-me bastante a estar apta para trabalhar em diferentes contextos e de certa forma a entender a importância de aprendermos a relacionarmo-nos com as pessoas. Conforme eu sempre digo, passamos mais tempo nos locais de trabalho do que, com as nossas próprias famílias. É necessário termos um clima organizacional saudável durante 8h diárias de convivência e uma das regras fundamentais é aprender a respeitar as diferenças, pensamentos, ideias, posicionamentos e personalidades das pessoas, somos diferentes e está tudo bem. 

RC: O regresso a Angola ainda em idade escolar marcou uma nova etapa da sua vida. Que aprendizagens retirou desse processo de adaptação e como ele moldou a sua resiliência? 

MX: Inicialmente não foi uma adaptação tão fácil, talvez por não ter a maturidade que hoje tenho. Foi necessário aprender uma nova realidade de ensino e estilo de vida. No princípio achava que muitas coisas não faziam sentido e questionava o motivo de ser assim e não como estava a habituada que fosse, mas, ao mesmo tempo, aprendi novas perspectivas, novas visões, conheci outros mundos e também muitas pessoas. Posso dizer que, o regresso a Angola foi necessário, inclusive para eu descobrir o meu propósito de vida e hoje estar definitivamente a vivê-lo. A resiliência é fruto de vivências que nos fazem perceber que a vida é feita de obstáculos e que se não estivermos firmes o suficiente para ultrapassá-los, podemos não estar prontos para as próximas etapas da vida. 

RC:A decisão de ir para a Namíbia, em 2012, revelou uma aposta clara na internacionalização da sua formação. Que importância teve o domínio da língua inglesa na construção da sua carreira em Recursos Humanos? 

MX: Acredito que nem eu nem os meus pais tinhamos noção da relevancia de eu ter ido estudar para a Namíbia. Falando da língua inglesa, há uma história por detrás disto inclusive, no primeiro dia de aulas na universidade, eu sai da aula e liguei para a minha mãe aos choros, porque não entendi nada do que foi ensinado e não percebia como é que tinha estudado a língua inglesa durante 1 ano para não entender. Acabei por reprovar no primeiro ano da universidade inclusive, mas os meus pais deram-me outro voto de confiança. No segundo ano, mudei de universidade mas carreguei para a minha vida as minhas amigas namibianas que, praticamente faziam absolutamente tudo comigo, desde refeições, saídas, cabelereiros, idas ao shopping, etc. Hoje o resultado é visível, pois as oportunidades de emprego que tenho conquistado são no sector petrolífero que exige o domínio da língua inglesa. 

RC: Licenciou-se em Human Resource Management e, mais tarde, investiu num MBA. Que competências estratégicas sentiu que mais se fortaleceram com esta formação em gestão? 

MX: O MBA ofereceu-me uma visão mais abrangente de outras áreas como economia, contabilidade, marketing, vendas, etc. Foi uma experiência difícil porque conclui um MBA numa língua que não falo até hoje, mas com dedicação e esforço foi possível. Posso dizer que tenho competências analíticas, abrangentes e com foco no futuro. 

RC: O seu percurso profissional mostra uma progressão consistente dentro da mesma organização. Como descreve a sua evolução desde recepcionista até generalista sénior de Recursos Humanos? 

MX: Foi uma experiência única e que com muito orgulho partilho até aos dias de hoje. A importância dos pequenos começos reflecte-se no meu dia-a-dia e afirmo que estaria disposta a passar por tudo. Posso dizer que, hoje sou uma pessoa que está pronta para assumir cargos de liderança porque aprendi a conhecer a empresa de baixo ao topo, de igual modo a respeitar mais as pessoas que também ocupam estes cargos. 

RC: Em que momento percebeu que os Recursos Humanos seriam mais do que uma função administrativa e passariam a ser uma área estratégica para si? 

MX: Quando sem experiência alguma aceitei o desafio de assumir uma posição de generalista de RH e reportar a HR Regional Manager for Africa e ao Director Geral. Tive que sair da minha zona de conforto e entender que o RH actua como ponto entre as partes. 

RC: Em Fevereiro de 2025, assumiu o cargo de coordenadora de RH na Hamad Energy. Que desafios encontrou ao transitar para uma posição de liderança num sector exigente como o energético? 

MX: Falando propriamente do sector não é uma novidade para mim, visto que já trabalho neste sector. Talvez por hoje gerir pessoas directamente fez com que tivesse de ter novas competências, postura e aprendizados. O Sector petrolifero é o meu sector do coração mesmo. 

RC: O sector corporativo valoriza cada vez mais a imagem, a postura e a comunicação. Como gere a sua imagem profissional e que impacto acredita que ela tem na credibilidade e liderança em RH? 

MX: A imagem comunica e vende, está sempre foi a minha mentalidade enquanto profissional. Lembro-me que, quando aceitei o desafio de começar a trabalhar como recepcionista uma amiga disse-me o seguinte: 

“Amiga mesmo que seja para ficares na recepção vai bonita sempre, faz o cabelo, cuida das unhas, faz uma make up, grifa mesmo.” 

Acatei o conselho e confesso que mais tarde apercebi-me que este aspecto também foi considerado para o antigo director geral da empresa na qual trabalhava olhar para mim e dizer que a recepção não era o meu lugar. Independentemente do cargo, a imagem importa e muito. 

RC: Acredita que a imagem corporativa deve reflectir apenas profissionalismo ou também autenticidade e identidade pessoal? Onde encontra esse equilíbrio? 

MX: Conforme disse a imagem fala, mas obviamente que há cenários diferentes. A forma como me apresento no local de trabalho não será a mesma no shopping por exemplo. Porém sou apologista que a imagem reflete sim quem nós somos ou como queremos ser vistos, lembrados ou conotados. Eu particularmente adoro estilos elegantes sem serem ousados. 

RC: Como mulher em posições de responsabilidade, que obstáculos sentiu ao longo do caminho e como os ultrapassou? 

MX: Afirmo que ainda há alguma resistência por parte do género masculino em relação as mulheres em cargos de responsabilidade, não só em Angola, isto é universal. Mas os desafios servem para ensinar-nos sempre alguma coisa, o importante é aprendermos com eles. 

RC: De que forma a sua experiência internacional contribui hoje para a gestão de equipas diversas e para a construção de ambientes de trabalho mais inclusivos? 

MX: Não obtive propriamente uma experiência internacional, visto que o meu primeiro emprego foi em Angola. Mas a gestão de equipas diversas e a construção de ambientes mais inclusivos foram frutos de experiências vividas, aprendizados e conselhos. 

RC: Que competências considera essenciais para quem deseja crescer na área de Recursos Humanos no contexto angolano actual? 

MX: Ser responsável, ser empático e ser estratégico. Estas são as 3 características que considero essenciais para qualquer profissional de recursos humanos. 

RC: O RH moderno exige sensibilidade humana aliada a indicadores de desempenho. Como equilibra estes dois universos no seu dia-a-dia 

profissional? 

MX: Acima de tudo ser profissional e ser honesta. O ser humana é aplicar a honestidade, transparência e justiça, o ser profissional é saber dizer sim quando é sim e não quando é não. Os indicadores de desempenho por exemplo são muito usados na avaliação de desempenho, este processo no fim culmina em feedbacks. Apesar de não ser uma posição fácil, eu acredito que quando providenciado com empatia e responsabilidade pode ajudar o colaborador tanto a empresa, é aqui que entra o equilibrio. 

RC: Que conselhos daria a jovens profissionais que iniciam a carreira em funções operacionais, mas ambicionam cargos de liderança? 

MX: Aprender a aceitar os pequenos começos e a não terem pressa de ter títulos ou cargos mas experiência e vivências que possam sustentar amanhã os cargos de liderança. Também aconselho a adquirirem competências além daquilo que é providenciado pela empresa, como por exemplo a responsabilidade, a proatividade, a honestidade, a organização, a comunicação efectiva, trabalho em equipa, estas são algumas das competências comportamentais muito valorizadas hoje no mercado de trabalho. 

RC: Olhando para o futuro, que metas profissionais gostaria de alcançar e que legado pretende deixar na área de Recursos Humanos? 

MX: Fazer o mundo entender que o RH é o coração de qualquer empresa, pois elas fazem-se de pessoas. Que possamos todos ter autonomia para aplicar o RH ágil nas empresas. 

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