Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, a empreendedora Tamara Gonçalves Custódio, de 31 anos, partilha a sua jornada com uma clareza rara e inspiradora. Fundadora do Café 67 e da Confeitaria 67, Tamara acredita que empreender é mais do que abrir portas ou gerir números: é criar impacto, transformar vidas e deixar uma marca no mundo.

A empreendedora reflete sobre os momentos decisivos da sua caminhada, a liderança de uma equipa de 25 pessoas e o propósito de apoiar outras mulheres a estruturarem os seus negócios. Entre desafios, conquistas e sonhos, Tamara abre espaço para falar de propósito, leveza e futuro — revelando que, para ela, o verdadeiro sucesso nasce do equilíbrio entre lucro, autenticidade e humanidade.
Acompanhe esta conversa exclusiva que une profissionalismo, emoção e visão de futuro.
RC: Quando olha para trás, qual foi o momento exacto em que percebeu que empreender seria mais do que abrir um negócio, mas sim criar impacto e transformar vidas?
TC: Que pergunta interessante! A minha virada de chave aconteceu durante a pandemia, quando percebi que, no fundo, negócios não são paredes e móveis, mas sim pessoas. A COVID mostrou-nos, de forma muito real, que pessoas precisam de pessoas. Foi então que entendi: quanto mais pessoas eu ajudasse, mais o meu negócio cresceria, porque são as pessoas que transformam empresas. Sem dúvida, esse foi o momento em que percebi que empreender vai muito além de abrir um negócio… é sobre criar impacto e transformar vidas.
RC: O Café 67 e a Confeitaria 67 nasceram da sua visão pessoal. Como conseguiu traduzir os seus valores em espaços físicos e experiências que os clientes sentem?
TC: Tudo começou com a vontade de criar espaços que não fossem somente para consumir produtos, mas para viver momentos. No Café 67 e na Confeitaria 67, cada detalhe — da decoração ao atendimento, da escolha dos ingredientes à forma como servimos — foi pensado para refletir os meus valores: acolhimento, qualidade, conexão e autenticidade. Eu quis que as pessoas se sentissem como se estivessem a entrar na casa de um amigo querido, onde o cheiro, o sabor e o cuidado criam memórias. Mais do que servir um café ou um bolo, nós entregamos experiências que tocam o coração.
RC: Liderar 25 pessoas exige muito mais do que gerir tarefas. Que práticas concretas usa para manter a equipa motivada e alinhada com o propósito?
TC: Para mim, liderar não é apenas distribuir tarefas, é desenvolver pessoas. Nunca escolhi a minha equipa apenas por currículos bonitos. Cada pessoa que trabalha comigo chegou porque eu acreditei no seu potencial e na sua capacidade de aprender. As habilidades técnicas podem ser treinadas e eu invisto tempo nisso, mas caráter, valores e vontade de crescer são insubstituíveis. Manter a equipa motivada e alinhada começa com clareza de propósito, comunicação aberta e reconhecimento constante. Quero que cada um saiba que faz parte de algo maior, que o seu trabalho impacta diretamente a vida dos clientes e o crescimento da empresa.

RC: Qual foi o maior desafio que enfrentou ao passar de empreendedora “solitária” para líder de um negócio estruturado?
TC: O maior desafio foi lidar com o medo de não dar certo. Quando se está sozinha, os riscos parecem mais controláveis, mas à medida que a equipa cresce e o negócio se estrutura, a responsabilidade multiplica-se. Não é só sobre mim, é sobre as famílias que dependem do que construímos juntos.
RC: Na sua opinião, o que mais impede as empreendedoras de crescer e como a sua mentoria actua para desbloquear esse potencial?
TC: Na minha experiência, o que mais impede as empreendedoras de crescer não é a falta de talento ou de vontade, mas a ausência de estrutura e clareza. Muitas ficam presas no dia-a-dia operacional, a tentar resolver tudo sozinhas, sem processos definidos, sem métricas e sem uma estratégia clara para o crescimento. Isso gera desgaste, perda de oportunidades e, muitas vezes, a sensação de estar sempre ocupada mas sem realmente avançar.
Na minha mentoria, o meu papel é trazer ordem ao caos: ajudar a estruturar o negócio, organizar as finanças, criar estratégias de vendas consistentes e alinhar a marca com o posicionamento certo. Mais do que ensinar técnicas, mostro caminhos e acompanho cada passo, para que a empreendedora ganhe confiança e liberdade para se dedicar ao que realmente faz o negócio crescer. O resultado? Negócios mais organizados, rentáveis e leves, e empreendedoras com energia e prazer em liderar.
RC: Entre as empreendedoras que já orientou, qual foi o caso mais marcante de transformação e por quê?
TC: Graças a Deus, já tive muitos resultados positivos e casos marcantes, mas sem dúvida um que me marcou foi o da Muenga Neves, da marca Doces Extraordinário. Desde o início, vi claramente o potencial dela. Juntas, estruturámos o negócio, organizámos processos e definimos estratégias de crescimento.
O resultado foi transformador: passámos de um negócio que faturava cerca de 100 mil Kz por mês para atingir múltiplos dígitos todos os meses. Mais do que números, o que me emociona é ver como essa transformação mudou a vida dela e da sua família.
RC: Muitas empresárias sentem que para lucrar precisam sacrificar leveza e propósito. Como demonstra que isso é um mito?
TC: Acredito que o verdadeiro sucesso empresarial acontece quando o lucro caminha de mãos dadas com a leveza e o propósito. O problema é que muitas confundem esforço com sacrifício e acabam a trabalhar sem estratégia, o que as esgota. Na minha mentoria, mostro que, com um modelo de negócio estruturado e processos eficientes, é possível ganhar mais, trabalhar melhor e viver com mais equilíbrio. Lucrar não tem de ser sinónimo de peso; pode e deve ser sinónimo de liberdade.
RC: Em mercados instáveis, como equilibrar inovação, estratégia e gestão de risco sem perder a essência do negócio?
TC: Em mercados como o angolano, a chave é manter a essência enquanto nos adaptamos. Oscilações económicas e limitações de recursos obrigam-nos a inovar, mas inovação sem estratégia é só tentativa e erro — e isso pode custar caro. É preciso inovar para responder às necessidades, planear cada passo e gerir riscos para proteger o que já foi conquistado. No fundo, é ler o mercado sem nunca esquecer o ADN do negócio.
RC: Quando pensa em posicionamento de marca, quais são os erros mais comuns que vê e como evitá-los?
TC: O primeiro erro é querer agradar a todos, o que dilui a identidade da marca. O segundo é não ter clareza de proposta de valor: muitas sabem o que vendem, mas não conseguem comunicar por que alguém deve escolher a sua marca. O terceiro é a inconsistência na comunicação. Para evitar isso, é essencial definir um território claro, saber a quem falar e manter coerência em todos os pontos de contacto com o cliente.

RC: Se tivesse de criar uma “receita” para um negócio sólido, quais seriam os três ingredientes indispensáveis?
TC: (risos) Difícil escolher só três! Mas diria: primeiro, paredes instagramáveis, porque vivemos num mundo visual. Segundo, atendimento ao público — genuíno e de qualidade, que transforma clientes em embaixadores da marca. E terceiro, finanças. Sem controlo financeiro, não há crescimento sustentável.
RC: Quem é a Tamara fora dos negócios? Que hábitos ou paixões a ajudam a manter equilíbrio e clareza?
TC: Hahaha, ótima pergunta! Sou totalmente apaixonada pelo que faço, mas algo que me equilibra é viajar. Sempre que me afasto um pouco, volto com a visão mais clara e renovada. Conhecer outras culturas abre horizontes e torna-me melhor líder.
RC: Há algo da sua vida pessoal que influencia diretamente como conduz as suas empresas e mentorias?
TC: Sem dúvida. O meu marido é totalmente “pé no chão” e isso dá-me equilíbrio. Eu sou muito criativa e por vezes viajo nas ideias, e ele traz-me à realidade. Esse equilíbrio é fundamental na forma como conduzo as minhas empresas.
RC: O que o Café 67 e a Confeitaria 67 representam para si num nível emocional, para além do lado profissional?
TC: Representam a minha forma de comunicar com o mundo: através de experiências que despertam emoções. São também um lembrete de que tudo o que é construído com propósito encontra o seu lugar, mesmo em contextos desafiantes.
RC: Se pudesse voltar no tempo e dar um conselho à Tamara que começava a empreender, qual seria?
TC: Diria: “Vai com coragem, mas leva paciência contigo.” No início, tinha pressa, mas hoje sei que grandes resultados vêm de decisões consistentes e do equilíbrio pessoal.
RC: Como imagina a sua vida e o impacto do seu trabalho daqui a 10 anos?
TC: Vejo-me a viver uma vida com ainda mais propósito e liberdade, com o meu trabalho espalhado por vários países e com histórias de empreendedoras que transformaram as suas vidas. Quero olhar para trás e dizer: “Valeu a pena. Deixei uma marca no mundo e inspirei outras pessoas a fazerem o mesmo.”


Texto: Gracieth Issenguele
Fotografias: Paixão Lemba


