Com mais de duas décadas de experiência no sector corporativo, incluindo passagens por companhias internacionais de referência como Emirates, Brussels Airlines e TAP Portugal, Miriam Morais construiu um percurso sólido que hoje a posiciona como uma das vozes mais influentes no desenvolvimento de liderança em Angola. Mentora de Liderança, Coach de Alta Performance e CEO da Utima Coaching, dedica-se a elevar o potencial de executivos e equipas, através de metodologias inovadoras assentes na inteligência emocional e na ciência do desempenho.

Certificada por instituições internacionais e responsável por projectos com empresas de destaque como Printsolution, DHL, Fidelidade e Zillian, Miriam alia estratégia, experiência e propósito. Paralelamente, reforça o seu impacto social com a iniciativa “Fora da Caixa”, promovendo o acesso ao conhecimento e a transformação de mentalidades. No âmbito do mês da mulher, a Revista Chocolate Lifestyle conversou com a especialista sobre liderança, desafios e o futuro do talento africano.
RC: Miriam, a sua trajectória começou no sector da aviação internacional e evoluiu para o universo do desenvolvimento humano. Que momento ou experiência marcou essa transição para a mentoria de liderança e coaching de alta performance?
MM: Quando eu estava na Brussels Airlines e, depois, na Emirates, era responsável pelas grandes contas de empresas e agências de viagens. Isso significava estar com os clientes de forma rotineira. Como me recebiam e o feedback que me davam sobre a maneira como eu ajudava a resolver as suas questões já eram sinais do impacto que eu conseguia causar, só por me preocupar primeiro com eles e depois com o negócio. Também conseguia comunicar muito bem com os clientes, mesmo em situações mais desafiantes, que inevitavelmente existem na aviação. Entretanto, tive uma fase em que quis despedir-me e fazer algo novo, mas faltou-me coragem. Com a Covid, Deus encontrou forma de me colocar no caminho do meu propósito: trabalhar com pessoas para o seu desenvolvimento. E cada vez sinto-me mais feliz por esta escolha.

RC: Depois de mais de duas décadas no ambiente corporativo, que lições considera fundamentais para a construção de líderes mais conscientes e preparados no contexto africano?
MM: Os líderes precisam saber mais sobre pessoas. Devem fazer não só uma autoavaliação da própria liderança, mas essencialmente compreender a complexidade humana das equipas. Eu vivi isso: a competência técnica, por si só, não sustenta a liderança. Se o líder não souber comunicar, desenvolver pessoas, gerir emoções e criar confiança, dificilmente conseguirá mobilizar a sua equipa de forma consistente. Acho que a maturidade emocional dos líderes passou a ser um requisito obrigatório.
No nosso contexto, onde inevitavelmente as situações pessoais são complexas, o líder precisa saber analisar o contexto pessoal, na medida em que este vai, com certeza, afetar o profissional. Já não se pode dizer para deixar os problemas pessoais à porta do escritório — tal coisa não é possível, porque somos um todo, com dimensões pessoais e profissionais a coexistirem num único ser.
RC: A Utima Coaching tem trabalhado com executivos e empresas de referência. Que desafios observa com mais frequência nas lideranças empresariais em Angola e como o coaching pode ajudar a superá-los?
MM: Tenho observado que muitos dos desafios da liderança empresarial não estão necessariamente na falta de talento, mas na forma como esse talento é dirigido, alinhado e sustentado dentro da organização. Vejo uma grande dificuldade dos líderes em mobilizar as equipas para a alta performance, no sentido de serem mais produtivas. O líder ainda é, muitas vezes, um chefe, e as equipas precisam de um exemplo que as inspire. Considero que a comunicação assertiva também é outro grande desafio nas empresas. Muitas organizações têm excesso de instruções e pouca clareza, muito comando e pouco alinhamento. Isso gera ruído entre áreas, interpretações diferentes sobre prioridades, falhas na responsabilização e, inevitavelmente, quebra de desempenho. A expectativa do resultado pretendido fica, muitas vezes, aquém do desejado devido a falhas na comunicação entre líder e equipa. Por exemplo, muitas empresas ainda têm dificuldades com o feedback, que deve ser dado com o tom adequado, de forma objectiva, clara e focada na situação — e não na pessoa.
Outro ponto muito presente é a dificuldade em criar uma cultura real de responsabilização. Ainda vemos equipas onde se culpa o contexto, o mercado, a estrutura ou outros departamentos, quando o problema central está, muitas vezes, na ausência de compromisso, seguimento e disciplina de execução. A melhor forma de o coaching ajudar é através de acções de team coaching, onde as perguntas conduzem à reflexão e as respostas são encontradas pela própria equipa ou líder.
RC: Num mundo cada vez mais exigente e acelerado, a alta performance tornou-se um conceito muito discutido. Para si, o que significa verdadeiramente ser um líder de alta performance hoje?
MM: Para mim, um líder de alta performance é, antes de tudo, alguém que se lidera bem a si próprio. Isto significa saber gerir prioridades, emoções, energia, foco e comportamento sob pressão. Antes de querer influenciar os outros, precisa de ter domínio interno, consistência nas suas decisões e consciência do exemplo que transmite. Um líder que perde o centro compromete a clareza da equipa, contamina o ambiente e enfraquece a execução. Ser um líder de alta performance hoje não é apenas entregar resultados; é fazê-lo de forma consistente, consciente e sustentável, mesmo em ambientes de elevada pressão, mudança constante e crescente complexidade.
RC: A sua metodologia integra ferramentas internacionais como o LEGO® SERIOUS PLAY® e análises de comportamento humano. De que forma estas abordagens inovadoras contribuem para transformar a cultura das equipas e das organizações?
MM: A integração de ferramentas internacionais e disruptivas, como o LEGO® SERIOUS PLAY® e a análise de comportamento humano, permite ir além da formação tradicional, porque não trabalha apenas o que as pessoas sabem, mas sobretudo a forma como pensam, interagem, decidem e constroem significado dentro da organização.
É precisamente aí que a cultura se transforma: não ao nível do discurso, mas ao nível dos comportamentos, das percepções e das dinâmicas que sustentam o dia a dia das equipas. Além disso, estas metodologias tornam a aprendizagem mais experiencial, memorável e accionável. As pessoas não apenas ouvem conceitos; vivem o processo, constroem entendimento e criam compromissos com maior profundidade.
RC: Trabalhando directamente com líderes e equipas, que características identifica nos profissionais que conseguem destacar-se e construir carreiras consistentes?
MM: Sem dúvida, trabalhar com propósito — saber o seu “porquê”. Por menor que seja a função ou tarefa, precisa de ser feita com brio. Fazer por fazer não é ter alta performance. Quando sabemos o nosso “porquê”, torna-se mais fácil ultrapassar obstáculos, porque conseguimos visualizar a razão do que fazemos.
RC: O editorial da Revista Chocolate Lifestyle valoriza o equilíbrio entre carreira, bem-estar e desenvolvimento pessoal. Como uma líder pode manter alta performance sem comprometer a qualidade de vida?
MM: Vou responder de forma realista: não é possível manter um equilíbrio perfeito entre carreira, bem-estar e desenvolvimento pessoal. Quando uma dessas áreas exige a nossa máxima atenção, outra ficará prejudicada. O importante é saber gerir prioridades de forma consciente e garantir qualidade de vida, sem culpa pelas escolhas feitas.
RC: Enquanto mulher que construiu uma carreira sólida em ambientes altamente competitivos, que desafios enfrentou ao longo do seu percurso e como conseguiu transformá-los em oportunidades de crescimento?
MM: Tive muitos chefes. Isso ajudou-me a perceber que tipo de líder quero ser. Ganhei resiliência e mais confiança nas minhas capacidades.
RC: No âmbito do mês de março, dedicado à celebração da mulher, que mensagem gostaria de deixar às mulheres angolanas que aspiram ocupar posições de liderança nas empresas e na sociedade?
MM: Às mulheres angolanas que aspiram a posições de liderança, digo que não diminuam a dimensão do que podem construir. Liderar não é esperar autorização — é preparar-se, posicionar-se e assumir o seu lugar. Liderança feminina não é imitar modelos ultrapassados, mas liderar com identidade, competência e autenticidade. Cada mulher que lidera abre caminho para outras. Preparem-se para mais, não peçam desculpa por ambicionar mais e não aceitem viver abaixo do vosso potencial.
RC: Para além do trabalho corporativo, é também fundadora do projecto social “Fora da Caixa”. Que impacto pretende gerar com esta iniciativa e de que forma ela contribui para o desenvolvimento de talentos em Angola?
MM: O objectivo do “Fora da Caixa” é tornar o conhecimento acessível a todos. A mudança de mentalidade, o conhecimento e a formação contínua devem ser prioridades em África. A iniciativa ajuda a romper padrões de limitação e desperta nos jovens uma nova forma de pensar sobre si e o seu futuro.
RC: Na sua perspetiva, quais são as competências que a nova geração de líderes africanos precisa desenvolver para competir num mercado global cada vez mais dinâmico?
MM: A nova geração precisa ir além da competência técnica. Autoconsciência e inteligência emocional serão fundamentais. Um líder que não se conhece tende a reagir em vez de conduzir. Liderança humanizada exige firmeza, mas também empatia, escuta e equilíbrio.
RC: Olhando para o futuro, quais são os próximos passos da Utima Coaching e que legado gostaria de deixar no universo da liderança e do desenvolvimento humano em Angola?
MM: O objectivo é expandir a Utima para todo o espaço PALOP. Quero deixar um legado de líderes mais conscientes, preparados e humanos, capazes de gerar resultados sem perder valores. Mais do que inspirar, pretendo provocar mudanças reais na forma como as pessoas pensam, se posicionam e evoluem.


