“Mesmo que comeces com pouco, o importante é manter o hábito” – Jucélia Gabriel e a urgência de mudar a relação com o dinheiro

Gracieth Issenguele
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Com mais de 12 anos de experiência no sector financeiro, Jucélia Gabriel afirma-se como uma das vozes mais activas na promoção da literacia financeira em Angola. Consultora, educadora, investidora e empreendedora, construiu uma carreira sólida que começou em grandes consultoras internacionais como a Deloitte e a EY, onde adquiriu uma base técnica exigente e uma visão estratégica sobre o impacto das decisões financeiras. Hoje, canaliza esse conhecimento para a realidade, ajudando milhares de angolanos a organizarem as suas finanças e a construírem património de forma consciente.

Licenciada em Contabilidade e Administração e pós-graduada em Mercados Financeiros, Jucélia é fundadora da FINANCI, uma plataforma dedicada à educação financeira e ao investimento. Através de formações, programas e eventos, tem transformado como muitas pessoas lidam com o dinheiro, promovendo não apenas conhecimento, mas mudança de comportamento. “Hoje trago isso para a educação financeira, mas aplicado à realidade das pessoas”, afirma, ao recordar a disciplina e o rigor que marcaram o início da sua trajectória.

A decisão de abandonar o ambiente corporativo surgiu de um desconforto crescente perante a realidade que observava fora das grandes empresas. “Eu saía de reuniões onde se falava de milhões e, ao mesmo tempo, via pessoas próximas sem conseguirem organizar o próprio salário ao final do mês”, revela. Foi nesse contraste que encontrou o seu propósito: aproximar-se do problema e contribuir para soluções práticas e acessíveis.

O impacto do seu trabalho é visível no dia a dia. Segundo Jucélia, são cada vez mais as pessoas que passam de uma total desorganização financeira para uma gestão consciente e estruturada. “Pessoas que chegam sem qualquer controlo e, em poucas semanas, já sabem exatamente para onde vai o dinheiro”, explica, destacando também o empoderamento feminino como uma das mudanças mais marcantes, com mulheres a assumirem decisões financeiras com autonomia.

Apesar dos avanços, os desafios persistem. A falta de estrutura financeira continua a ser um dos principais obstáculos, com muitos angolanos sem clareza sobre rendimentos e despesas. Ainda assim, nota-se uma mudança de mentalidade. “Hoje há mais interesse, isso é visível”, sublinha, embora alerte que o verdadeiro desafio está na consistência e na aplicação prática do conhecimento adquirido.

No campo dos investimentos, Jucélia observa uma evolução positiva, sobretudo no acesso a instrumentos financeiros, impulsionado por instituições como a BODIVA e os bancos comerciais. No entanto, a adesão ainda é reduzida, o que revela um enorme potencial de crescimento. Para quem deseja começar, o conselho é claro: não esperar pelo momento ideal. “Mesmo que comeces com pouco, o importante é manter o hábito”, reforça.

Num contexto social onde o consumo imediato é frequentemente incentivado, a especialista defende o equilíbrio entre qualidade de vida e disciplina financeira. A chave está na clareza e na capacidade de estabelecer limites sem culpa. “Quando tens clareza sobre a tua realidade, consegues dizer ‘não’”, afirma, sublinhando que a construção de património assenta em hábitos simples, mas consistentes.

A educação financeira assume também um papel crucial na emancipação feminina. Para Jucélia, quando uma mulher compreende o seu dinheiro, transforma não apenas a sua vida, mas a forma como se posiciona no mundo. Ainda assim, reconhece que muitas enfrentam barreiras culturais e falta de referências, obstáculos que podem ser superados com acesso à informação e prática contínua.

Enquanto referência num sector exigente, deixa uma mensagem directa às jovens angolanas: “Não esperem sentir segurança antes de começar”. Para a fundadora da FINANCI, a confiança constrói-se ao longo do caminho, com acção e persistência.

Olhando para o futuro, Jucélia revela que a FINANCI está numa fase de consolidação, com o objectivo de aprofundar o impacto e melhorar a qualidade dos programas. Mais do que crescer em números, a missão é clara: garantir que cada pessoa que passa pela plataforma transforme, de forma efectiva, a sua relação com o dinheiro.

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