“Percebi cedo que competência por si só não basta é preciso saber posicionar-se” – Lizângela da Silva engenheira ambiental

Gracieth Issenguele
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No mês em que se celebra a força, a resiliência e o impacto da mulher, a Revista Chocolate Lifestyle destaca uma trajectória que une ciência, liderança e propósito. Lizângela Clélia da Silva, Engenheira Ambiental e Mestre em Planeamento e Gestão Ambiental, soma uma década de experiência no exigente sector mineiro, onde construiu uma carreira sólida, alicerçada na sustentabilidade e na visão estratégica de um futuro mais responsável. Mais do que uma profissional técnica, afirma-se como mentora de carreira e liderança, formadora certificada pelo INEFOP e criadora de iniciativas transformadoras como a Comunidade STEM que já reúne mais de 150 membros — e o STEM Work Brunch.

Apaixonada por desenvolver pessoas e impulsionar decisões conscientes, Lizângela tem vindo a posicionar-se como uma voz influente na interseção entre engenharia, liderança e desenvolvimento humano. A sua missão vai além da exploração responsável dos recursos naturais: passa também por formar profissionais mais preparados, conscientes e capazes de liderar com impacto. Nesta entrevista exclusiva, revela os desafios, aprendizagens e a visão que a move, numa conversa que inspira e reforça o papel determinante da mulher angolana nos sectores que moldam o futuro do país.

RC: Lizângela, com mais de 10 anos de experiência no sector mineiro, o que a motivou a escolher a Engenharia Ambiental e a especializar-se em Planeamento e Gestão Ambiental?

LS: A minha escolha começou muito antes da universidade. Por incentivo do meu pai eu sempre soube que seria engenheira, só ainda não sabia qual engenharia iria seguir. Sempre tive excelentes notas, sobretudo nas disciplinas práticas, o que reforçava essa inclinação.

O ponto de viragem aconteceu quando fui realizar os exames de aptidão e ouvi falar da Engenharia Ambiental como o curso do futuro. Isso despertou a minha curiosidade e ao longo da formação acabei por me apaixonar verdadeiramente pela área.

Com o tempo comecei a desenvolver uma visão mais estratégica. Acreditei e continuo a acreditar que é possível explorar recursos naturais com responsabilidade, de forma estruturada e com uma visão de longo prazo.

A especialização em Planeamento e Gestão Ambiental veio precisamente reforçar essa base técnica permitindo-me não apenas compreender os impactos, mas estruturar soluções sustentáveis especialmente num sector tão exigente como o mineiro.

RC: Sendo uma mulher num sector tradicionalmente exigente e dominado por homens, que desafios enfrentou ao longo do seu percurso e como os transformou em oportunidades de crescimento?

LS: Investi fortemente na minha formação no meu posicionamento profissional e sobretudo na consistência dos resultados. Num ambiente exigente percebi cedo que competência por si só não basta é preciso saber posicionar-se.

Com o tempo deixei de precisar de validação externa. Os resultados passaram a falar por si e isso trouxe-me não só reconhecimento, mas também autoridade no que faço.

RC: A sustentabilidade é hoje um tema incontornável. Na sua perspectiva, qual é o verdadeiro papel da Engenharia Ambiental no futuro de Angola, especialmente no sector mineiro?

LS: A Engenharia Ambiental terá um papel determinante no futuro de Angola sobretudo no sector mineiro. Não se trata apenas de cumprir exigências legais, mas de integrar a sustentabilidade na estratégia das operações.

É através dela que se consegue mitigar impactos optimizar recursos e garantir que o desenvolvimento económico não compromete as gerações futuras. Será cada vez mais um factor de competitividade e responsabilidade para as empresas.

RC: Para além da sua carreira técnica, assume-se também como mentora de carreira e liderança. O que a levou a dar este passo e a investir no desenvolvimento de outras pessoas?

LS: Chega um momento em que percebemos que o nosso impacto não deve ser limitado ao que fazemos individualmente, mas ampliado através de outras pessoas.

Ao longo da minha carreira nunca tive um mentor ou uma mentora formal. Tive sim pessoas que em momentos específicos me ajudaram a dar o próximo passo e isso fez toda a diferença. A minha mentoria surge precisamente daí da vontade de encurtar o caminho ou melhor de facilitar o caminho de quem vem a seguir com mais clareza estrutura e direcção.

RC: Como funciona, na prática, o seu acompanhamento estruturado e que impacto tem tido na vida das pessoas que decide mentorar?

LS: O acompanhamento é estruturado com base em objectivos claros alinhados com a realidade e ambição de cada pessoa. Trabalho o desenvolvimento técnico o posicionamento profissional e a tomada de decisão.

O impacto tem sido consistente com pessoas mais seguras mais orientadas e com maior capacidade de agir de forma estratégica nas suas carreiras.

RC: Enquanto formadora certificada pelo INEFOP, como avalia o nível de preparação dos profissionais angolanos na área ambiental e de liderança?

LS: Existe talento e potencial, mas ainda enfrentamos desafios significativos sobretudo na aplicação prática do conhecimento e no desenvolvimento de competências de liderança.

Para além disso, há uma questão crítica relacionada com o cumprimento das políticas e legislações ambientais. Trata-se de uma área sensível que exige rigor técnico, mas muitas vezes a fiscalização é insuficiente e determinadas funções acabam por ser desempenhadas por pessoas sem a devida qualificação.

O mesmo acontece no contexto das formações onde nem sempre há controlo de qualidade. Precisamos de mais exigência, mais responsabilidade institucional e profissionais preparados para actuar com competência e ética.

RC: É também criadora da Comunidade STEM, que já conta com mais de 150 membros. Qual foi a visão por detrás desta iniciativa e que resultados mais a orgulham até agora?

LS: A visão foi criar um espaço de crescimento conexão e desenvolvimento real. Um ambiente onde profissionais pudessem aprender partilhar e evoluir. O que mais me orgulha é ver pessoas a reposicionarem-se a crescerem na carreira e a ganharem clareza sobre o seu valor.

RC: O STEM Brunch tem ganho destaque. O que diferencia este conceito e que tipo de experiências procura proporcionar aos participantes?

LS: O STEM Brunch não é apenas um evento é uma experiência pensada ao detalhe. Diferencia-se pela qualidade das conversas e pela criação de conexões com propósito.

É um espaço onde vida carreira e propósito se interligam permitindo que mulheres de diferentes áreas como ciência tecnologia engenharia e matemática se sentem à mesma mesa e percebam que não estão sozinhas. Mais do que networking é um ambiente de partilha identificação e fortalecimento colectivo.

RC: O lifestyle angolano é frequentemente marcado pela resiliência, criatividade e espírito de superação. De que forma esses elementos influenciam a sua forma de trabalhar e liderar?

LS: Esses elementos influenciam profundamente a minha forma de trabalhar e liderar. A minha trajectória nem sempre foi fácil nem linear e isso obrigou-me a desenvolver resiliência superar obstáculos e lidar com diferentes desafios.

A resiliência ensina-nos a continuar mesmo quando o contexto não é favorável. A criatividade permite-nos encontrar soluções onde outros veem limitações. E o espírito de superação mantém-nos em movimento.

Acredito que estes três elementos juntos me definem e são pilares fundamentais da minha liderança.

RC: Fora do ambiente profissional, quem é a Lizângela? Como equilibra a exigência da carreira com o lado pessoal e momentos de bem-estar?

LS: Sendo muito sincera há momentos em que não consigo equilibrar. Sou uma mulher extremamente disciplinada e muito focada no ambiente profissional e por vezes acabo por me perder nesse ritmo.

Há alturas em que preciso conscientemente de parar e recentrar.

No entanto a maternidade trouxe-me uma visão diferente acima de qualquer exigência profissional. A minha filha tornou-se a minha prioridade e é com ela que garanto momentos de qualidade presença e equilíbrio. Hoje aprendi que nem sempre se trata de fazer tudo na perfeição, mas de saber o que realmente não pode ser negligenciado.

RC: Sendo uma referência para muitas jovens, que conselhos daria às mulheres angolanas que desejam seguir carreira nas áreas STEM e assumir posições de liderança?

LS: Invistam seriamente na vossa formação. Não esperem validação para avançar. Desenvolvam uma mentalidade forte porque competência sem posicionamento muitas vezes não é suficiente.

RC: Olhando para o futuro, quais são os seus próximos projectos e que legado gostaria de deixar tanto no sector ambiental como na formação de novas gerações?

LS: Os próximos passos passam por expandir o impacto da formação consolidar iniciativas estratégicas e reforçar a actuação na área ambiental com soluções mais estruturadas.

O meu foco é continuar a formar pessoas mais conscientes mais preparadas e capazes de liderar com responsabilidade.

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