“Todas as vezes que deixei a moda em segundo plano, todas as outras portas se fechavam” – Amara Lukene, empreendedora

Gracieth Issenguele
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A relação de Amara Lukene com a moda começou ainda na infância, quando, aos oito anos, já desenhava e transformava as roupas das suas bonecas. Um talento que parece ter encontrado raízes na família, entre um pai com facilidade para o desenho e avós, tanto maternos como paternos, ligados à costura. O percurso, porém, não foi linear: entre estudos, mudanças de planos, desafios pessoais e portas que insistiam em fechar-se, a moda acabou por reencontrá-la.

Em 2013, após se mudar para Portugal, Amara chegou a afastar-se completamente deste universo para se dedicar à licenciatura. Dois anos depois, fez o primeiro curso de Design de Moda, mas, sem ferramentas suficientes para iniciar o negócio, voltou a colocar o sonho em pausa. Em 2018, retomou os desenhos e começou a partilhá-los no Instagram. Já em 2019, uma nova formação em Modelagem e Costura, que inicialmente nem sequer fazia parte dos seus planos, transformaria a sua trajectória e a despertar um profundo amor pela alfaiataria.

Hoje, a moda deixou de ser apenas uma paixão de infância para se tornar profissão, negócio e missão. Entre a criação, o ensino e a valorização do “made in Angola”, Amara Lukene procura construir um percurso assente na qualidade, no conhecimento e na excelência. Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, a empreendedora fala sobre a sua trajectória, as raízes familiares, a força do apoio da irmã, a paixão pela alfaiataria, os desafios do empreendedorismo e o desejo de contribuir para uma indústria da moda angolana cada vez mais reconhecida.

RC.: A sua paixão pela moda nasceu ainda na infância, entre desenhos e roupas de bonecas. Quando olha para esse percurso, acredita que o talento é uma herança familiar ou uma vocação que se constrói com persistência?

AL.: Acredito que o talento é apenas 5%; a consistência, os estudos, as pesquisas e a busca diária por melhoria é que nos tornam grandes profissionais.

RC.: Houve momentos em que colocou o sonho da moda em segundo plano. O que a fez regressar definitivamente a este universo e que lições retirou das dificuldades que enfrentou ao longo do caminho?

AL.: Nada desvia o destino. Todas as vezes que deixei a moda em segundo plano, todas as outras portas se fechavam. Mesmo licenciada, em fase final do mestrado, não consegui emprego nem em cafés. Quando, numa brincadeira e sem qualquer intenção, depois de partilhar alguns trabalhos no Instagram, consegui, em pouco tempo, o suficiente para investir em mais um curso de moda.

RC.: A sua irmã desempenhou um papel determinante em diferentes fases da sua vida. De que forma o apoio familiar pode influenciar o sucesso de uma empreendedora no sector da moda?

AL.: A minha irmã é o pilar de tudo o que foi construído até aqui. Sempre incentivou e investiu no meu talento, por ter uma visão até melhor que a minha daquilo que seria capaz de alcançar. Com certeza, o apoio de toda a minha família é um combustível nesta jornada nada fácil. Mesmo cansada e com vontade de desistir, eles não deixam, de jeito nenhum.

RC.: A oportunidade de ingressar no curso de Modelagem e Costura surgiu por acaso, mas acabou por mudar a sua carreira. Até que ponto acredita que os desafios podem transformar-se nas maiores oportunidades de crescimento?

AL.: Sou a prova viva de que os desafios se transformam em grandes oportunidades, porque sempre foi em situações muito adversas que logrei grandes viradas na minha vida. Hoje, interpreto os “nãos” da vida como redireccionamento para algo muito melhor. Literalmente, “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

RC.: A alfaiataria é uma das suas grandes paixões. O que torna esta arte intemporal e como procura reinventá-la para responder às exigências do mercado contemporâneo?

AL.: Sou fascinada pelo atemporal: passar pelo tempo permanecendo firme e duradouro, daí a paixão pela alfaiataria. Mais uma vez, o destino volta à mesa. A minha mãe deu-me o nome Amara pensando que estava apenas a homenagear o seu irmão, mas Amara significa firme, estável, duradoura. A forma de reinventá-la é sempre trazer, de forma muito subtil, a tendência para o clássico, nos detalhes, na comunicação e na interacção.

RC.: Para além de criar peças de vestuário, pretende formar uma comunidade de costureiras. Que impacto acredita que a partilha de conhecimento pode ter no fortalecimento da indústria da moda em Angola?

AL.: A paixão pelo ensino já existe em mim desde os tempos de escola. Sempre gostei de partilhar o conhecimento porque sentia que aprendia mais fazendo isso. Então, por que não o fazer com a minha profissão, que é das melhores coisas que sei fazer na vida? Daí nasceram os vários projectos que tenho hoje. Nasceu também das dificuldades observadas na nossa sociedade. A costura é um ofício muito independente e que muito facilmente conseguimos fazer dinheiro. Nasceu também para muitas mulheres como eu que sempre tiveram este sonho, mas deixaram em segundo plano, da observação de várias pessoas que até já o fazem e só precisam de aperfeiçoar a técnica. Mas o principal objectivo é levar o nome do nosso país mundo fora como sinónimo de roupas bem feitas, dar um peso maior ao “made in Angola”. Acredito que será um contributo positivo para a nossa economia e visibilidade.

RC.: Enquanto empreendedora, quais foram as competências mais importantes que desenvolveu para transformar uma paixão num negócio sustentável e competitivo?

AL.: Das vezes que deixei a moda de lado, foi para focar nos meus estudos, onde o maior foco sempre foi o empreendedorismo e a gestão. Graças a essas competências adquiridas, consigo manter o negócio de pé até hoje.

RC.: O consumidor tornou-se mais exigente e procura qualidade, exclusividade e propósito. Como responde a estas expectativas através das suas colecções e da identidade da sua marca?

AL.: Qualidade é a palavra de ordem, tanto nas colecções como nas formações. Sempre acreditei que, ainda que seja o mais simples do mundo, mas se for bem feito, pensando em cada detalhe, é sucesso garantido. Então, responder a estas exigências sempre foi muito simples para nós. Quem compra Amara, muito facilmente consegue ver o cuidado e a excelência colocados em cada peça.

RC.: Ao longo da sua trajectória, transformou desafios pessoais em oportunidades profissionais. Que mensagem gostaria de deixar às jovens angolanas que sonham construir uma carreira na moda, mas receiam dar o primeiro passo?

AL.: A mensagem que gostaria de deixar é a seguinte: todo o nosso esforço deve ser aplicado no conhecimento e na excelência. Não tenha pressa de crescer em termos de visibilidade ou financeiros; tudo isso será consequência do excelente trabalho apresentado. Deixo para o fim, por ser clichê, mas não deixa de ser de grande importância: sonhar alto e acreditar. Tropeços teremos sempre, mas desistir nunca pode ser uma opção.

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