Winne Cadete mostra que sustentabilidade não é caridade, é estratégia e alerta sobre um negócio em potencial

Miguel Jose
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Cientista ambiental, mestre em Ambiente e Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Leeds, no Reino Unido, Winne Cadete é hoje uma das vozes angolanas mais consistentes no debate sobre sustentabilidade, justiça climática e transição para modelos de negócio responsáveis. Com mais de 14 anos de experiência no sector do petróleo e gás, tem desenvolvido uma actuação sólida nas áreas de ambiente, ESG, diplomacia climática e regulação ambiental, conciliando exigências económicas com responsabilidade ambiental.

Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, Winne define-se como uma “kaluanda e cidadã do mundo”, uma identidade que, segundo explica, molda profundamente a sua visão sobre sustentabilidade. Enraizada na realidade angolana, conhece de perto os desafios sociais, económicos e ambientais do país, em especial a vulnerabilidade às alterações climáticas. Em simultâneo, a sua vivência internacional permite-lhe integrar boas práticas globais e defender que a justiça climática é também uma questão ética e social. Para a especialista, a sustentabilidade só faz sentido quando equilibra o local e o global, protegendo os recursos nacionais sem perder de vista o futuro comum.

A formação académica no Reino Unido marcou de forma decisiva o seu percurso. A experiência enquanto bolseira Chevening reforçou a importância do pensamento crítico, das soluções baseadas em evidência científica e da construção de parcerias estratégicas. Hoje, esse aprendizado traduz-se numa actuação focada na cooperação e na criação de pontes entre sectores, países e instituições, por acreditar que os grandes desafios ambientais exigem respostas colectivas.

Com uma carreira consolidada no sector petrolífero, Winne Cadete defende que exploração de recursos naturais e protecção ambiental não precisam de estar em lados opostos. Para si, a chave está na inovação, no cumprimento rigoroso da legislação, na adopção de tecnologias limpas e no diálogo contínuo entre todas as partes interessadas. Uma visão pragmática que procura transformar um sector tradicionalmente visto como problemático num agente activo da transição sustentável.

Integração da agenda climática nas políticas públicas

A sua participação nas negociações climáticas internacionais tem sido outro eixo central da sua actuação. Integrar a delegação angolana nas conferências da UNFCCC representa, segundo afirma, um motivo de orgulho e responsabilidade, ao levar a voz de um país vulnerável às mudanças climáticas para um palco global. Entre os avanços alcançados, destaca a actualização da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), a integração da agenda climática nas políticas públicas e o reforço do compromisso com iniciativas globais como o Global Methane Pledge, sinais de um caminho consistente rumo a uma economia mais resiliente.

No que toca às emissões de metano, tema cada vez mais central no debate climático, Winne sublinha os progressos registados em Angola, sobretudo ao nível da monitorização e mitigação. Como coautora do artigo científico “Quantificação aérea das emissões de metano no offshore petrolífero angolano”, resultado do projecto Methane-To-Go Africa, contribuiu directamente para um estudo pioneiro que produziu dados críticos e abriu espaço para soluções inovadoras. O seu objectivo, afirma, tem sido transformar ciência em acção concreta, apoiando projectos que reduzam emissões e reforcem o posicionamento do país na agenda climática global.

Sobre o grau de maturidade das empresas angolanas em matéria de ESG, a especialista reconhece sinais positivos, mas defende que é urgente ultrapassar a lógica da obrigação. Para Winne, a sustentabilidade deve ser encarada como uma medida estratégica capaz de gerar impacto positivo, atrair investimento e reforçar a competitividade empresarial.

Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis

Foi precisamente da identificação dessa lacuna entre discurso e prática que nasceu o Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis, uma plataforma criada para promover colaboração, inovação e compromisso real entre líderes empresariais, decisores políticos e sociedade civil. Mais do que um evento, o Fórum tem-se afirmado como um espaço de partilha de conhecimento, networking e construção de soluções conjuntas, onde a sustentabilidade passa a ser vista como parte integrante da estratégia de negócio.

O impacto da iniciativa já se faz sentir, com empresas a investirem em eficiência energética, economia circular e projectos que reforçam a competitividade e atraem investimento verde. A segunda edição do Fórum, marcada para 20 de Fevereiro, surge com uma ambição clara: incentivar a passagem do discurso à acção. Com painéis liderados por exemplos concretos de implementação de práticas ESG, sessões dedicadas ao financiamento sustentável e à inovação tecnológica, a mensagem é inequívoca — sustentabilidade não é um custo, mas uma vantagem competitiva.

Para o futuro, Winne Cadete identifica os sectores da energia, agricultura e transportes como estratégicos para liderar a transição sustentável em Angola, pela sua relevância económica e potencial transformador. E deixa uma mensagem directa ao empresariado: a ideia de que sustentabilidade é um custo é um mito. Integrar práticas ESG reduz riscos, aumenta eficiência e posiciona as empresas num mercado cada vez mais exigente e atento.

Enquanto mulher num sector historicamente dominado por homens, a sua trajectória tem sido marcada por inclusão e reconhecimento, reforçando a convicção de que diversidade é um motor de inovação. Aos jovens angolanos — em particular às mulheres — deixa um conselho claro: investir em formação, excelência profissional e redes de colaboração, porque é a competência que dá voz e abre caminhos.

Quando projecta o futuro, Winne imagina uma Angola onde desenvolvimento e sustentabilidade caminham lado a lado, com cidades mais verdes, energia limpa, agricultura resiliente e empresas que encaram o ESG como estratégia e não obrigação. Iniciativas como o Fórum Nacional de Negócios Sustentáveis surgem, nesse contexto, como catalisadores de uma transformação que posiciona o país como referência regional na transição para uma economia verde e inclusiva.

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