Margareth de Carvalho e a ambição da FÉNIX como voz activa na emancipação da mulher

Gracieth Issenguele
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Nascida em Benguela, a 15 de maio de 1989, e criada em Luanda, Margareth de Carvalho cresceu num ambiente familiar profundamente marcado pelo empreendedorismo. Filha de pais empreendedores, aprendeu desde cedo a lidar com o público e a encontrar soluções práticas em contextos adversos. Ainda jovem, quando os pais se ausentavam e a escassez financeira batia à porta, assumia a responsabilidade pelos irmãos, vendendo na escola bolos e sacos de ganga personalizados — experiências que, segundo a própria, ensinaram o seu cérebro a adaptar-se, a reinventar-se e a responder aos desafios com criatividade. Para Margareth, essa base foi determinante, mas foi a imigração em Portugal, onde vive há mais de uma década, que mais moldou a empresária que é hoje, obrigando-a a “reeducar-se empresarialmente” para alcançar estabilidade financeira.

Aos 23 anos, já em Lisboa, encontrou nas redes sociais uma forma de comunicar e partilhar conhecimento, sobretudo com mulheres. Assim nasceu, em 2013, a página Makeupby FÉNIX, criada a partir da necessidade de originalidade num universo digital que Margareth sentia ser pouco acolhedor, marcado por uma representação distante da realidade da maioria das mulheres. Misturando autenticidade, informação e humor, a página tornou-se um espaço de identificação e proximidade, contou em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle. Pouco depois, sentiu que era tempo de materializar os ensinamentos de costura herdados da mãe e, em 2014, num pequeno quarto em Lisboa, deu vida à FÉNIX Fashion Atelier — um início que simboliza, acima de tudo, fé: “acreditar em algo impossível, sentindo que é possível”.

Para Margareth, a moda sempre foi mais do que estética. Costurar tornou-se terapia, remédio e apoio em momentos de grande fragilidade emocional. Ao partilhar a sua vida pessoal com as seguidoras, percebeu que a FÉNIX ultrapassava o universo da moda e assumia-se como um propósito, ao dar voz a mulheres que viveram experiências semelhantes, mas que nunca tinham sido acolhidas ou defendidas. Mesmo os períodos mais duros, como viver durante quatro anos na cave da própria loja com os filhos, foram encarados como estratégia, disciplina e liderança consciente, mantendo sempre os “pés bem assentes no chão” e sem viver acima das possibilidades.

A sua trajectória inclui também episódios de dor profunda, que Margareth se recusa a deixar definir o seu carácter. Acredita que a mulher possui um “super poder” e que a maternidade renova forças diariamente, permitindo transformar adversidade em determinação. No plano profissional, a participação na Afro Milan Fashion Week, em 2016, foi inicialmente uma experiência difícil, mas hoje é vista como uma escola que lhe trouxe aprendizagens aplicadas mais tarde em palcos como Paris e Nova Iorque. As colaborações com grandes nomes da música angolana e lusófona contribuíram igualmente para elevar e legitimar a marca FÉNIX no panorama cultural.

Em 2023, movida apenas pela fé, decidiu ir à Semana de Moda de Paris sem convites, contactos ou garantias. “Conversei com Deus e tive a resposta”, afirma. O processo revelou-se longo e exigiu paciência, mas o encontro com Lander em Paris foi, para si, a confirmação de que o caminho estava certo. O desfile na Semana de Moda de Paris, em Abril de 2024, foi vivido como um momento surreal, onde tudo passou a fazer sentido e a convicção de que “Deus nunca erra” se fortaleceu.

Hoje, Margareth apresenta a FÉNIX como um propósito internacional, assumindo-se como voz activa para mães solteiras negras em todo o mundo — uma causa que coloca no centro do seu projecto por vivenciar, na pele, as carências, os desafios e o estigma social associados a essa condição. Denuncia o machismo estrutural, a exclusão no mercado de trabalho, as dificuldades de acesso à habitação e a desumanização social destas mulheres, defendendo mais apoio social e maior investimento na educação como formas concretas de protecção e emancipação. A FÉNIX, diz, já actua como agente de mudança, sobretudo pelo impacto psicológico e inspirador que gera ao provar que o impossível pode tornar-se possível.

Optimista, Margareth encara os desafios como oportunidades e acredita que, se for preciso trabalhar mais para provar o seu valor, assim o fará. Às mulheres que atravessam situações de abandono, violência ou invisibilidade, deixa um apelo: capacitação, excelência, autoconfiança e fé nas próprias capacidades. Hoje, Margareth de Carvalho é o resultado de tudo o que viveu e de todos os que passaram — e permaneceram — na sua vida. O legado que deseja construir vai além da moda: um legado de fé, compreensão, motivação, consistência, perseverança e eloquência, tal como a FÉNIX que renasce, vezes sem conta, das próprias cinzas.

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