Universidade do Porto desenvolve método inovador para prever risco de défice cognitivo após AVC

Suzana André
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Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto estão a desenvolver um método não invasivo que permite identificar doentes com maior risco de desenvolver défice cognitivo após um Acidente Vascular Cerebral (AVC), um avanço considerado relevante na prevenção de sequelas neurológicas a longo prazo.

O estudo, realizado em colaboração com o Hospital de São João, analisou mais de 300 sobreviventes de AVC e demonstrou que a presença de microêmbolos no cérebro duplica o risco de declínio cognitivo futuro. Estes microêmbolos são pequenas partículas que podem obstruir vasos sanguíneos e provocar danos cerebrais progressivos.

Segundo o investigador principal, Pedro Castro, os resultados mostram que o declínio cognitivo não depende apenas da lesão inicial provocada pelo AVC, podendo também estar associado a processos contínuos de microembolismo que causam danos subtis, mas cumulativos no cérebro.

O défice cognitivo pode manifestar-se mediante sintomas como perda de memória, lentidão no pensamento, dificuldades de linguagem e desorientação, afetando significativamente a qualidade de vida dos doentes.

Para chegar a estas conclusões, os investigadores acompanharam 316 pacientes com idade média de 67 anos, maioritariamente do sexo masculino, submetidos a monitorização com “doppler” transcraniano nas primeiras 72 horas após o AVC. Este exame permite detetar microêmbolos em tempo real, de forma não invasiva, segura e acessível.

Os especialistas destacam que esta técnica pode funcionar como uma ferramenta de rastreio clínico, ajudando a identificar doentes de alto risco e permitindo intervenções terapêuticas mais precoces e eficazes. O método, além de portátil e sem recurso a radiação, pode ser realizado à cabeceira do doente.

A equipa de investigação sublinha ainda que este é o primeiro estudo a utilizar neurossonologia para prever défice cognitivo em fase aguda de AVC, abrindo caminho para novas abordagens clínicas.

O próximo passo será a realização de ensaios clínicos adicionais para avaliar se intervenções mais agressivas em doentes com sinais microembólicos podem reduzir o risco de deterioração cognitiva a longo prazo.

O estudo foi financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (Fundação para a Ciência e a Tecnologia) e integra uma linha de investigação em neurociências liderada por Elsa Azevedo.

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