Numa conversa franca e inspiradora com Ariell Mateus, profissional de Recursos Humanos de referência em Angola. Aos 33 anos, licenciada em Direito e com mais de 13 anos de experiência incluindo no exigente sector de Oil & Gas —, Ariell construiu uma trajectória sólida, marcada pela ascensão consistente de funções administrativas a cargos de liderança, como HR Manager, HR Business Partner e Directora de Recursos Humanos. Fundadora do projecto Mentora RH, afirma-se hoje como uma voz influente na área, distinguindo-se pela abordagem prática, humana e orientada para resultados.
Ao longo da entrevista, a gestora partilha reflexões sobre o seu percurso, os desafios do mercado angolano e a importância de uma gestão estratégica de pessoas alinhada com a realidade local. Com uma visão clara e directa, Ariell Mateus revela o que está por detrás do sucesso na área de Recursos Humanos, sem filtros nem romantizações.

RC: Como começou o seu percurso profissional e o que a motivou a transitar da área de Direito para os Recursos Humanos?
AM: Eu comecei em Direito, como muita gente que acha que vai “resolver problemas” no papel… mas rapidamente percebi que o que eu queria mesmo era lidar com pessoas e não só com leis. Sempre me interessei mais pelo comportamento humano do que pelos códigos. A transição para RH foi quase um “clique”: percebi que podia usar o Direito como base, mas com impacto real na vida das pessoas dentro das empresas.
RC: Ao longo dos seus mais de 13 anos de carreira, quais foram os momentos-chave que definiram a sua ascensão até cargos de liderança?
AM: Foram aqueles momentos em que ninguém queria assumir responsabilidade… e eu disse “deixa que eu faço”. Cresci muito em ambientes exigentes, com pressão, prazos curtos e poucas condições. Também houve fases em que tive de liderar equipas mais velhas do que eu — e isso ensinou-me muito sobre postura, comunicação e respeito.
RC: Trabalhar no sector de Oil & Gas em Angola exige elevada resiliência. Que desafios marcaram essa experiência?
AM: Ali não há espaço para romantizar o RH. É um sector duro, com muita pressão e decisões rápidas. O maior desafio foi manter o lado humano num ambiente altamente técnico e exigente. E, claro, gerir diferentes perfis, culturas e egos…
RC: Enquanto Directora de Recursos Humanos, qual considera ser o maior desafio na gestão de talentos no contexto angolano?
AM: Sem rodeios: alinhar expectativa com realidade. Muitas empresas querem talento pronto, mas não investem em desenvolver. E muitos profissionais querem crescer rápido, mas sem consistência. O nosso papel em RH é fazer essa ponte — e nem sempre é fácil.
RC: De que forma a gestão estratégica de Recursos Humanos pode influenciar directamente o crescimento de uma empresa?
AM: Totalmente. RH não é só contratação e salários — é estratégia pura. Se tens as pessoas erradas, a empresa trava. Se tens as pessoas certas, alinhadas e motivadas… a empresa cresce mesmo em cenários difíceis.
RC: A sua abordagem é descrita como prática e humana. Como equilibra resultados e bem-estar dos colaboradores?
AM: Eu sou muito directa: não acredito em bem-estar sem responsabilidade, nem em resultados com pessoas esgotadas. Mas há um ponto que para mim pesa muito: hoje em dia fala-se demasiado “difícil”. Usa-se muita linguagem técnica, muitos termos importados, como se toda a gente estivesse no mesmo nível de acesso e formação — e essa não é a nossa realidade. Sem contar que grande parte dos conteúdos que circulam são quase copy-paste de outros contextos, de outras realidades, que pouco ou nada têm a ver com o nosso dia-a-dia. E isso só afasta ainda mais as pessoas.
Nós estamos num contexto onde muita gente não teve acesso à internet, nem a formação académica estruturada — e, ainda assim, são essas pessoas que fazem as empresas acontecer todos os dias. Então, quando eu comunico ou ensino, eu não falo só para quem está no escritório. Eu falo para o lavador de carros, para o atendente de supermercado, para a balconista, a secretária, o auxiliar de limpeza, a garçonete. E essas pessoas não querem — nem precisam — de linguagem jurídica ou termos complicados. Precisam de clareza, de exemplos reais, de entender a base.
Por isso, eu procuro ao máximo adaptar tudo ao nosso contexto, à nossa realidade. Porque, no final do dia, resultados só aparecem quando as pessoas percebem, se identificam e conseguem aplicar.
RC: O projecto Mentora RH tem impactado centenas de pessoas. Como surgiu esta iniciativa e que lacuna procurava colmatar?
AM: Surgiu porque eu estava cansada de ver pessoas talentosas perdidas. Muita gente não falha por falta de capacidade — falha por falta de orientação. A Mentora RH veio exactamente para isso: dar direcção, clareza e ferramentas práticas.
RC: Que tipo de transformação observa nos profissionais que acompanham através da Mentora RH?
AM: A maior mudança é na mentalidade. As pessoas deixam de esperar oportunidades e começam a posicionar-se. Ganham confiança, começam a comunicar melhor e passam a levar a carreira a sério.
RC: Ainda existem desafios ligados à empregabilidade jovem em Angola. Que soluções considera urgentes?
AM: Precisamos parar de formar só para diploma. Mais prática, mais estágios a sério e mais ligação com empresas. O jovem precisa de experiência — não só teoria.
RC: O seu percurso exige disciplina e consistência. Como organiza o seu dia-a-dia para conciliar carreira, vida pessoal e bem-estar?
AM: Eu organizo por prioridades, não por pressão. Nem tudo é urgente — e perceber isso mudou a minha vida. Também aprendi a dizer “não” sem culpa.
RC: Que hábitos ou rotinas fazem parte do seu lifestyle e contribuem para a sua produtividade e equilíbrio?
AM: Gosto de ter momentos só meus. Gosto de rotinas de autocuidado. Todos os domingos, spa e salão para cuidar do cabelo e do corpo. Pequeno-almoço fora, sempre aos finais de semana, 3L de água por dia e ginásio sempre que posso — e quando não posso (risos).
RC: Fora do ambiente corporativo, como gosta de aproveitar o seu tempo livre em Luanda?
AM: Cinema, ginásio, corridas. Não sou uma pessoa de ambientes nocturnos, infelizmente. Gosto de coisas simples: boa conversa, boa comida e ambientes tranquilos. Depois de uma rotina intensa, aprendi a valorizar o “desligar”.
RC: Que conselho deixaria aos jovens angolanos que desejam construir uma carreira sólida e sustentável na área de Recursos Humanos?
AM: Não romantizem o RH. É uma área linda, mas exigente. Estudem, observem, desenvolvam inteligência emocional… e, principalmente: levem a vossa carreira a sério desde cedo e não entreguem a outra pessoa a responsabilidade de vos dar uma carreira.
Com uma visão lúcida e profundamente enraizada na realidade angolana, Ariell Mateus reforça que o futuro dos Recursos Humanos passa, inevitavelmente, por uma abordagem mais consciente, inclusiva e estratégica — onde as pessoas deixam de ser apenas números e passam a ser, verdadeiramente, o motor do crescimento organizacional.



