Determinada, estratégica e apaixonada pelo desenvolvimento humano, Euridice Nunes construiu uma trajectória sólida no universo corporativo angolano, afirmando-se como uma referência nas áreas de Recursos Humanos, liderança, cultura organizacional e desenvolvimento de talentos. Licenciada em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade Lusíada de Angola, soma experiências em empresas e projectos de grande impacto, destacando-se actualmente como Coordenadora de Comunicação Interna na Suez International, no Projecto PROÁGUA.

Com uma visão moderna sobre carreira, posicionamento profissional e valorização humana dentro das organizações, Euridice tem utilizado também as redes sociais para inspirar jovens e promover debates sobre empregabilidade, liderança feminina e crescimento pessoal. Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, a especialista falou sobre o seu percurso inspirador, os desafios de ser mulher no mercado corporativo angolano, a importância da imagem profissional e os direitos da mulher grávida no ambiente de trabalho, defendendo uma cultura organizacional mais humana, equilibrada e inclusiva.
RC: A sua trajectória começou muito cedo, aos 17 anos, como babysitter. De que forma essa experiência moldou a mulher e profissional que é hoje?
EN: Começar a trabalhar aos 17 anos como babysitter foi, sem dúvidas, uma das experiências que mais moldou a mulher e profissional que sou hoje. Na altura, talvez muitos vissem apenas como um trabalho simples, mas para mim representava assumir uma responsabilidade enorme, com riscos e desafios que exigiam organização, disciplina, maturidade e capacidade de planeamento.
Esta experiência ensinou-me muito cedo que crescimento exige coragem e que assumir responsabilidades faz parte da construção de qualquer ser humano. Fez-me perceber também que, muitas vezes, a nossa evolução acontece exactamente quando decidimos sair da zona de conforto.
Apesar de tudo, entendia que viver experiências diferentes iria tornar-me mais forte, mais preparada e diferente. Talvez por isso hoje não tenha tanto medo de abraçar novos desafios.
RC: O que considera ter sido o maior desafio ao construir uma carreira sólida na área de Recursos Humanos em Angola?
EN: Um dos maiores desafios ao construir uma carreira sólida na área de Recursos Humanos em Angola foi afirmar-me enquanto mulher jovem, destemida, com voz, opinião própria e capacidade de assumir posições estratégicas dentro das organizações.
Muitas vezes, profissionais com atitude, visão e posicionamento firme ainda enfrentam resistência dentro de alguns ambientes corporativos, sobretudo quando defendem processos, princípios e decisões que exigem coragem e responsabilidade.
Ao longo da minha trajectória, enfrentei situações em que senti falta de maior apoio e alinhamento entre profissionais da própria área de Recursos Humanos, principalmente em contextos que poderiam comprometer a imagem, credibilidade e posição de determinados profissionais.
Infelizmente, ainda existe em algumas organizações uma cultura um pouco opressora em relação a colaboradores que têm voz, pensamento crítico e autoridade profissional. Mas acredito que foi exactamente essa postura firme, aliada à ética, competência e consistência, que me ajudou a construir a profissional que sou hoje.

RC: Ao longo do seu percurso, trabalhou com grandes empresas e projectos de referência. Qual foi o momento mais marcante da sua carreira até agora?
EN: Um dos momentos mais marcantes da minha carreira foi, sem dúvida, a oportunidade que tive enquanto formadora de conhecer as 18 províncias de Angola e participar na abertura de mais de 42 postos de trabalho a nível nacional. Essa experiência aproximou-me profundamente da nossa cultura, dos hábitos, costumes, necessidades e dores do nosso povo.
Foi uma vivência de Cabinda ao Cunene que me fez perceber que Angola não é apenas Luanda. Temos muito capital humano de qualidade espalhado pelas diferentes províncias, pessoas talentosas, capazes e com enorme vontade de crescer. O que muitas vezes falta são oportunidades, orientação e acesso ao desenvolvimento.
Essa experiência teve um impacto muito forte em mim, não apenas enquanto profissional, mas também enquanto ser humano, porque permitiu-me olhar para o país de uma forma mais ampla, mais sensível e mais consciente da responsabilidade que temos enquanto profissionais ligados ao desenvolvimento de pessoas.
Outro momento muito marcante foi a oportunidade que tive, enquanto Coordenadora de Formação, de visitar Moçambique a convite do CEO da Puma Energy, Ivanilson Machado, para realizar um diagnóstico de necessidades de formação. Foi a primeira vez que tive contacto directo com uma realidade profissional e cultural diferente da nossa. Fui muito bem acolhida e essa experiência reforçou em mim a certeza de que estava no caminho certo e no ritmo profissional que sempre desejei construir.
Poderia enumerar vários momentos importantes ao longo da minha trajectória, porque cada desafio, cada projecto e cada experiência contribuíram para moldar a profissional que sou hoje. Todos eles tiveram um impacto significativo no meu crescimento e ajudaram a consolidar o meu percurso na área de desenvolvimento humano e organizacional.
RC: Enquanto especialista em Desenvolvimento Humano, quais são os erros mais comuns que os jovens angolanos cometem ao entrar no mercado de trabalho?
EN: Um dos erros mais comuns que muitos jovens angolanos cometem ao entrar no mercado de trabalho é não definirem uma estratégia de crescimento a curto, médio e longo prazo. Muitos procuram apenas um emprego imediato, sem perceber que a carreira deve ser construída com visão, posicionamento e objectivos bem definidos.
Eu acredito que qualquer jovem que esteja à procura de uma oportunidade deve pensar estrategicamente no seu percurso profissional, procurando experiências que lhe permitam ganhar competências, maturidade, posicionamento e crescimento, aproveitando as ferramentas e oportunidades que o mercado oferece actualmente.
Outro ponto que considero preocupante é o excesso de vaidade e, em alguns casos, o ego. Muitos jovens têm receio de começar pequeno, de colocar a mão na massa ou até de trabalhar fora da sua área de formação. E a verdade é que todos nós precisamos de começar de algum lugar. Muitas vezes, aquela oportunidade que aparentemente não era a ideal pode tornar-se exactamente a porta que irá abrir novos caminhos, gerar visibilidade e criar oportunidades maiores no futuro.
Os jovens precisam permitir-se viver experiências diferentes, porque são essas experiências que nos moldam, nos disciplinam, nos desenvolvem e nos preparam para voos mais altos. Nenhuma experiência é perdida quando existe vontade de aprender, crescer e evoluir.
RC: A Euridice sempre demonstrou um cuidado especial com a imagem e apresentação pessoal. Até que ponto o posicionamento e a imagem influenciam o crescimento profissional?
EN: (Risos…) Há uma frase que diz: “Vista-se para o cargo que pretendes ocupar”. Por isso, acredito que posicionamento e imagem influenciam profundamente o crescimento profissional, porque antes mesmo de abrirmos a boca, a nossa imagem já comunica quem somos, como pensamos e o nível de cuidado que temos connosco e com o ambiente onde estamos inseridos.
E quando falo de imagem, não me refiro apenas à roupa ou aparência física. Falo também da postura, da comunicação, da forma como tratamos as pessoas e da nossa presença.




