Num mercado cada vez mais competitivo, onde a inovação, a liderança e a capacidade de adaptação definem o sucesso das organizações, há profissionais que se destacam por transformar desafios em oportunidades e criar modelos sustentáveis de crescimento. É o caso de Josemara António dos Santos, consultora em estratégia comercial, especialista em gestão e organização de equipas de marketing e vendas e uma das vozes que mais tem contribuído para a evolução da cultura empresarial em Angola.
Formada em Organização e Gestão de Empresas e fundadora da Global Business Corporate, Josemara tem liderado processos de transformação em empresas de diversos sectores, apostando na eficiência operacional, na diferenciação estratégica e na construção de equipas orientadas para resultados. Reconhecida pelo seu método próprio de diagnóstico e reestruturação comercial, dedica-se igualmente à mentoria de empresários e à partilha de conhecimento através de palestras e conferências sobre liderança, performance e crescimento sustentável.

Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, a especialista fala sobre o seu percurso empreendedor, os principais desafios enfrentados pelas empresas angolanas, a importância da imagem profissional, a liderança feminina e como os jovens podem construir carreiras sólidas e equilibradas num contexto em constante transformação. Ao longo da conversa, deixa ainda uma mensagem poderosa: o verdadeiro sucesso não se mede apenas pelos resultados alcançados, mas pela capacidade de crescer sem perder a paz, a identidade e o equilíbrio pessoal.
RC: A sua trajectória profissional é marcada pela transformação de equipas comerciais e pela criação de estratégias de crescimento. O que a motivou a seguir o caminho da gestão comercial e da consultoria empresarial?
JS: Desde muito nova que tenho um olhar muito natural para os negócios. Entre os 13 e os 15 anos já criava pequenos negócios e procurava formas de os fazer crescer. Aos 18 anos abri a minha primeira empresa e ela acabou por falir. Foi uma experiência difícil, mas também uma das mais valiosas da minha vida, porque me levou a perceber que o problema não era a falta de esforço, mas sim a falta de estrutura. Quando comecei a trabalhar com outros empresários, percebi que muitos enfrentavam exatamente o mesmo desafio: bons produtos, boas equipas e muito trabalho, mas pouca organização e processos pouco claros.
Foi aí que decidi aprofundar os meus conhecimentos e dedicar-me à consultoria empresarial. Hoje, depois de mais de uma década a empreender, estudar e trabalhar lado a lado com empresários, o que mais me motiva não é apenas aumentar vendas, mas ajudar empresas a crescer com estrutura, previsibilidade e mais tranquilidade para os seus líderes.
RC: Como fundadora da Global Business Corporate, quais considera serem os maiores desafios enfrentados actualmente pelas empresas angolanas na gestão das suas equipas de vendas e marketing?
JS: Na minha opinião, os maiores desafios passam pela falta de processos claros, indicadores de desempenho, rotinas de gestão, formação contínua das equipas e alinhamento entre marketing e vendas.
No entanto, acredito que todos estes desafios têm uma origem comum: muitos empresários e gestores nunca aprenderam verdadeiramente a gerir uma operação comercial. Como consequência, é comum atribuírem os problemas à equipa, quando muitas vezes a raiz está na falta de estrutura e direcção. Quando um líder compreende a gestão comercial, consegue tomar melhores decisões sobre pessoas, marketing, formação, tecnologia e investimento. Por isso, acredito que a transformação de uma equipa começa sempre pela transformação da liderança.
RC: É reconhecida pelo seu método próprio de diagnóstico e reestruturação comercial. O que diferencia esta abordagem das práticas tradicionais existentes no mercado?
JS: Acredito que a principal diferença da nossa abordagem é que não nos focamos apenas nos sintomas. Muitas empresas procuram soluções rápidas para aumentar vendas e, por isso, concentram-se apenas em treinamentos comerciais.
Nós seguimos uma lógica diferente. Através da nossa metodologia, começamos por identificar e auditar os principais gargalos que estão a limitar os resultados da empresa. Para nós, a falta de vendas, a baixa produtividade ou mesmo as dificuldades da equipa são, muitas vezes, apenas sintomas de problemas mais profundos na estrutura comercial. Além disso, trabalhamos o negócio como um sistema e as pessoas como pessoas. Não desenvolvemos apenas competências técnicas; procuramos também desenvolver comportamentos, mentalidade e capacidade de execução. Acreditamos que resultados sustentáveis surgem quando existe alinhamento entre estrutura, processos, cultura e pessoas.
RC: Num vídeo recente, abordou a questão das pessoas que não valorizam a sua imagem no local de trabalho. Na sua opinião, por que razão muitos profissionais ainda subestimam o impacto da imagem pessoal na construção da carreira?
JS: Acredito que muitos profissionais ainda subestimam o impacto da imagem porque associam imagem apenas à aparência física ou à forma de vestir. Mas a imagem profissional é muito mais do que isso. É a forma como comunicamos, como nos apresentamos, como nos posicionamos e como somos percebidos pelas outras pessoas.
A competência é fundamental, mas a verdade é que as pessoas formam percepções antes mesmo de conhecerem o nosso trabalho. A imagem transmite mensagens sobre profissionalismo, credibilidade, atenção ao detalhe e respeito pelo contexto em que estamos inseridos. Por isso, vejo a imagem profissional não como uma questão de vaidade, mas como uma ferramenta de comunicação e posicionamento.
RC: Até que ponto a forma de vestir, comunicar e apresentar-se pode influenciar oportunidades de negócio, promoções e relações profissionais?
JS: Nós comunicamos o tempo todo, de forma intencional ou não. Existe, inclusive, o conceito de branding pessoal, que nos lembra que, independentemente de estarmos a gerir ou não a nossa imagem, as pessoas estão constantemente a formar percepções e a tirar conclusões sobre quem somos.
Essas percepções influenciam directamente as oportunidades que recebemos. Seja uma oportunidade de negócio, de emprego, de parceria ou até de relacionamento profissional, a forma como somos percebidos tem impacto nas decisões que os outros tomam em relação a nós.
Não basta apenas ser competente. É importante que a nossa imagem, comunicação e comportamento estejam alinhados com o valor que temos para oferecer. Infelizmente, há profissionais extremamente competentes que limitam as suas oportunidades por não cuidarem dessa percepção, enquanto outros conseguem abrir mais portas porque trabalham a forma como se apresentam ao mundo.
RC: Considera que existe uma cultura de valorização da imagem profissional em Angola ou ainda há um longo caminho a percorrer neste aspecto?
JS: Acredito que Angola tem evoluído bastante neste aspecto. Hoje vejo cada vez mais profissionais, empresários e empreendedores preocupados com a sua marca pessoal, com a forma como comunicam e com a sua presença no mercado.
No entanto, ainda existe um longo caminho a percorrer. Muitas pessoas continuam a associar imagem profissional apenas à aparência física ou à forma de vestir, quando, na realidade, ela também envolve comunicação, comportamento, postura, credibilidade e coerência. Na minha opinião, estamos num momento de transição. Existe uma consciência crescente sobre a importância da imagem profissional, mas ainda há muito espaço para compreendermos que a forma como somos percebidos pode influenciar directamente os nossos resultados e oportunidades.
RC: Como avalia o actual lifestyle angolano, sobretudo entre os jovens profissionais e empreendedores que procuram destacar-se num mercado cada vez mais competitivo?
JS: Vejo uma geração muito mais ambiciosa, informada e aberta a novas oportunidades do que há alguns anos. Hoje, muitos jovens profissionais e empreendedores estão a investir mais no seu desenvolvimento, a procurar conhecimento e a pensar em construir algo próprio.
Por outro lado, também vejo uma pressão crescente para alcançar resultados rápidos. As redes sociais deram-nos acesso a mais informação e inspiração, mas também criaram uma cultura de comparação constante. Em alguns casos, existe uma preocupação maior em parecer bem-sucedido do que em construir bases sólidas para o sucesso.
Acredito que o grande desafio desta geração é encontrar o equilíbrio entre visibilidade e consistência, entre a velocidade e a construção de algo sustentável a longo prazo.
RC: Na sua experiência como mentora, quais são os erros mais comuns que empresários e líderes cometem quando tentam construir equipas de alta performance?
JS: Um dos erros mais comuns é acreditar que uma equipa de alta performance se constrói apenas contratando pessoas talentosas. O talento é importante, mas sem liderança, processos claros, acompanhamento e cultura, dificilmente se conseguem resultados consistentes.
Vejo também muitos empresários a quererem equipas extraordinárias sem investirem no desenvolvimento das pessoas, na comunicação, na definição de expectativas e na criação de um ambiente de responsabilidade e crescimento. Outro erro frequente é exigir autonomia sem criar as condições para que ela exista.
Muitas vezes, o líder espera que a equipa funcione de forma autónoma, mas não fornece as ferramentas, os indicadores ou a direcção necessária para que isso aconteça. Uma equipa de alta performance é construída intencionalmente através de liderança, cultura e gestão.
RC: A liderança feminina tem conquistado cada vez mais espaço no mundo empresarial. Quais os principais desafios e oportunidades que as mulheres angolanas encontram hoje ao assumir cargos de liderança?
JS: Acredito que hoje existem mais oportunidades para as mulheres assumirem posições de liderança do que existiam há alguns anos, o que é extremamente positivo.
No entanto, ainda enfrentamos desafios importantes, desde expectativas sociais até à necessidade de equilibrar diferentes papéis na vida pessoal e profissional. Mas existe um desafio sobre o qual se fala pouco: na busca pelo sucesso e pela liderança, muitas mulheres acabam por se afastar de si mesmas, do seu equilíbrio e até da sua própria essência.
Vejo muitas mulheres a sentirem que precisam de escolher constantemente entre diferentes áreas da vida ou a viverem sob uma pressão permanente para dar conta de tudo. Para aquelas que desejam ser mães, por exemplo, nem sempre o auge da carreira coincide com o momento ideal para a maternidade. São decisões muito pessoais e, muitas vezes, difíceis. Por isso, acredito que a verdadeira liderança feminina não passa apenas por ocupar espaços de poder, mas também por conseguir construir uma vida alinhada com os nossos valores, sem perder a nossa identidade no processo.
RC: Que conselhos deixaria aos jovens profissionais e empreendedores que desejam construir uma carreira sólida, diferenciada e sustentável em Angola?
JS: O meu principal conselho é que não tenham pressa. Vivemos numa época em que existe muita pressão para mostrar resultados rápidos, mas carreiras sólidas e empresas sustentáveis constroem-se com tempo, consistência e aprendizagem contínua. Invistam em conhecimento, mas também em execução.
Procurem desenvolver competências técnicas, inteligência emocional, capacidade de relacionamento e disciplina. E, acima de tudo, aprendam a criar estrutura desde cedo, porque o crescimento sem estrutura acaba por gerar mais problemas do que soluções. Por fim, não tenham medo de errar.
Muitos dos maiores aprendizados da minha vida vieram de experiências que não correram como eu esperava. E nunca se esqueçam de que o sucesso não deve custar a vossa paz, a vossa saúde, a vossa família ou a vossa vida pessoal. Crescer é importante, mas crescer com equilíbrio é ainda mais importante.
