Há histórias que nascem da necessidade, outras da paixão. A de Henrique da Costa Faria (@bandula_official_) nasce da combinação de ambas, alimentada pela perseverança, pela fé e por um profundo orgulho nas suas origens. Natural do bairro Prenda, no município da Maianga, em Luanda, o técnico de serigrafia e design gráfico iniciou o seu percurso profissional aos 15 anos na empresa familiar Gráfica Emanuel, onde aprendeu os fundamentos que mais tarde serviriam de alicerce para o seu sonho empreendedor. Em 2021, após enfrentar os desafios impostos pela pandemia, transformou uma ideia simples numa marca com identidade própria: a BANDULA, um projecto que une moda, cultura, história e superação.

Muito mais do que uma marca de vestuário, a BANDULA nasceu para contar histórias e preservar memórias. Inspirada nas vivências do seu fundador, a marca procura transmitir mensagens de pertença, orgulho cultural e valorização das raízes angolanas. Com o lema assente na identidade e no reconhecimento da própria história, Henrique acredita que cada peça deve representar quem somos e de onde viemos, transformando a moda numa poderosa ferramenta de afirmação cultural.
Numa entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, o CEO da BANDULA fala sobre os desafios enfrentados durante a pandemia, a influência do bairro Prenda na construção da marca, a importância da fé no seu percurso, o futuro da moda angolana e a ambição de transformar a BANDULA numa referência africana e internacional.
RC: A BANDULA nasceu durante um dos períodos mais desafiantes da história recente. Como conseguiu transformar as limitações impostas pela pandemia numa oportunidade de negócio e crescimento?
HF: Acreditando que as coisas não mudariam se eu não tomasse a decisão de mudar a minha história, partindo do pressuposto de que:
“Ninguém fará nada por nós se não nós mesmos”.
RC: O seu lema destaca a importância das memórias, da história e das origens. De que forma o bairro Prenda e o município da Maianga influenciam a identidade da marca BANDULA?
HF: O bairro Prenda teve um papel crucial na minha infância, lembro-me dos valores passados, em casa ou na vizinhança, onde o vizinho participava na educação do filho do vizinho, cultivava-se o respeito mútuo, actividades culturais e solidárias aos natais, partilha de histórias com os mais velhos do bairro Prenda, rua T. São memórias vivas que me motivam a conservar essa rica cultura.
RC: Começou a trabalhar aos 15 anos numa empresa familiar. Que lições adquiridas nessa fase continuam a orientar as suas decisões enquanto empreendedor?
HF: Uma das lições que carrego é de não ser egocentrista e ganancioso, dar aos outros a oportunidade de crescimento.
RC: A serigrafia e o design gráfico foram os seus primeiros contactos com o mundo criativo. Como essas competências contribuíram para a construção da linguagem visual da BANDULA?
HF: O design e a serigrafia contribuíram de forma significativa para a construção da linguagem visual da marca, usando capacidades criativas com domínio de diversos materiais: tintas, tecidos, telas apropriadas para timbragem, materializamos as ideias do papel para as artes que exibimos.
RC: Em vários momentos do seu percurso foi alvo de descrença e críticas. O que o manteve firme quando muitos duvidavam do seu potencial?
HF: O que me manteve firme é a minha fé, apoiando-me nas escrituras sagradas, na carta de Paulo aos Filipenses: “Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece” (Filipenses 4:13). Do improvável ao provável, eu sou uma prova do agir de Deus. E quando Ele age, quem impedirá?

RC: A sua marca procura contar histórias através da moda. Que mensagem pretende transmitir a cada pessoa que veste uma peça da BANDULA?
HF: A mensagem que pretendo transmitir é a nossa identidade expressada no mínimo detalhe, como lembrete de quem somos. É uma responsabilidade nossa.
RC: Qual considera ter sido o momento mais marcante da sua trajectória empreendedora desde a criação da empresa em 2021?
HF: O momento que mais nos marcou foi a nossa apresentação como marca na primeira edição da Feira de Startups, um projecto anual do meu amigo e irmão Hélio Morais. Fomos surpreendidos com o impacto que a BANDULA causou nas pessoas num primeiro contacto. Sendo a nossa primeira apresentação, o resultado foi satisfatório e confirmou aquilo em que já acreditávamos.
RC: A herança empreendedora da sua família teve um papel importante na sua formação. Que valores familiares procura preservar e transmitir através do seu trabalho?
HF: Ser grato e humilde acima de tudo, dar oportunidade de crescimento pessoal aos nossos colaboradores.
RC: Hoje, a BANDULA inspira muitos jovens. Que conselhos daria a quem deseja empreender, mas sente medo de falhar ou de não ser levado a sério?
HF: O meu conselho é: conheça e identifique o seu potencial. O foco e a determinação definirão o seu resultado.
RC: Acredita que a moda angolana está a valorizar suficientemente a cultura, a identidade e as histórias locais ou ainda há um longo caminho a percorrer?
HF: Ainda há um longo caminho a percorrer por conta da influência considerável do Ocidente. A Nigéria é um diferencial da moda africana por considerar e valorizar a cultura local, por isso os seus trajes estão entre os mais valorizados. Precisamos de aceitação e confiança em nós mesmos.
RC: Quais são as maiores ambições para a BANDULA nos próximos anos e como imagina a marca a representar Angola no panorama internacional da moda?
HF: Ambicionamos, nos próximos anos, sermos os melhores de África no estilo, com trabalho e disciplina. Quando se falar de moda, queremos que a BANDULA seja a maior referência.
RC: O lifestyle angolano tem evoluído significativamente nos últimos anos. Como vê a relação dos jovens angolanos com a moda, o empreendedorismo e a valorização da sua própria identidade cultural?
HF: A juventude tem passado por uma transformação muito forte. Os jovens angolanos estão cada vez mais conectados com a moda, buscando expressar as suas individualidades. A moda tem sido uma ferramenta poderosa de embarque ao empreendedorismo, na criação de marcas locais, trazendo inovação e valorizando a nossa identidade cultural.
