Movida pela paixão, pela espiritualidade e por uma permanente busca criativa, a artista plástica angolana House of OkitO tem vindo a afirmar-se através de uma linguagem abstrata que transforma emoções e vivências em obras carregadas de significado. Há nove anos dedicada à pintura, encontrou na arte um caminho de autodescoberta, fazendo do acrílico sobre tela o seu principal meio de expressão.
Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate, House of OkitO abre as portas do seu universo criativo, fala sobre a sua trajetória, o papel terapêutico da arte, as inspirações que moldam o seu trabalho e a forma como acredita que a criação artística pode estabelecer pontes entre culturas, despertar consciências e tocar profundamente quem observa as suas obras.

RC- Quém é Okito e como nasceu a identidade artística House of Okito?
HO- House of Okito nasceu da necessidade de separar a pessoa do artista. Quando transcendo para a dimensão artística, sou uma personagem totalmente diferente, sem tabu, sem medo… Estava à procura de um nome que refletisse verdadeiramente quem sou nesse estado. E um dia, num momento de alinhamento, o nome Okito ressoou na minha mente. Descobri depois de algumas pesquisas que é uma expressão japonesa que significa (um campo de arroz virado para o mar) uma imagem que traduz perfeitamente a serenidade, a paciência do cultivo, a imensidão da minha criatividade e profundidade emocional que trago para cada tela.
RC- O desenho acompanha-a desde a infância. Em que momento percebeu que a arte deixaria de ser um passatempo para se tornar um projeto de vida?
HO- Inicialmente, fazia arte apenas por prazer e partilhava com o meu círculo mais próximo. Tudo mudou quando as pessoas começaram a notar a forma cuidadosa como eu curava o meu trabalho e a pedir-me peças personalizadas. Antes de pintar, eu sentava-me com cada pessoa por uma ou duas horas para conversar, entender as motivações e capturar a verdadeira essência de quem ela era. Quando percebi o impacto profundo dessas conexões e vi que as pessoas valorizavam o meu trabalho a ponto de investir nele, compreendi o seu potencial profissional. Ganhei a confiança e o incentivo necessários para sair do meu círculo privado, assumir a arte publicamente e torná-la o meu projeto de vida para alcançar um público maior.
RC- O seu trabalho desenvolve-se no universo da pintura abstrata. O que a atrai nesta linguagem artística?
HO- A liberdade total. A pintura abstrata permite-me traduzir o invisível, emoções complexas, pensamentos e estados de espírito, sem as limitações da figuração realista. A mente humana e os sentimentos não são formas geométricas perfeitas nem realistas. O abstrato e o surrealismo dão-me a liberdade de desconstruir a ‘’realidade’’ figurativa e de criar universos onde o sonho, a psicologia e a espiritualidade coexistam na mesma tela. A abtracção dá mais liberdade a mente viajar, pois a cada olhar ela se transforma, nos contando assim mil histórias em uma tela.

RC- Afirma que a pintura é um processo terapêutico. De que forma a criação artística contribui para o seu equilíbrio emocional?
HO- Para mim, a tela funciona como um espelho e um diário. A terapia visual permite-me organizar o caos interno, processar inquietações e transformar vulnerabilidade em força através do movimento e da cor. Eu me sinto livre e mais serena quando estou criando.
RC- As suas obras carregam um forte significado espiritual. Como essa dimensão influencia o seu processo criativo?
HO- A dimensão espiritual traz intenção a cada pincelada. Antes de ser um ato técnico, a criação é um momento de introspecção e silêncio. Deixo que a intuição guie a composição das cores e das formas. Assim consigo ser uma tradutora do além.
RC- O que pretende despertar nas pessoas quando observam os seus trabalhos?
HO- Procuro despertar um momento de pausa, reflexão e empatia, não uma reação passiva ou apenas estética; quero que o observador sinta uma ressonância interna, que se reconheça na vulnerabilidade ou na força transmitida pela obra e que encontre nela um espaço de reflexão. Que possa ver as minhas obras não só como imagens, mais como artefatos que lhe ajude a superar, encontrar-se, e a sobreviver. Um terapeuta que poderá consultar a qualquer momento.

RC- Participou na Residência Artística 2026, promovida pelo projeto ResiliArt Angola. Como descreve essa experiência?
HO- Foi a minha primeira residência artística e foi uma experiência extraordinária. Sendo uma pessoa naturalmente introvertida, estar num ambiente de grupo, normalmente prefiro observar em silêncio. No entanto, a residência provou a minha capacidade de me adaptar e de prosperar em novos ambientes: participei ativamente em todas as dinâmicas, desenvolvi mais as minhas competências interpessoais e inspireime profundamente no trabalho dos outros artistas. Apesar das diferenças culturais e não só, a experiência mostrou-me que consigo lidar com novos desafios e integrar a minha visão num espaço coletivo de grande aprendizagem.
RC- A residência reuniu artistas de diferentes áreas e nacionalidades. Que aprendizagens retirou desse intercâmbio cultural?

HO- Sendo do Norte, sei que cada província tem as suas próprias tradições, línguas e cultura. Esta residência permitiu-me aprender mais sobre o nosso país, sobre a história pessoal de cada artista. Aprendi a olhar além das diferenças de idioma ou de pensamento para focar no que é verdadeiramente essencial: a experiência humana que partilhamos. Apesar de virmos de origens diferentes, partilhamos a mesma essência e o mesmo ADN. Aprender a ver além dessas barreiras ajudou-me a experienciar os outros de forma mais profunda e a crescer tanto pessoal como artisticamente.
RC- Um dos momentos marcantes foi a masterclass conduzida por Grace Évora. O que mais a inspirou nesse encontro entre a música e as artes visuais?
HO- O que mais me inspirou foi entender o ponto de vista de um músico profissional com anos de carreira. Como alguém que também já escreveu músicas no passado, foi fascinante perceber que a jornada e o processo criativo de um cantor e um artista plástico são extraordinariamente parecidos: ambos passamos pelas mesmas fases e desafios. Apesar das nossas obras de arte não cantarem, têm a sua própria linguagem. Não o conhecia bem antes da residência, por isso foi incrível aprender sobre a sua trajetória de vida. Ver a sua atuação ao vivo no concerto e testemunhar o público a cantar com ele completou essa experiência, mostrando-me o poder universal de conectar pessoas através da arte.

RC- Acredita que diferentes expressões artísticas podem dialogar entre si? De que forma a música influencia a sua pintura?
HO- Sem dúvida. A música define muitas vezes o ritmo e a energia das minhas pinceladas no. Esse diálogo interdisciplinar é fundamental para manter o processo criativo vivo e dinâmico. Tal como mudança de ritmo pode afetar significativamente a direção de uma pintura, desde a escolha das cores, formas etc.
RC- A residência teve como tema central a justiça social e a cultura de paz. Como é que estas questões se refletem na sua obra?
HO- Refletem-se através da busca por equidade, reconciliação e profunda introspecção. Para mim, a justiça vai além da dimensão social, ela toca também a justiça divina, aquela ordem espiritual que traz equilíbrio, verdade e dignidade à experiência humana. Nas minhas obras, abordo as guerras internas e os conflitos sociais como convites para a transformação. Procuro criar telas que promovam o reconhecimento mútuo, a empatia e a paz interior, lembrando-nos de que a verdadeira justiça começa na forma como nos vemos a nós mesmos e ao outro.

RC- Temas como desigualdade social, direitos humanos e inclusão estiveram em destaque durante a residência. Enquanto artista, sente que a arte pode contribuir para transformar a sociedade?
HO- Sim, absolutamente. A arte tem a capacidade única de sensibilizar, questionar estruturas e humanizar o mundo em todas as suas disciplinas, do cinema, música às artes visuais, artes marciais e desporto. Vemos isso claramente em grandes eventos globais, como o Campeonato do Mundo, onde pessoas de todas as origens se juntam e celebram apesar das suas diferenças. A arte e a cultura têm esse poder único de sensibilizar, reconciliar e conectar-nos a um nível profundo. Ela abre espaço para a empatia e para o diálogo onde muitas vezes a política falha, mostrando que a transformação social começa na nossa capacidade de nos unirmos.
RC- A visita à comunidade do Mussulo foi um dos momentos mais simbólicos da iniciativa. Que significado teve esse contacto com as crianças?

HO- Foi um momento muito inspirador e de pura conexão. Tivemos a oportunidade de visitar a escola pública apoiada pela Escola Americana de Angola e o Resiliarte, e adorei o trabalho incrível que estão a desenvolver lá. Não se trata apenas de financiar a escola e fornecer materiais, mas de incentivar os jovens a amarem a arte e a colocarem a sua imaginação no papel. O que mais me marcou foi ver como mostram às crianças que os seus pensamentos e a sua imaginação não são aleatórios, que elas têm a capacidade de materializar o que está na sua mente e tornar os seus sonhos realidade. Foi uma lembrança poderosa do verdadeiro propósito da arte: dar forma ao invisível e capacitar as futuras gerações.
RC- Que impacto considera que projectos como o ResiliArt Angola têm na valorização dos artistas e das comunidades?
HO- O impacto é profundo, porque projectos como Resiliarte criam plataformas reais de visibilidade e desenvolvimento. Não valorizam apenas o trabalho do artista, mas também descentralizam a cultura Angolana, exportando-a, levando impacto direto e duradouro às comunidades nacionais e internacionais, mudando assim muitas vidas.

RC- Como recebeu a iniciativa de apoiar a Escola Primária 9045 com acesso à internet e equipamentos tecnológicos?
HO- Com grande entusiasmo. A inclusão digital e o acesso à informação são ferramentas fundamentais para capacitar as novas gerações e abrir horizontes para o futuro. Dando assim a oportunidade de maior descoberta e desenvolvimento as crianças.
RC- Na sua opinião, qual é o papel da educação artística no desenvolvimento das novas gerações?
HO- A educação artística desenvolve o pensamento crítico, a empatia e a liberdade de expressão. Ensina as crianças a processarem as suas emoções, expressar-las e a ver o mundo com mais sensibilidade e inovação.
RC- Sendo natural de Cabinda, de que forma a sua terra natal influencia a sua identidade artística?
HO- Apesar de ter passado uma parte da minha infância fora de Angola entre comunidades centro e oeste africanos, Cabinda é a minha raiz mais profunda. As nossas tradições e a forte ligação ao espiritual e à ancestralidade moldam a minha sensibilidade estética e a força da minha voz.
RC- Como descreveria a evolução da sua carreira ao longo destes anos dedicados à pintura?
Tem sido uma jornada de amadurecimento constante. Passei de uma busca inicial por expressão para uma prática estruturada, focada na pesquisa de conceitos, grandes séries e projetos interdisciplinares. Continuo a aprender e adaptar-me a esta jornada, conhecendo mais as diferentes comunidades artísticas

RC- Quais foram os maiores desafios que enfrentou para afirmar o seu trabalho no panorama artístico angolano?
HO- O principal desafio foi afirmar uma linguagem abstrata e conceptual num mercado por vezes acostumado a abordagens mais tradicionais e realistas, além do acesso as plataformas, foi também lidar com as pessoas certas que podiam entender o meu trabalho na sua plenitude.
RC- Existe alguma obra da sua autoria que considere especialmente marcante? Qual é a história por detrás dela?
HO- Humm, são várias, mas entre elas posso destacar a obra Interlude. Ela captura a sensação partilhada por milhares de pessoas diariamente. Imagina que cada vez que fechar os olhos tivesse uma escada que lhe levasse para uma dimensão onde podia ser quem quiser. Ela materializa a ideia de que, cada vez que fechamos os olhos, abrimos uma porta para outro lugar no tempo ou no espaço. Na tela, sete anéis funcionam como portais: seis simbolizam o infinito, os nossos desejos, erros e a capacidade de recomeçar, enquanto o sétimo representa as decisões radicais, sem volta que moldam o nosso caminho para sempre. É um convite a lembrar que as possibilidades são infinitas, que temos a possibilidade e devemos nos permitir mesmo no meio do caos sonhar ou escapar par um sítio para encontrar paz, serenidade, amor, força, fé, etc… E trazer estes elementos conosco para tornar o nosso quotidiano mais leve viver no aqui e agora.

RC- Que mensagem gostaria de deixar aos jovens que desejam seguir uma carreira nas artes visuais?
HO- Sejam fiéis à vossa voz e não tenham medo da vulnerabilidade, ou da rejeição. A técnica aprimora-se com o tempo, mas a autenticidade e a intenção por trás do trabalho são o que realmente permanece.
RC- Que novos projetos ou exposições gostaria de concretizar nos próximos anos?
HO- Quero expandir o meu projeto interdisciplinar The Point, integrando a pintura com documentário e instalações imersivas, além de realizar exposições coletivas e individuais a nível internacional.
RC- Como imagina a House of Okito daqui a dez anos?
HO- Imagino a House of Okito consolidada como uma artista reconhecida globalmente, com presença em grandes galerias e instituições, continuando a levar a minha voz e a arte contemporânea Angolana para palcos internacionais. Com isso também representar melhor Cabinda e inspirar novos talentos de Angola para fora.
RC- Se pudesse resumir a sua missão enquanto artista numa única frase, qual seria?
HO- Usar a arte para promover a cura interior e criar pontes de equidade entre as pessoas.