Versátil, sensível e profundamente comprometida com a transformação social, Rossana Lueiji tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais inspiradoras da nova geração de criativos angolanos. Escritora, artista plástica, declamadora, actriz, formadora, palestrante e activista social, faz da arte e da palavra instrumentos de reflexão, empoderamento e mudança, conciliando o seu percurso artístico com os estudos em Engenharia e Gestão Industrial.

Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate, Rossana Lueiji partilha o percurso que a levou a transformar a escrita e a arte na sua missão de vida, revela as inspirações que alimentam a sua criatividade, fala sobre o seu compromisso com a educação e o activismo social e explica de que forma acredita que a cultura pode contribuir para a construção de uma sociedade mais consciente, inclusiva e humana.
RC-Como se apresentaria a quem ainda não conhece o seu trabalho?
RL- Sou Rossana Lueiji, artista multidisciplinar, escritora, pintora, formadora e estudante de Engenharia de Gestão Industrial. Acredito que a arte é uma ferramenta de diálogo, memória e transformação social. O meu trabalho procura despertar emoções, incentivar a reflexão e dar voz a histórias que muitas vezes permanecem em silêncio.

RC- Como é que a sua origem na Lunda Norte influenciou o seu olhar artístico e literário?
RL- Nascer na Lunda Norte ensinou-me a valorizar as raízes, a oralidade e a riqueza cultural do nosso povo. Cresci rodeada de histórias, tradições e diferentes formas de resistência que moldaram a minha forma de observar o mundo. Carrego essa identidade em tudo o que escrevo e crio.
RC- Quando percebeu que a arte e a escrita fariam parte central da sua vida?
RL- Desde muito cedo encontrei na escrita um lugar seguro para organizar os meus pensamentos e emoções. Com o passar dos anos compreendi que não era apenas um talento, mas um propósito. A partir desse momento decidi dedicar-me seriamente à arte, transformando-a numa missão de vida.

RC- De que forma se define enquanto artista multidisciplinar?
RL- Vejo-me como alguém que comunica através de diferentes linguagens. Escrevo, pinto, faço formação, participo em projectos culturais e acredito que cada expressão artística complementa a outra. Para mim, não existem fronteiras entre as artes quando o objectivo é comunicar.
RC- O que a inspira no momento de criar, seja na literatura ou nas artes plásticas?
RL- As pessoas inspiram-me. As suas histórias, dores, alegrias, sonhos e lutas. Também encontro inspiração na fé, nas relações humanas, na natureza e nas pequenas experiências do quotidiano que muitas vezes passam despercebidas.
RC- Como nasce uma ideia sua até se transformar numa obra final?
RL- Tudo começa com uma inquietação. Costumo escrever apontamentos, pesquisar, observar e deixar que a ideia amadureça. Depois construo a narrativa ou a composição artística, revisando várias vezes até sentir que a obra transmite exactamente aquilo que pretendo comunicar.

RC- Existe um tema recorrente que atravessa os seus trabalhos?
RL- Sim. O ser humano. Grande parte das minhas obras aborda identidade, afectos, saúde emocional, violência, esperança, fé e reconstrução. Gosto de explorar aquilo que nos torna vulneráveis e, ao mesmo tempo, resilientes.
RC- Já conta com seis obras literárias publicadas. Que mensagem procura transmitir através delas?
RL- Cada livro procura lembrar ao leitor que a dor não precisa de ser o ponto final da história. Escrevo para que as pessoas se sintam compreendidas, encontrem esperança e descubram que as suas experiências também podem gerar crescimento.
RC- Há alguma obra que considere mais marcante na sua trajectória? Por quê?
RL- Cada obra representa uma fase diferente da minha vida, mas “Entre o Silêncio, o Meu Segredo” ocupa um lugar especial por reunir muitas das reflexões que construíram a mulher e a artista que sou hoje.
RC- Como tem sido a recepção do público ao seu trabalho literário?
RL- Tem sido muito gratificante. O que mais me emociona não são apenas as vendas, mas as mensagens de leitores que dizem ter encontrado conforto, identificação ou coragem através das minhas palavras.
RC- Defende a arte como instrumento de reflexão e transformação social. Como materializa esse propósito no seu trabalho?
RL- Procuro criar obras que iniciem conversas importantes. Acredito que a arte não precisa apenas de ser admirada; deve provocar perguntas, incentivar mudanças e aproximar as pessoas de realidades que muitas vezes preferem ignorar.

RC- Que temas sociais considera mais urgentes de abordar actualmente através da arte?
RL- A violência baseada no género, a saúde mental, a educação, a desigualdade social, a protecção da infância e a valorização da mulher continuam a ser temas urgentes que merecem espaço na produção artística.
RC- Durante essa residência realizou entrevistas à população do Mussulo sobre violência de género. O que mais a impressionou nos testemunhos recolhidos?
RL- O que mais me marcou foi perceber que muitas vítimas carregam a violência em silêncio, por medo, dependência ou falta de apoio. Também me impressionou a força e a coragem de quem, mesmo depois de tantas dores, continua a acreditar na possibilidade de recomeçar. Sempre acreditei que a arte deve estar ao serviço da sociedade. Integrar esta residência foi uma oportunidade de usar a minha voz e o meu trabalho para contribuir para uma causa urgente, promovendo reflexão, diálogo e consciência sobre a violência baseada no género.
RC- De que forma essas histórias influenciaram a sua criação artística e literária?
RL- Ensinaram-me a criar com ainda mais responsabilidade e sensibilidade. Passei a preocupar-me não apenas em representar a dor, mas também a dignidade, a resistência e a esperança presentes em cada história.
RC- Na sua opinião, qual é o maior desafio no combate à violência contra mulheres e crianças em Angola?
RL- O maior desafio continua a ser quebrar o silêncio e combater a normalização da violência. É essencial fortalecer a educação, a denúncia, o apoio às vítimas e a responsabilização dos agressores.

RC- Como pode a arte contribuir para quebrar o silêncio em torno da violência baseada no género?
RL- A arte alcança lugares onde muitas vezes o discurso não chega. Ela desperta emoções, gera diálogo e faz com que as pessoas olhem para realidades difíceis com mais empatia e consciência.
RC- A residência terminou com uma fogueira de partilha, um momento carregado de simbolismo. O que representou para si esse encerramento?
RL- Representou união, escuta e esperança. A fogueira simbolizou a força da comunidade, mostrando que, quando partilhamos as nossas histórias, também partilhamos caminhos para a cura e para a transformação.
RC- Como escritora, procura mais denunciar, sensibilizar ou inspirar esperança através dos seus textos?
RL- Procuro fazer as três coisas. Denuncio aquilo que precisa de ser enfrentado, sensibilizo para realidades muitas vezes invisíveis e procuro sempre deixar uma mensagem de esperança, porque acredito que a mudança é possível.

RC- Qual considera ser a maior responsabilidade de um artista que escolhe abordar causas sociais?
RL- Criar com ética, respeito e compromisso com a verdade. O artista deve dar visibilidade às causas sem retirar a dignidade de quem vive essas realidades.
RC- Ao longo do seu percurso, qual foi o projecto que mais transformou a sua forma de olhar para o mundo?
RL- A residência artística dos 16 Dias de Activismo foi um dos projectos mais transformadores da minha trajectória. O contacto directo com as comunidades fez-me compreender que ouvir é tão importante quanto criar e que a arte ganha mais força quando nasce da realidade das pessoas.
RC- Que mensagem gostaria de transmitir às mulheres e jovens que enfrentam situações de violência ou discriminação?
RL- Gostaria que soubessem que não estão sozinhas. A violência nunca define o valor de uma pessoa. Procurem apoio, falem, denunciem quando for seguro fazê-lo e nunca deixem de acreditar que têm direito a viver com dignidade, respeito e liberdade. A vossa voz tem valor, e a vossa história não termina na dor.
RC- Participou na Residência Artística 2026 dedicada à justiça social e à cultura de paz. Que impacto teve essa experiência no seu percurso pessoal e artístico?
RL- Foi uma experiência transformadora. Reforçou a minha convicção de que a arte não deve limitar-se à estética, mas assumir também um compromisso com a sociedade. Saí da residência mais consciente da responsabilidade que temos enquanto artistas de criar obras que provoquem diálogo, empatia e mudança.
RC- Durante a residência, artistas de diferentes áreas partilharam experiências e metodologias. O que aprendeu com esse diálogo interdisciplinar?

RL- Aprendi que cada linguagem artística tem uma forma única de comunicar, mas todas podem convergir para o mesmo propósito. O intercâmbio de experiências mostrou-me que a colaboração fortalece a criatividade e amplia o impacto social da arte.
RC- A masterclass conduzida por Grace Évora aproximou a música das artes visuais. Que ensinamentos retirou desse encontro?
RL- Foi inspirador perceber como diferentes expressões artísticas podem dialogar entre si. Compreendi que o ritmo, a emoção e a narrativa existem tanto na música como na pintura ou na literatura, e que essa ligação torna a mensagem artística ainda mais poderosa.
RC- A residência abordou temas como os direitos humanos, a inclusão e a diversidade cultural. Qual destes temas mais a marcou e por quê?
RL- Os direitos humanos marcaram-me profundamente, porque são a base da dignidade de qualquer pessoa. Acredito que não pode existir paz nem desenvolvimento quando os direitos fundamentais são violados ou ignorados.
RC- Acredita que a arte consegue sensibilizar a sociedade para questões sociais de uma forma mais eficaz do que outros meios?

RL- Acredito que a arte tem uma capacidade única de tocar as emoções. Enquanto alguns meios informam, a arte aproxima, humaniza e cria identificação. Muitas vezes é através de uma pintura, de um poema ou de um livro que uma pessoa passa a compreender uma realidade que antes lhe parecia distante.
RC- A visita à comunidade do Mussulo aproximou os artistas da realidade local. Que memórias guarda desse momento?
RL- Guardo, sobretudo, as conversas e os olhares das pessoas. Foi um momento de escuta e aprendizagem. Estar próximo da comunidade permitiu-me compreender que a arte ganha mais significado quando nasce do contacto directo com as pessoas e das suas vivências.

RC- Como avalia iniciativas que unem arte, educação e solidariedade, como o apoio prestado à Escola Primária 9045?
RL- São iniciativas essenciais. Quando a arte caminha ao lado da educação e da solidariedade, deixa de ser apenas uma forma de expressão e torna-se uma ferramenta de desenvolvimento humano. Investir nas crianças e nas comunidades é investir num futuro mais consciente, mais criativo e mais justo.