Lourença Ngola Ricardo (Ló Ricardo) é uma das vozes mais multifacetadas e inspiradoras no panorama do ensino, da gestão e da comunicação em Angola. Professora auxiliar na Universidade Agostinho Neto, doutoranda em Gestão e mestre em Administração e Políticas Públicas pelo ISCTE, Ló Ricardo combina a rigorosa reflexão académica com um conhecimento profundo das dinâmicas sociais e económicas do país. À frente de projectos emblemáticos como a Rádio Ofitanda e os programas A Hora do Empreendedor e Minuto do Saber, a sua missão centra-se em democratizar o acesso ao conhecimento prático e transformador.
Em entrevista exclusiva à Revista Chocolate Lifestyle, Lourença Ricardo partilha a sua visão transversal sobre os desafios na capacitação da juventude angolana e desvenda a génese do seu e-book Zunga – A Lógica da Zungueira. Com uma abordagem inovadora, a autora explica como a resiliência diária e as estratégias intempestivas do comércio informal contêm valiosas lições de negócios, reforçando a importância de unir a tradição ao ecossistema digital contemporâneo.

A jornada de líderes e mentoras em Angola reflecte a força transformadora da mulher no ecossistema empresarial e social, tal como acompanhámos ao destacar como Michelle Ramos transformou desafios e crises em negócios de impacto em Luanda, provando que a determinação e a reinvenção são pilares do progresso nacional.
RC.: A sua trajectória cruza a História, a Gestão, as Políticas Públicas, a formação e a comunicação. De que forma esta diversidade de áreas contribuiu para a profissional que é hoje?
LR.: Esta diversidade de áreas foi, para mim, uma grande riqueza. Tornou-me uma profissional com conhecimento transversal, mas também especializado, e isso faz toda a diferença, na prática. Cada área deu-me algo diferente. A História ensinou-me a olhar para o contexto, a perceber de onde vim para compreender onde estou.
A Gestão deu-me estrutura, planeamento e capacidade de execução. As Políticas Públicas ajudaram-me a perceber como as decisões afectam a vida das pessoas e onde estão os vazios que precisam de ser preenchidos. E a formação e a comunicação deram-me a capacidade de transmitir tudo isto de forma simples, para que o conhecimento chegue a quem precisa.
Esta diversidade, dá-me estrutura para idealizar, criar, inovar, estruturar e implementar com método alcançando os resultados a que me proponho face aos meus objectivos. Costumo dizer que ter uma visão ampla não impede a especialização, pelo contrário, reforça-a. Quando se junta o olhar do historiador, a disciplina do gestor, a sensibilidade de quem estuda as políticas públicas e a voz de quem comunica, passa-se a ver soluções onde outros só veem problemas.
RC.: Enquanto professora, formadora, palestrante e mentora, quais considera serem os principais desafios que Angola enfrenta actualmente na formação e capacitação da juventude?
LR.: Para mim, o maior desafio hoje não é apenas pôr mais jovens na escola, é garantir que aprendam o que é relevante e que têm oportunidades reais para aplicar esse conhecimento. Começo pela qualidade do ensino de base, que não passa apenas pelo plano curricular e o Professor em Sala de aula, mas também na dedicação e empenho de cada aluno e a outros níveis do estudante.
Depois, há o desfasamento entre a formação e o mercado de trabalho. Temos muitos graduados em certas áreas e poucos técnicos em áreas como energia, agricultura, saúde e tecnologias de informação e comunicação (TIC).
Por isso defendo que o ensino técnico-profissional deve ser mais valorizado. Ainda é visto como “segunda escolha”, quando deveria ser uma via de excelência, com boas oficinas, formadores actualizados e parcerias com as empresas. Um terceiro ponto é o desemprego juvenil. Quando o jovem estuda e não vê oportunidades, perde a motivação. A economia ainda é pouco diversificada, e muitos acabam na informalidade. Além do diploma, são cada vez mais decisivas as competências digitais, o pensamento crítico, a comunicação, a liderança, as línguas estrangeiras e o empreendedorismo.
Não posso deixar de falar das desigualdades, em termos de género e de acesso aos serviços e oportunidades, o que muitas vezes está associada não só a falta de equipamentos, mas a falta de e a orientação e mentoria. Muitos jovens escolhem o curso sem aconselhamento e sem modelos de referência. É por isso que acredito tanto na mentoria: um jovem que tem alguém a orientá-lo vai mais longe. Em resumo, precisamos de investir em qualidade, em ligação ao mercado e em acompanhamento. Se fizermos isso, a juventude angolana tem todo o potencial para transformar o país.
RC.: É também apresentadora de programas como A Hora do Empreendedor e Minuto do Saber. Que impacto acredita que a comunicação e a partilha de conhecimento podem ter na transformação social e profissional dos angolanos?
LR.: Esta pergunta é muito interessante, repara que o objetivo e o slogan do programa a hora do empreendedor está centrado no conhecimento, “conhecimento que transforma”, conhecimento que é e gera poder”. Porque acredito que a comunicação é uma das ferramentas mais poderosas de transformação que temos, e muitas vezes subestimamo-la. Muita gente não falha por falta de talento, falha por falta de informação/conhecimento.
Um jovem que tem uma ideia de negócio, mas não sabe como formalizar a empresa, como delinear um plano, como aceder a financiamento. Ou um profissional que podia crescer na carreira, mas nunca teve acesso a quem lhe explicasse como. Quando o conhecimento especializado chega à pessoa certa, no momento certo, muda decisões, e as decisões mudam vidas. É isso que procuro fazer em programas como A Hora do Empreendedor e Minuto do Saber.
No primeiro, damos voz a quem está no terreno, a empreendedores angolanos que enfrentaram dificuldades reais e mostram que é possível. No segundo, a ideia é simples: em poucos minutos, deixar uma ideia, uma dica, um conhecimento que a pessoa possa aplicar logo no dia seguinte. Penso também que a comunicação democratiza o conhecimento. Nem todos podem pagar uma formação ou chegar a uma sala de aula, mas muitos têm acesso a uma rádio, a uma televisão ou a um telemóvel.
Quando partilhamos conhecimento nesses meios, estamos a levá-lo a quem tradicionalmente ficava de fora. E há outro efeito que considero fundamental: a mudança de mentalidade. Quando falamos de planeamento, disciplina, educação financeira, inovação, estamos a contribuir para uma cultura de iniciativa e de responsabilidade, e não de espera. O país precisa de mais pessoas que acreditem que podem construir o seu próprio caminho.
Claro que a comunicação, sozinha, não resolve tudo. Precisa de ser acompanhada de políticas, de oportunidades e de acção. Mas é muitas vezes o primeiro passo: é ela que desperta, que inspira e que dá ao jovem a coragem de começar. Por isso, para mim, comunicar não é apenas falar. É servir, é partilhar o que sabemos para que outros possam ir mais longe do que nós.
RC.: Autora do e-book Zunga – A Lógica da Zungueira. O que esteve na origem deste projecto e que realidade pretende apresentar ou questionar através desta obra?
LR.: Com este livro, quero chamar a atenção para duas realidades. A primeira é a própria zunga. Para muita gente, é uma tarefa simples. Para mim, é um movimento, uma verdadeira lição prática de estratégia de mercado, de como escalar um negócio com estrutura e método e de fonte de renda para sustento das famílias e realizações de outros projectos. É daí que nasce o Método Zunga.
Quando olho para a zungueira, vejo uma estratega de mercado. Ela não tem mestrado nem doutoramento em contabilidade ou finanças, mas aplica esses conhecimentos todos os dias, na prática. Mesmo sem se aperceber, têm o perfil do empreendedor: identifica a dor do cliente, encontra uma solução e é paga por isso. A segunda realidade tem a ver com a origem do projecto. Senti a necessidade de explicar, a quem já empreende e a quem sonha empreender, que é possível começar com o que temos e onde estamos, sem recorrer, à partida, a empréstimos nem cair em dívidas.
O ponto de partida é olhar com atenção para as dores dos potenciais clientes e da comunidade onde estamos inseridos. É nessas dores que encontramos o vazio de mercado, e esse vazio pode ser transformado numa oportunidade real de empreendedorismo. Ou seja, o livro convida-nos a mudar o olhar: a lição de empreendedorismo pode estar na rua, ao nosso lado, e muitas vezes já a vemos todos os dias sem lhe dar o devido valor.
RC.: A zunga é uma actividade profundamente ligada à realidade económica e social angolana. O que a “lógica da zungueira” nos ensina sobre empreendedorismo, sobrevivência, resiliência e capacidade de adaptação?
LR.: A lógica da zungueira ensina-nos, antes de mais, que o conhecimento não vive só nas universidades. Ela não tem graduação nem pós-graduação, mas aquilo que faz por instinto e por necessidade pode ser compreendido, organizado e multiplicado como método. É exactamente isso que proponho com o Método Zunga.
Vejamos o que ela faz no dia-a-dia. Ela tem visão, usa método, é resiliente e começa com o que tem. Ela vende confiança, e não apenas produto, e confia no seu cliente. Basta pensar na venda à “kilapi” sem confiança, não há negócio. Ela faz estudo de mercado, ainda que ninguém lhe chame assim. Sabe a melhor hora para baixar o preço e a melhor hora para o subir. Quem não conhece o famoso ‘arreiou, arreiou’ nos mercados dos congoleses e noutros mercados? Sabe qual é o melhor ponto de venda e qual é o horário indicado para lá estar. Ela aprende todos os dias, com a parceira de negócio e com o próprio cliente.
E tem técnicas de atendimento e de persuasão: ‘amiga, comadre, tá barato, amiga, vem, vamos conversar’. Isto é relação, é comunicação, é venda. Além disso, ela tolera o risco, mas está exposta a ele. Pode perder o negócio devido aos fiscais, ou perder o produto por deterioração. E, mesmo assim, levanta-se e recomeça. Isso é resiliência e capacidade de adaptação na sua forma mais pura. Por isso digo, sem sombra de dúvida, que a zunga é uma escola de negócio, na prática. E é por isso que o Método Zunga é tão relevante: porque nos convida a olhar para esta realidade com respeito e a aprender com ela.
RC.: A partir da sua experiência académica e profissional, como analisa o papel das mulheres no empreendedorismo informal e que mudanças considera necessárias para transformar estas iniciativas em oportunidades de crescimento sustentável?
LR.: Antes de mais, quero esclarecer uma coisa: no livro, a informalidade não é entendida como desordem. É uma ponte, um processo a caminho da formalidade. Porque, os clientes tornam-se cada vez mais exigentes, os mercados impõem novas regras de actuação, o negócio é escalável. Chega o dia em que o cliente solicita uma factura. A zungueira face à necessidade de expansão dos pontos de vendas e/ou a necessidade de ter um ponto fixo, tenha, por exemplo, a necessidade de contrair crédito bancário. Nesta situação, a formalização deixa de ser uma imposição e passa a ser uma consequência natural do crescimento do negócio.
É precisamente isso que abordo no capítulo 8 do livro, ‘Da Zunga à Empresa’. Mesmo na informalidade, a mulher empreendedora tem um papel muito importante na economia nacional. Ela não espera que o País resolva as suas faltas, nomeadamente as de infraestruturas. Ela constrói pontes. Ela preenche o vazio do mercado e muitas vezes o vazio institucional, que o Estado e as grandes empresas não preenchem. É a mulher que leva o produto até à porta do cliente, que está onde a necessidade está. Por isso, o desafio não é condenar a informalidade, mas acompanhar esse caminho, para que estas iniciativas se transformem em negócios sólidos e sustentáveis.
Basta pensarmos nas várias iniciativas do Estado, ligado a formalização, simplificação de procedimentos administrativos e acesso ao financiamento de projectos. Gostaria também de realçar o reforço de Primeiro, formação prática em gestão e educação financeira, redes de mentoria e associativismo, processos de formalização mais simples, próximos e acessíveis e acesso a financiamento adequado.
Muitas mulheres não têm garantias nem historial bancário, por isso precisamos de microcrédito com condições justas, grupos de poupança e soluções de pagamento digital, que também ajudam a criar um registo das suas vendas.
RC.: Como observa o lifestyle angolano actual, particularmente os hábitos de consumo, a forma de empreender e a maneira como os jovens conciliam tradição, criatividade e novas tendências?
LR.: Eu observo hoje uma miscigenação de culturas no estilo de vida, nos hábitos e nos costumes. E isso tem implicações directas na forma de empreender. Porque essa mistura permite dar resposta aos problemas das pessoas e tratar a dor do cliente de formas novas.
O jovem angolano de hoje cresce com uma raiz tradicional, ligada à família, à comunidade e ao mercado, mas também com o telemóvel na mão, ligado ao mundo e às novas tendências. Isso vê-se na prestação de serviços, que recorre cada vez mais às novas tecnologias. Temos as vendas online, a terciarização de serviços de entrega, o dropshipping e outras estratégias que permitem vender sem ter, necessariamente, uma loja física ou um grande stock. Mas o mais interessante é que isto acontece sem deixar de lado as práticas e as técnicas do mercado tradicional, que estão estabelecidas há muito tempo e que continuam a funcionar.
A relação de confiança com o cliente, a conversa, a negociação, o saber ler o que a pessoa precisa: tudo isso contínua válido. Contudo, outros canais foram surgindo como WhatsApp, Instagram e outras plataformas digitais.
Por isso, na minha opinião, o futuro do empreendedorismo angolano não está em escolher entre o tradicional e o moderno. Está em combinar os dois. Quem junta a sabedoria do mercado com as ferramentas digitais fica com uma grande vantagem.
RC.:Entre a docência, a comunicação, o empreendedorismo, a mentoria e os seus projectos editoriais, quais são os próximos desafios e iniciativas que Ló Ricardo pretende concretizar?
LR.: Tenho vários projectos em carteira, sobretudo ligados a serviços editoriais e comunicacionais. O próximo passo já tem data marcada: a apresentação do e-book Zunga no mercado do Sequele, no Município do Sequele, na Província do Icolo e Bengo, no dia 30 de outubro. E a escolha do local não é por acaso. Escolhemos um mercado, porque é lá que a lógica da zungueira acontece todos os dias.
Queremos apresentar o livro no meio das pessoas que o inspiram, e não apenas em salas fechadas. O meu desejo é que o Método Zunga chegue a quem mais precisa dele: às mulheres que vendem, aos jovens que querem começar e a todos os que acreditam que é possível empreender com o que temos e onde estamos.