O artista angolano Yonamine, nascido em Luanda em 1975, volta a surpreender o público com uma colaboração singular com a marca portuguesa Clay, um projeto da Cultural Affairs, que reinterpreta o azulejo português através de uma lente profundamente africana. Em entrevista cedida à Revista Chocolate Lifestyle, diz que o resultado é uma obra que transcende a estética e se torna numa autêntica “tela de memória cultural”, onde o passado e o presente, África e Europa, se entrelaçam num diálogo visual e simbólico.

Conhecido pela sua prática multidisciplinar que combina colagem, instalação e vídeo, Yonamine inspirou-se numa fotografia publicada em 1976 no Jornal de Angola, adquirida numa feira lisboeta, para dar forma à criação. A imagem retratava um mukixi — padrão tradicional associado a rituais de circuncisão nas províncias do sul de Angola — e serviu de ponto de partida para uma reflexão sobre identidade, memória e herança cultural.
“O tchinganji era um bailarino encomendado pelos pais para circuncisar os filhos. Fazia parte de um ritual que está a desaparecer”, explicou o artista, destacando a importância de preservar elementos da cultura lunda e chokwe. Para Yonamine, o projeto é uma forma de reavivar tradições e projetá-las num contexto contemporâneo, “trazendo um bocado dos povos Massai e Bakongo para um píxel de jornal retransformado”.

A colaboração com a Clay representa também um reencontro com o próprio fascínio de Yonamine pelos azulejos, símbolo maior da cultura portuguesa: “Uma das coisas que me fez visitar Portugal pela primeira vez foram os azulejos, mas nunca tive oportunidade de trabalhar com este material até agora”.
No entanto, o artista recusa enquadrar a sua obra dentro de fronteiras culturais fixas. “Não acredito que exista uma estética angolana ou portuguesa. Tudo passa pela geometria — e ela vem dos árabes. Estou a trabalhar África dentro de África, mas noutro território, porque os azulejos já vieram de África”, afirma, desafiando visões eurocêntricas e propondo uma nova leitura sobre as origens e apropriações culturais.
A sua visão cosmopolita é reforçada pela experiência de viver e criar entre Atenas, Lisboa e Berlim, cidades que alimentam a sua identidade artística híbrida. “Os artistas são do globo. Angola já foi Portugal, e Portugal já foi Angola. O que me encanta é poder ser híbrido e não pertencer a nenhum”, declara, num manifesto pela liberdade criativa e pela dissolução de fronteiras geográficas e culturais.
Ao transformar um fragmento da história angolana em azulejo, Yonamine não apenas eterniza uma memória, como questiona a forma como as sociedades valorizam as suas próprias raízes: “Até hoje os angolanos dão mais valor a certas coisas a partir do ponto de vista do estrangeiro. Mas os portugueses também têm esse defeito. Talvez seja um traço colonial”, reflete.
Mais do que uma peça decorativa, a sua obra é uma provocação estética e intelectual. É um convite à reflexão sobre a arte enquanto espaço de reparação, reconciliação e reconhecimento. “Acredito que a cultura é a solução para muitos problemas. A arte é o verdadeiro espaço de encontro entre as culturas”, conclui o artista, com a serenidade de quem transforma cada azulejo em testemunho da própria humanidade.




