O prestigiado actor brasileiro Thiago Lacerda desembarcou em Luanda para apresentar o seu mais recente projecto teatral: uma coletânea de monólogos de Shakespeare que nasceu durante a pandemia e que hoje atravessa oceanos para reencontrar públicos de língua portuguesa. Entre pratos aromáticos e o ambiente aconchegante do restaurante Mesa da Fazenda, Thiago recebeu a Revista Chocolate para uma conversa profunda, sensível e cheia de revelações.
Aos 47 anos, carrega quase 28 de carreira, sucessos marcantes na televisão, no cinema e no teatro, e uma dedicação quase espiritual ao acto de contar histórias. Nesta entrevista, mostra o quanto estar em Angola significa bem mais do que uma apresentação artística: é reencontro, reconhecimento e uma ponte afectiva entre povos irmãos.

“Sinto no povo angolano um carinho potencializado pela distância que nos separa”
Logo ao começar a entrevista, Thiago abriu o coração sobre o impacto emocional de estar em Angola. Para ele, apesar da familiaridade cultural entre brasileiros e angolanos, existe também uma curiosidade mútua que torna o encontro ainda mais forte.
“A gente se reconhece muito no povo angolano: no sorriso, no olhar, na língua, na gastronomia, na dança, na música. É impressionante nossa proximidade. E fico feliz de, com o meu trabalho, diminuir essa distância oceânica.”
O espetáculo “Quem Está Aí?”, que Thiago apresenta em Luanda, surgiu de uma necessidade artística no auge da pandemia: a de manter viva a ligação com o público. A proposta partiu de uma colaboração profunda com um director que marcou a sua vida profissional e da investigação intensa que os levou a montar três peças de Shakespeare ao longo destes anos.
“Era importante manter viva a memória daquele momento e também um prazer pessoal dizer Shakespeare, um texto ecoado há mais de 400 anos. Sempre quis trazer esse projeto para os países de língua portuguesa.”
Segundo o actor, Shakespeare continua vivo porque toca no que há de mais universal no ser humano: amor, ódio, inveja, solidão, justiça, dúvida e fé.

“A provocação que Shakespeare faz sobre quem somos é um privilégio para qualquer actor. É uma tradição oral da reflexão humana.”
Mesmo tantos anos depois, Thiago reconhece o impacto que “Terra Nostra” teve na sua vida e na do público.
“A novela tem 25 anos e ainda hoje toca o coração das pessoas. Eu e Ana Paula tínhamos um carisma muito forte em cena. Foi tudo muito envolvente. Sinto-me um privilegiado.”
Nem tudo é glamour na vida de um artista. Ele é transparente ao falar sobre excesso de afecto, invasão de privacidade e o assédio que figuras públicas enfrentam.
“O essencial é o respeito. Há momentos difíceis, mas eu gosto de gente. Aprendi a impor limites e a não acreditar nem nas críticas duras, nem na fantasia de que somos maravilhosos o tempo todo, aprendi a me respeitar e a respeitar os outros.”
Aos 47 anos, vive um momento maduro e equilibrado. É pai de duas meninas e um rapaz, cada um com talentos diferentes. E divide a vida há anos com a esposa, com quem mantém uma parceria sólida e cheia de desafios cotidianos, como qualquer casal.
“Procuro estar presente na vida dos meus filhos, cuidar da saúde, descansar mais e viver perto das pessoas que amo.”
Os filhos, agora mais crescidos, começaram recentemente a assistir o pai ao palco — inclusive ao monólogo baseado em Albert Camus, que Thiago pretende trazer a Angola em 2026.

Thiago revelou que o desejo de unir artistas de língua portuguesa já existe há anos — e quase se concretizou durante a pandemia, num projecto online.
“Acredito muito no intercâmbio entre Brasil, Angola, Moçambique, Portugal e Cabo Verde. Essa mistura pode criar coisas muito potentes e inspirar novas gerações.”
Se há algo que ele não perde é a curiosidade pela vida. A inquietação, diz ele, é combustível.
“Sou um humanista. Interesso-me pelo humano. Quero compartilhar boas histórias com o máximo de pessoas que eu puder.”
Ao final da conversa, levantou o sorriso amplo pelo qual é conhecido e deixou uma frase que ecoa como despedida e promessa:
“É um prazer diminuir essa distância entre nós. Levo comigo o carinho e a memória deste encontro.”
E assim terminou a conversa, onde Angola e Brasil se encontraram no corpo e na voz de um dos maiores actores da terra do Samba.





Publicado por: Miguel José


