“Angola 75”: Exposição resgata a força gráfica da independência no coração de Luanda

Gracieth Issenguele
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Num cenário carregado de simbolismo e nostalgia, o emblemático Palácio de Ferro  abriu portas, na última quarta-feira, 22, para a exposição “Angola 75 – A Expressão Gráfica da Independência”, uma iniciativa que mergulha na memória visual de um dos períodos mais marcantes da história do país. O projecto nasce a partir do acervo de impressos dos coleccionadores José Julião e Jaredh Santos, em parceria com a Fundação BAI.

A cerimónia inaugural contou com o corte simbólico da fita protagonizado por Inokcelina de Carvalho, PCA da fundação, na presença de diversas figuras institucionais, entre elas a secretária de Estado da Cultura, Maria de Jesus da Piedade, em representação do ministro Filipe Zau. A governante sublinhou a profundidade da iniciativa: mais do que uma exposição, trata-se de “um encontro de memória”, onde passado e presente dialogam através da imagem, da identidade e da história.

 Inokcelina de Carvalho reforçou o papel transformador da cultura, destacando a memória como ferramenta educativa essencial para o desenvolvimento do sentido crítico e de pertença, sobretudo entre os mais jovens. Para a responsável, a cultura assume-se como um pilar estratégico capaz de educar, promover a paz e inspirar novas gerações.

Com direcção artística e produção da Letras & Expressões, e consultoria de Íris Chocolate, a exposição resulta de um rigoroso trabalho de pesquisa conduzido por Tila Likunzi e João António Mérito. O resultado é uma narrativa acessível e envolvente que reúne mais de 200 peças — entre cartazes, notas de Kwanza, recortes de jornais, revistas, livros, discos, selos e mapas — distribuídas pelas várias salas do Palácio de Ferro.

A mostra propõe uma leitura aprofundada das dimensões visuais, políticas e afectivas que marcaram o período entre 1960 e 1979, revelando o papel determinante de artistas, escritores e designers gráficos na construção da consciência política e cultural da época. Mais do que registos históricos, os elementos expostos traduzem o pensamento, os anseios e a utopia de uma geração.

Para Jaredh Santos, um dos promotores, esta exposição representa simultaneamente um acto patriótico e a concretização de um sonho. “Há um esforço intelectual que muitas vezes não é valorizado, mas que foi fundamental para a conquista e manutenção da nossa soberania”, afirmou, sublinhando ainda a importância de partilhar com o público um acervo que, durante anos, permaneceu resguardado no espaço privado.

O percurso que deu origem à colecção começou de forma quase acidental, a partir da aquisição de um cartaz em Lisboa, há várias décadas, e foi crescendo com peças adquiridas em leilões internacionais. Hoje, esse espólio ganha nova vida ao ser exposto ao público pela primeira vez, despertando emoções e surpreendendo até os próprios coleccionadores, que admitem redescobrir a história através dos materiais reunidos.

Exposição pedagógica

A exposição assume também uma forte vertente pedagógica. Em parceria com a Fundação BAI, foi concebido um programa educativo que inclui visitas guiadas para escolas, universidades e projectos socioculturais. A iniciativa pretende estimular o pensamento crítico e fomentar o debate sobre identidade, cidadania e memória colectiva, especialmente entre as gerações mais jovens.

Apesar da dimensão já significativa da mostra, os promotores reconhecem que grande parte do acervo permanece por revelar, deixando em aberto a possibilidade de expansão futura e até de itinerância pelo país. “Esta história não é nossa, é do povo”, reforçam, defendendo a necessidade de democratizar o acesso à cultura e ao conhecimento histórico.

A sessão inaugural ficou ainda marcada por um momento cultural protagonizado pela Banda Xiuca 61, num encerramento que celebrou não apenas a arte, mas a identidade de uma nação em permanente construção.

“Angola 75” não é apenas uma exposição — é um convite à redescoberta da história, à valorização da cultura e à reflexão sobre o passado que continua a moldar o presente e está patente até ao dia 29 de maio.

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