A História de Luanda, construída ao longo de diferentes épocas e em permanente transformação, deve ser eternizada por meio da arte. A defesa foi feita por especialistas durante a conferência “Luanda – imagem e corpo de uma cidade”, realizada na última quinta-feira, no emblemático Palácio de Ferro, no quadro das celebrações dos 450 anos da capital, assinalados a 25 de janeiro.

Segundo o Jornal de Angola, o encontro reuniu vozes da cultura que reflectiram sobre as múltiplas formas de representar a cidade. O cineasta e artista plástico Jesualdo Muvumba destacou a complexidade de Luanda, sublinhando que a capital é demasiado rica e diversa para ser retratada apenas em livros. Para o criador, a cidade constrói-se a partir de camadas de vivências, imagens e sons que escapam à linearidade da escrita.

“Retratar Luanda exige cor, movimento e som, e o cinema é a arte que consegue reunir tudo isso, oferecendo uma visão mais completa da cidade. A capital é agitada e dinâmica, com camadas históricas, sociais e culturais que se entrelaçam, e o cinema consegue integrá-las sem precisar de as separar”, explicou. Muvumba reforçou que Luanda não se resume às suas ruas ou edifícios, mas é feita das pessoas, dos mercados, dos bairros e das histórias que se cruzam diariamente. Cada gesto e cada memória contribuem para a complexidade da cidade, tornando urgente a sua preservação para as gerações futuras.

Se o cinema surge como meio-capaz de captar o pulsar urbano em toda a sua dimensão sensorial, a literatura mantém-se como pilar essencial da memória colectiva. O professor do Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda (ISCED-Luanda), Abreu Paxe, recordou que, ao longo do tempo, escritores angolanos têm recorrido à palavra escrita para retratar a capital. Romances, contos e poemas têm explorado a diversidade social e cultural de Luanda, reflectindo desafios, contradições e a riqueza da vida urbana.

“No passado, a cidade foi retratada em textos de autores como Agostinho Neto e Viriato da Cruz, permitindo-nos imaginar como era Luanda naquela época”, referiu o também escritor, defendendo que a literatura continua a ser um instrumento fundamental para preservar a identidade e a História da capital.

A artista de performance Yola Balanga acrescentou uma outra dimensão ao debate, ao associar Luanda aos corpos que ocupam e transformam o seu espaço físico. Para a criadora, a cidade não é apenas um conjunto de construções, mas um território vivo, moldado pelas pessoas que nela vivem, trabalham e se movimentam. Compreender Luanda implica reconhecer as interacções, a energia e as experiências individuais que alimentam o seu dinamismo constante.
Nesse sentido, Yola Balanga enfatizou a importância das artes performativas como meio privilegiado para transmitir a História da cidade. A performance, sublinhou, torna visível o quotidiano, as memórias e as experiências dos habitantes de forma imediata e sensorial, revelando uma Luanda que se sente tanto quanto se observa.
Entre imagens em movimento, páginas escritas e corpos em acção, a conferência deixou uma certeza: eternizar Luanda é um exercício colectivo que passa, inevitavelmente, pela força transformadora da arte.




