Modo Hermita: A revelação do realismo angolano que transforma ancestralidade em imagem

Gracieth Issenguele
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Com apenas 20 anos, João Calandula Alberto afirma-se como uma das vozes emergentes mais consistentes das artes plásticas angolanas. Conhecido artisticamente como Modo Hermita, o jovem pintor tem construído um percurso marcado pelo realismo, pela introspecção e por uma profunda ligação à ancestralidade africana. As suas obras, carregadas de emoção e detalhe, exploram temas como identidade, resistência, espiritualidade e sabedoria dos mais velhos, numa linguagem visual que cruza memória e contemporaneidade. Em entrevista à Revista Chocolate Lifestyle, o artista fala sobre o seu percurso, o projecto Raízes da Alegria e o legado que ambiciona deixar através da arte.

RC: Começou a criar arte ainda muito jovem. De que forma esses sete anos de percurso moldaram a sua identidade artística e como hoje se posiciona no universo das artes plásticas?

JA: Comecei a criar arte muito cedo, ainda em fase de descoberta pessoal. Esses sete anos foram fundamentais para a construção da minha identidade artística, porque me permitiram errar, experimentar e, sobretudo, ouvir a minha própria voz interior. Hoje posiciono-me no universo das artes plásticas como um artista comprometido com a memória, a identidade e a valorização da herança africana.

RC: Optou pelo nome artístico Modo Hermita. Que significado profundo carrega esta identidade e como ela se traduz, na prática, nas suas obras?

JA: O nome artístico Modo Hermita nasce da necessidade de introspecção. Representa o recolhimento, a observação silenciosa e a escuta profunda da ancestralidade. Essa identidade traduz-se em obras que pedem tempo, silêncio e sensibilidade.

RC: A pintura realista é a sua principal linguagem visual. O que o atrai neste estilo e de que maneira o realismo se torna uma ferramenta para valorizar a identidade africana?

JA: O realismo atrai-me porque permite revelar a verdade que existe nos detalhes. Cada ruga, olhar ou textura carrega uma história. É uma ferramenta poderosa para valorizar a identidade africana.

RC: As suas obras abordam temas como ancestralidade, resistência, espiritualidade e sabedoria dos mais velhos. Até que ponto a sua vivência pessoal em Angola influencia estas narrativas visuais?

JA: A minha vivência em Angola influencia profundamente o meu trabalho. Pinto aquilo que vivi, ouvi e senti, sobretudo o respeito pelos mais velhos e pela espiritualidade.

RC: O projecto “Raízes da Alegria” tem-se destacado no seu percurso artístico. Como nasceu esta série e que mensagem central procura transmitir através dela?

JA: O projecto Raízes da Alegria nasceu da observação dos mais velhos e da forma como mantêm serenidade apesar das lutas. A mensagem central é resistência, alegria e ancestralidade.

RC: A emoção e o detalhe são elementos fortes na sua pintura. Qual é o seu processo criativo, desde a concepção da ideia até à obra finalizada?

JA: O meu processo criativo começa com reflexão profunda, passa por estudos visuais e termina numa execução lenta e cuidadosa, onde o detalhe é essencial.

RC: Sendo um jovem artista com formação de Técnico Médio, de que forma a sua base académica contribuiu para a disciplina, organização e leitura crítica do seu próprio trabalho?

JA: A formação como Técnico Médio trouxe-me disciplina, organização e um olhar crítico sobre o meu próprio trabalho.

RC: A juventude é, muitas vezes, associada à experimentação. Sente-se pressionado a inovar ou prefere aprofundar e amadurecer a linguagem que já o define enquanto artista?

JA: Prefiro amadurecer a linguagem que já me define em vez de inovar por pressão externa.

RC: Como avalia o espaço e a valorização dos jovens artistas plásticos no panorama cultural angolano actual?

JA: O espaço para jovens artistas em Angola ainda é limitado, mas existe muito talento e uma geração determinada.

RC: A arte, no seu entender, deve assumir um papel social e político ou deve existir sobretudo como expressão individual?

JA: A arte pode ser expressão individual e acto social ao mesmo tempo.

RC: Que impacto espera causar no público quando alguém se confronta, pela primeira vez, com uma obra assinada por Modo Hermita?

JA: Espero que o público sinta verdade, emoção e reconhecimento ao ver uma obra minha.

RC: A participação em exposições tem sido uma constante no seu percurso recente. Que importância têm esses momentos de partilha e diálogo com o público para a sua evolução artística?

JA: As exposições são momentos essenciais de partilha, aprendizagem e crescimento.

RC: Quais são os principais desafios que enfrenta hoje enquanto jovem artista em Angola e como procura superá-los?

JA: Os maiores desafios são os recursos e o apoio institucional, superados com persistência.

RC: Olhando para o futuro, que caminhos pretende explorar e que legado ambiciona deixar através da sua arte?

JA: Pretendo aprofundar a relação entre realismo, espiritualidade e identidade africana.

RC: Se tivesse de definir Modo Hermita numa única frase, que essência gostaria que ficasse registada na memória cultural angolana?

JA: Modo Hermita transforma ancestralidade e memória em imagens de resistência.

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