Quatro vozes, uma noite inesquecível: “4 Tons de Jazz” faz ecoar talento feminino em Luanda

Gracieth Issenguele
4 leitura mínima

O talento vocal feminino e o espírito de improvisação deram o tom de uma noite memorável na Casa de Artes de Talatona, em Luanda, onde o concerto “4 Tons de Jazz” reuniu em palco quatro vozes marcantes do panorama musical angolano: Afrikkhanita, Bevy Jackson, Kaddsh e Evanice Sousa. Num espectáculo que celebrou a diversidade de timbres, gerações e sensibilidades artísticas, o público foi conduzido por uma experiência sonora marcada pela elegância, criatividade e pela essência mais pura do jazz.

Ao longo da noite, cada artista apresentou a sua identidade musical, revelando diferentes nuances interpretativas. A meio do concerto, Afrikkhanita protagonizou um dos momentos mais marcantes ao lançar-se num improviso sobre um clássico do jazz, acompanhada pelo jovem baterista Fausto Drake. O diálogo entre voz e percussão surgiu de forma espontânea, transformando um tema conhecido num exercício de criação em tempo real. Durante alguns minutos, a sala permaneceu suspensa, envolvida pela magia da improvisação, elemento central do género.

À frente do projecto esteve Afrikkhanita, cantora e compositora amplamente reconhecida como um dos nomes mais relevantes do jazz produzido em Angola. Ao seu lado, brilhou Bevy Jackson, intérprete com um percurso consolidado no panorama musical nacional, cuja presença em palco reforçou a maturidade artística do concerto.

O espectáculo abriu igualmente espaço para a nova geração. Evanice Sousa destacou-se ao interpretar, entre vários temas, uma canção da sua autoria, revelando sensibilidade composicional e uma presença vocal segura. A sua actuação foi recebida com atenção e aplausos pelo público, confirmando o surgimento de uma voz promissora no jazz angolano.

Já Kaddsh despertou curiosidade e admiração entre muitos presentes. Para parte da plateia, aquele foi o primeiro contacto com o trabalho da cantora, que impressionou pelo domínio técnico e pela expressividade vocal, conquistando rapidamente a atenção dos espectadores.

A componente instrumental contou igualmente com jovens músicos de grande talento. Entre eles destacou-se o guitarrista Carlos Praia, protagonista de um dueto intenso com Afrikkhanita. Virtuoso do instrumento, o músico divide actualmente a sua actividade entre Angola e Portugal, onde tem colaborado com nomes respeitados da música portuguesa, como o cantor e guitarrista Rui Veloso.

No teclado esteve Sr. Roland, músico formado na escola da Igreja Adventista e também responsável pela direcção artística do espectáculo. A sua assinatura fez-se sentir na coesão e no equilíbrio sonoro do concerto, garantindo uma base sólida para as interpretações vocais.

A secção rítmica revelou ainda novos talentos, com destaque para o baixista Luís LR, jovem músico que demonstrou notável segurança técnica, precisão rítmica e uma musicalidade refinada. Com uma presença discreta, mas eficaz, deixou no ar a sensação de que poderá afirmar-se como um nome promissor no panorama musical angolano.

O concerto terminou com um fecho apoteótico ao som de “Água de Beber”, clássico da bossa nova brasileira. Na interpretação colectiva, cada cantora assumiu um momento a solo: Evanice Sousa abriu a sequência, Bevy Jackson marcou o tom com elegância, Afrikkhanita elevou a intensidade musical e Kaddsh, formada nos corais da Igreja Metodista, encerrou a actuação de forma arrebatadora.

No final, o público respondeu com uma verdadeira chuva de aplausos, numa clara demonstração de entusiasmo. No meio da plateia, uma espectadora resumiu o sentimento geral da noite com poucas palavras: “Foi lindo.”

Compartilhe este artigo
Sem comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *