Salima Chica: A nova sensação que reafirma a máxima de Black Coffee – “África não é uma selva”

Pihia Rodrigues
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Antes mesmo de procurarmos imprimir certo rigor na identificação de um palco ou pista de referência mundial na cena do house music, atentamo-nos às obras dos artífices. Ou seja, onde obreiros de referência mundial, como os sul-africanos Black Coffee, que agora puxa o compatriota Shimza, tocam naquelas tenebrosas consolas com pistas quase intermináveis, que nem o panorama do aeroporto, eleva, por arrasto, o salão, ainda que circunstancialmente, como o maior (palco).

Vezes sem conta, por inerência da característica fugaz das redes sociais, mormente do TikTok, tropeço em vídeos com recortes de precisão cirúrgica com a evidente intenção de fazer caber naqueles segundos a tamanha emoção expressa pelos houselovers, incluindo o DJ, o protagonista que tem a missão de gerir o foco dos holofotes, ora para as suas assertivas misturas, ora para expor o talento dos músicos e instrumentistas, que, no fim do dia, são o combustível daquele.

Tiki Tiki. O que parecia uma brincadeira digital, hoje viralizou graças a inconfundível e melódica voz da angolana Salima Chica, que despertou a atenção do DJ e produtor sul-africano Oskido, mentor do Black Coffee. A música já corre o mundo numa velocidade ultrassônica, comprovam os vídeos, tal é a envolvência dos convivas, envoltos num misto de surpresa, admiração enquanto abanam a cabeça e erguem os braços, diante de uma batida que impossibilita a indiferença. A voz da cantora irrompe a alma dos dancelovers e do próprio DJ e permite experienciar um toque de ternura, um toque de nostalgia, caprichosamente distribuídos no agente portador, sem perder de vista elementos identitários da sua raiz angolana e congolesa.

É expressiva a emoção do próprio Oskido, num vídeo, onde subiu junto à mesa da consola de Black Coffee, com um toque de dança peculiar e envolvente, que evidencia um gesto de gratidão ao mentorado. E este, mais feliz ainda por ver o seu pai artístico extasiado. O cume da emoção foi o Black virar de costas à mesa misturadora e envolver-se num toque enquanto erguia as mão, um raro registo de dança, tanto do pai, quanto do filho, protagonizado pelo hit do momento “Tiki Tiki”.

A própria Salima Chica, numa entrevista, explicou que no contexto da sua música, “Tiki Tiki” significa reunir-se com boas pessoas, celebrar a vida, a gratidão e a ligação com as nossas origens e tradições. Os angolanos vão ter o privilégio de viver intensamente essa interação na sexta-feira, 6, na Luxxe, discoteca no terraço do Shopping Talatona, uma das casas nocturnas mais apreciadas pelos houselovers, tem o condão de privilegiar a selectividade e, vezes sem conta, a exclusividade.

Importa salientar que este movimento de reafirmação das raizes, inspirado no conceito filosófico africano “Sankofa” – “nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou para trás”, que é a penetração da alma africana através da música em grandes palcos ou pistas mundiais, não é uma obra do acaso. Destacam-se os primórdios do Kwaito, no princípio da década de 1990, época que o cinquentenário Oscar Sibonginkosi Mdlongwa, mais conhecido por Oskido, começou a desacelerar ritmo do house music americano conformando-os com os ritmos africanos nas suas misturas, resultando num som mais lento e dançável para o público local. Daí originou o Kwaito, um dos géneros musicais mais marcantes da África do Sul pós-apartheid. A freagem do house não parou por aí, surgiu o Afro-House e depois o mais recente fenómeno global: Amapiano. Oskido foi responsável por impulsionar e gerir a carreira de grandes lendas da música africana, como Mafikizolo, Bongo Maffin, Black Coffee e DJ Maphorisa.

Movimento ‘África não é uma selva’

Na sequência do movimento de reafirmação das origens, desde 2020 que o DJ e produtor sul-africano Black Coffee lidera um movimento de promoção da autenticidade artística africana que o denominou “Africa is not a Jungle” (África não é uma selva). “Sempre confiamos na Europa para vir e nos salvar, para fazer coisas por nós. É hora de nós, como africanos, fazermos nossas próprias coisas, fazermos nosso próprio Spotify. É o nosso mercado: nós o conhecemos melhor”, desabafava o DJ na introdução de uma entrevista em Barcelona.

‘Africa Is Not A Jungle’ visa levar músicas feitas por novos talentos djs e produtores africanos para grandes festivais pelo mundo. Mas não qualquer música, é aquela feita com alma africana, ainda que seja House, desde que venha do “deep”. Alinhou como ambição levar os novos talentos em circuitos onde actua, como o Hi Ibiza, na Espanha, e o prestigiado Tomorrowland, dos maiores palcos mundiais da música.
“’África não é uma selva’ é uma plataforma para produtores e DJs africanos, e espero que vá além do continente”, desejava no lançamento Nkosinathi Maphumulo, ou Nathi, mais conhecido por Black Coffee, em entrevista cedida ao jornalista David Pollock, ao serviço da revista de música electrónica Mixmag, em Barcelona.

Coffee já levou nessas pistas talentos como Da Capo, Enoo Napa, Themba, Lemon&Herb e a mascote Thandi Draai e Shimza.
“Noventa por cento da música que eu toco é feita por esses artistas, mas a maioria das músicas não está disponível; não existe uma estrutura de gravadora [na África do Sul] para os lançar”, revelou o artista, que não forçou resistência em deixar escapar a sua intrínseca marca: a modéstia, já que não tem ilusões em espalhar os talentos além-fronteiras quando estes ainda não são muito bem conhecidos localmente.

Salima Chica é uma artista angolana-congolesa de 29 ano, com um canto que está a redefinir a energia e a vibração da música africana. Orgulhosamente enraizada em sua dupla herança, ela tece os ritmos pulsantes dos sons tradicionais africanos com o frescor de gêneros contemporâneos como Afrobeats, R&B, Amapiano e Kizomba.

Sua música irradia autenticidade, emoção e ritmo – um reflexo de sua rica formação cultural e sua paixão por conectar pessoas através do ritmo e da melodia. Com cada música, Salima Chica retrata o amor, a alegria e a experiência humana, inspirando os ouvintes a sentir profundamente, dançar livremente e viver plenamente.

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